terça-feira, 30 de abril de 2013

FRANCO-FESTA: Comunidade francesa se reúne para festejar o 1º de maio






Pela primeira vez, quatro associações francesas (Associação de Franceses do Exterior/ADFE, Associação de Pais de Alunos do Liceu Pasteur/APE, São Paulo Accueil/SPA e União dos Franceses do Exterior/UFE) decidiram de se reunir para organizar um evento em comum: a Franco Festa. A intenção dessas associações é de poder reunir em um mesmo dia o maior número possível de franceses para um momento de confraternização e também para recolher fundos para associações caritativas francesas.
A Franco Festa será realizada no feriado de 1º de maio de 2013, no espaço Dom Pedro, entre o Jardim Botânico e o Parque Zoológico da cidade de São Paulo. Um local próprio para o convívio em família em meio ao parque ecológico e a Mata Atlântida que fará esquecer o concreto da cidade!
A Franco Festa promete ser um evento inesquecível. As diversas associações que participam do evento irão disponibilizar diversas opções de entretenimento, como música e prática de esportes e até mesmo circo! Tudo foi planejado para agradar à toda família, desde os pequenos aos adultos. Uma feira beneficente (quermesse) também será organizada.

Piquenique

A proposta da Franco Festa é organizar um grande piquenique coletivo à francesa. A fórmula proposta é simples: cada um é responsável de trazer seu cesto. Será possível completar o piquenique com churrasco, bebidas, crepes e bolos que serão comercializados pelas associações.
O principal objetivo do evento, segundo seus organizadores, é apresentar o universo das associações francesas de São Paulo e dar-lhe apoio. Venha explorar os stands que permitirão apresentar e promover o trabalho feito por elas no cotidiano. Será igualmente uma bela ocasião para levantar fundos para essas organizações.
Diversos parceiros (Mercure, Ibis, Telhanorte, Novotel, BNP, Partage Seguros, Gorioux-Faro, APE, Windeio Green Future, os escritórios Goulène Advogados e Chenut Oliveira Santiago) decidiram apoiar essa iniciativa e tornam possível que a Franco Festa seja organizada nas melhores condições.
A Franco Festa é, desde já, um sucesso anunciado, pois mais de 500 pessoas já confirmaram sua presença. Há alguns dias do evento o entusiasmo é grande tanto do lado dos organizadores, como que da comunidade francesa.

Informações práticas:
Data: 1º de Maio de 2013
Horário: de 10h a 18h
Onde: Espaço Dom Pedro (Avenida Miguel Estéfano, 4241, Água Funda, São Paulo – SP CEP 04301-905)
Tarifa: R$ 25,00 (Gratuito para os menores de 10 anos e para os maiores de 75 anos). Não será possível comprar ingressos no dia do evento).

As informações são do Jornal Francófono ‘Le Petit Journal’.
http://www.lepetitjournal.com/sao-paulo/accueil-sao-paulo/actualite/149035-evenement-a-sao-paulo-place-a-la-premiere-franco-festa

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Governo Francês quer melhor a situação dos estudantes estrangeiros e quer mais brasileiros na França

Sciences Po de Paris, uma das melhores universidades franceses 


             Assim que chegou à presidência francesa em maio de 2012, François Hollande prometeu melhorar a situação dos estudantes estrangeiros na França e, sobretudo, através do cancelamento da “Circular Guéant” que dificultava o acesso dos estudantes estrangeiros ao mercado de trabalho francês.

            Em uma visita a Cité Internationale universitária de Paris em 16 de abril, os ministros do Interior (Manuel Valls) e do Ensino Superior (Geneviève Fioraso) anunciaram algumas medidas para melhorar o acolhimento à estudantes estrangeiros nas universidades francesas.

            A ministra do ensino superior declarou que a França se encontra em uma situação “frágil” em matéria de recepção de alunos estrangeiros. Recentemente, o país passou da 4º a 5º colocação entre os países que mais recebem estudantes estrangeiros. Manuel Valls declarou que “Para ser relevante no mundo de amanhã, a França deverá saber atrair os melhores estudantes, os melhores pesquisadores, os melhores cientistas, isso diz respeito à nossa competitividade”.

            Para simplificar a vida dos estudantes estrangeiros, os ministros anunciaram uma generalização do titre de séjour – visto para residência na França – plurianual aos estudantes de acordo com a duração de seus estudos, evitando a sua renovação anual junto às Prefeituras. Faz parte do plano dos ministros ainda, aproximar prefeituras e universidades para que melhor coordenar o acompanhamento dos alunos estrangeiros.

            Da mesma forma, o governo francês deseja facilitar o acesso dos melhores alunos estrangeiros ao mercado de trabalho francês, o que fora restringido pela “Circular Guéant” durante a presidência de Sarkozy. Desde a chegada de François Hollande ao poder essa circular do Ministério do Interior foi anulada.

            Os ministros negaram que o governo pense em aumentar as taxas de inscrição nas universidades para os alunos estrangeiros. Ainda segundo os ministros, taxas de inscrição mais baixas é um trunfo para a França atrair estudantes asiáticos e brasileiros que não conseguem financiar seus estudos nos Estados Unidos ou no Reino Unido. O objetivo da França é exatamente diversificar a origem geográfica de seus estudantes estrangeiros, atraindo, em especial, um maior número de jovens estudantes e pesquisadores de países emergentes. Nesse sentido, a Assembleia Nacional Francesa começará a analisar em 22 de maio um novo projeto de lei sobre o Ensino Superior e a Pesquisa que legaliza aulas e cursos em língua estrangeira.

            Em 2011, a França contava com cerca de 290.000 estudantes estrangeiros, o que representa 12,3% do total de estudantes no país do Hexágono. A proporção de estudantes estrangeiros aumenta conforme o nível de especialização dos estudos. No doutorado, a proporção chega à 41% de alunos estrangeiros.

As informações são da rubrica política do jornal Libération

Oscar Augusto Berg,
Brésil, le 23 avril 2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

França adota casamento para todos




            O projeto de lei da ministra da Justiça Christiane Taubira que possibilita aos casais do mesmo sexo de se casarem e adotarem foi finalmente adotado pela Assembleia Nacional Francesa hoje à tarde.
            Do total de 566 deputados, 556 votos foram expressos. A maioria absoluta que o projeto necessitava para ser aprovada era de 279 votos a favor, ao final, o projeto de lei Taubira conquistou 331 votos a favor e 225 votos contrários.
Após a divulgação dos resultados, os deputados comemoram aos gritos de “C’est gagné!

            Conforme a análise publicada na sequência da divulgação do resultado pela Assembleia Nacional, os principais apoiadores do projeto de lei foram os grupos Socialista (Groupe Socialiste, républicain et citoyen. 292 membros, 281 votos favoráveis, 4 contrários, 4 abstenções e um membro não-votante, o presidente da casa, Claude Bartolone), Ecologista (Groupe Écologiste. 17 membros e 17 votos favoráveis) e dos radicais-progressistas (Groupe radical, républicain, démocrate et progressiste. 16 membros. 13 votos favoráveis e 2 contrários). A esquerda radical (Groupe de la gauche démocrate et républicaine. 15 membros. 9 votos favoráveis, 4 votos contrários e 1 abstenção), por sua vez, ficou dividida. Marie-George Buffet, ex-candidata à presidência e membro do grupo votou a favor do projeto de lei.
            Os votos contrários ao projeto de lei Taubira vieram, sobretudo, da oposição conservadora. O partido do ex-presidente Nicolas Sarkozy, UMP, votou massivamente contra a proposta do casamento para todos (Groupe de l’union pour un mouvement populaire. 196 membros. 6 votos favoráveis, 183 votos contrários, 5 abstenções). Os centristas e radicais de direita (Groupe de l’union des démocrates et indépendents. 30 membros. 5 votos favoráveis e 25 votos contrários) e os não-inscritos (em sua maioria deputados de extrema-direita que não obtiveram o número mínimo de cadeiras para formar um grupo na Assembleia. 7 votos contrários, nenhum a favor) endossaram a lista oposicionista.
            O deputado dos franceses da América Latina e Caribe, Sr. Sergio Coronado, do grupo ecologista votou a favor do projeto de lei Taubira, recentemente, ele havia subido à tribuna do hemiciclo para defender o casamento para todos. O franco-brasileiro Eduardo Rihan Cypel, do grupo socialista, votou a favor. Os antigos pretendentes à presidência francesa Jean-Louis Borloo (União dos democratas e independentes. Centrista), Noël Mamère (Ecologistas) e Marie-George Buffet (Esquerda democrata e republicana) votaram à favor, enquanto que o soberanista de extrema-direita, Nicolas Dupont-Aignan (Não-inscritos) votou contra.
            Chamou a atenção, contudo, o voto favorável ao projeto de lei dos deputados UMP, Henri Guaino e Luc Chantel que fizeram forte oposição ao casamento para todos. Eles declararam terem errado o botão durante a votação, ao total seriam cinco deputados que votaram errado. Além dos dois, Alain Chrétien, Marcel Bonnot e Marianne Dubois, todos da UMP, também erraram o botão. O erro, contudo, não mudou o resultado de uma disputa que consumiu “136 horas e 56 minutos” de debate da Assembleia, conforme o pronunciamento do presidente da casa, Claude Bartolone. Ainda assim, os deputados UMP Benoist Apparu e Franck Riester que votaram a favor do casamento para todos não se pronunciaram endossando rumores que eles apoiaram a proposta do governo socialista.

Para os oposicionistas, a luta continua

            Henri Guaino, que foi conselheiro do ex-presidente Nicolas Sarkozy, declarou que continuará a manifestar sua oposição ao projeto de casamento e adoção para todos e demandará ao presidente François Hollande realizar um referendo sobre a adoção da lei.
            Os opositores ao projeto de lei do casamento e adoção para todos que se reuniram em torno de grandes manifestações – manifs pour tous (manifestações para todos) prometem não baixar os braços apesar do voto favorável da Assembleia Nacional. Uma parte dos manifestantes contrários ainda que aceite o casamento gay se manifesta contra o projeto de lei, pois ele permite a adoção para os casais do mesmo sexo. Para eles esse é o grande problema do projeto, o ex-militar Philippe que participava de uma manifestação na cidade de Tours, declarou ao jornal Le Monde: “Na verdade, o que nos incomoda na lei Taubira não é o casamento, mas a adoção. Isso quer dizer que a criança adotada por um casal homossexual será inscrita no registro civil como filha de dois pais homo, sem nenhuma menção aos nomes da mãe e pai genéticos, como se fosse filha de um casal que, no entanto, não pode reproduzir. Elimina-se uma referência fundamental na criação da identidade da criança”.

Complicações políticas   

            A França foi tomada de manifestações tanto favoráveis como contrárias ao projeto de casamento para todos, o que dominou toda a discussão política nacional desde janeiro. Alguns líderes do manif pour tous começam a tratar as manifestações como affaire político e se coligaram aos conservadores UMP e FN. Uma das líderes das manifestações, Frigide Barjot apareceu recentemente ao lado de um eleito do partido de extrema-direita FN, uma posição que não agradou à grande parte dos manifestantes.
            Após a votação favorável na Assembleia Nacional, onde a esquerda possui uma maioria esmagadora, a oposição irá consultar o Conselho Constitucional em relação a constitucionalidade do projeto de lei, o que deverá retardar em mais um mês a outorga da lei por parte do Presidente François Hollande. Os primeiros casamentos de casais do mesmo sexo deverão ocorrer somente a partir da metade do mês de junho.
            Caso a outorga da lei se estenda e as manifestações contrárias a lei aumentem poderá criar-se mais um problema político para o presidente François Hollande e para o governo socialista. O grande trunfo que contam os manifestantes contrários e a direita francesa é a pressão sobre os eleitos locais em função das eleições municipais do próximo ano. Uma eleição que se anuncia desde já difícil à maioria presidencial socialista em função da crise econômica na França e da impopularidade do presidente Hollande.
            A implicação de François Hollande é direta, pois ainda candidato, o socialista decidiu abraçar a proposta do casamento e adoção para casais do mesmo sexo, inscrevendo-a em suas propostas de campanha:

            Sob a ótica eleitoral, para o eleitorado progressista que já havia confiado seu voto em Hollande em maio de 2012 a adoção da lei significa o cumprimento de mais uma proposta de campanha, contudo, é difícil identificar o quanto, atualmente, a aprovação da lei poderá conquistar novos eleitores aos socialistas na perspectiva das próximas eleições. O fato é que a lei representa um grande avanço social na França. Os socialistas franceses, mais uma vez, se colocam como os responsáveis pelas grandes mudanças societárias, da mesma forma como nos anos 80 durante a presidência de François Mitterrand, o ministro da justiça Robert Badinter pediu a Assembleia Nacional a abolição da pena de morte, apoiada pela maioria socialista da Assembleia Nacional. Para aqueles que conseguiram manter uma posição indiferente em relação à lei Taubira, sua aprovação e futura promulgação pelo Presidente Hollande significa mudar o foco do debate político para outros domínios, visto que o casamento para todos ocupou a atenção dos franceses desde janeiro desse ano. Até mesmo para o Presidente Hollande o final do grande debate sobre o casamento para todos poderá ser uma boa notícia, pois garante seu lugar na história como chefe de Estado responsável pela promulgação do casamento de pessoas do mesmo sexo no 14º país do mundo – 9º país europeu – e também permite que o governo volte a apresentar para um público mais significativo suas proposições para vencer a crise econômica internacional, recuperando o prestígio da opinião pública francesa. Quem sabe a distância do tempo permita à François Hollande cantar seu primeiro ano de presidente ao som de Non, je ne regrette rien!
A França deverá ser o 14º país a adotar o casamento homossexual no mundo


Para uma lista completa dos deputados que votaram contra e a favor do projeto de lei, acesse o link da Assembleia Nacional Francesa:

Oscar Augusto Berg
Brésil, le 23 avril 2013.
Fotos retiradas do motor de pesquisa do Google.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Habemus Austeritas


Milhares de manifestantes europeus se reúnem em Bruxelas para protestar contra a austeridade



Ontem, a declaração do cardeal francês Jean-Louis Tauran “habemus papum” fez a alegria de milhões de cristãos mundo afora e ecoou na lotada Praça de São Pedro.

Hoje, um pouco distante do Vaticano, mas ainda sob o mesmo continente, a expressão latina foi lembrada por milhares de manifestantes vindos dos 27 Estados Membros da União Europeia protestar no Parc du Centenaire em Bruxelas contra as políticas de austeridade implementadas pelos governos europeus. A secretária-geral da Federação Sindical belga FGTB anunciou “Habemus austeritas!” e ao longo de seu discurso anunciou o objetivo da manifestação pacífica que reuniu cerca de 15 000 manifestantes: “Nós estamos aqui para advertir o Conselho Europeu. Em cada Reunião de Cúpula, a situação dos trabalhadores é colocada em perigo.”

Nos dias 14 e 15, os 27 Estados Membros da UE se reúnem em Bruxelas para uma nova Cúpula do Conselho Europeu (Reunião dos chefes de Estado e de Governo dos membros da UE). Essa reunião é vista como crítica para os europeus, pois ela se insere em um contexto de impasse político na Itália após as últimas eleições legislativas, de agravamento da recessão nos países do sul e de início de campanha eleitoral na Alemanha que definirá o futuro político de Angela Merkel em setembro próximo.
Até a divulgação do resultado das eleições legislativas na Itália, que deram aos populistas Berlusconi e Grillo um número considerável de cadeiras no parlamento, a política de austeridade defendida pela chanceler alemã Angela Merkel foi implementada como receituário para a saída da crise. A passagem por um período de recessão seria inevitável para reequilibrar as finanças dos Estados e recuperar a competitividade de suas economias, o preço a pagar pelos excessos do passado. Contudo, esse receituário de A. Merkel começa a perder apoio em todo o continente, pois mesmo que seguido por países como Espanha, Grécia e Portugal ele não está os ajudando a enfrentar melhor a crise.

De acordo com resultados divulgados recentemente, a recessão em 2012 (queda de 3,2% do PIB) em Portugal é a pior desde 1975. Na Grécia, a queda do PIB nesse período foi ainda mais violenta - 6,2% - sendo o quinto ano consecutivo de recessão. A Espanha também se encontra em uma situação crítica, sobretudo, em função do forte desemprego no país, o que levou a classe dirigente espanhola a se afastar das obrigações fiscais acordadas junto aos parceiros europeus. De passagem por Bruxelas, segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Garcia-Margallo, advertiu os riscos de uma “austeridade excessiva” que “não vai contribuir na saída da recessão”.

Conforme podemos ver pela imagem abaixo, a situação europeia divide-se entre dois grupos: os bons e os maus alunos do receituário de A. Merkel, ou seja, aqueles que fazem esforços para reduzir o déficit fiscal e aqueles que não seguem a risca. Ainda assim, mesmo nos ditos “bons alunos”, como a Bélgica e até mesmo na própria Alemanha, a situação social não é muito superior em relação aos vizinhos europeus.

Previsão de Déficit Orçamentário para o ano 2013 nos países da Zona do Euro (em % do PIB)


Constata-se que a crise econômica europeia é também política, apesar de diversos manifestos como os realizados hoje em Bruxelas, não se impôs na Europa um receituário diferente daquele defendido por A. Merkel. Pelo contrário, os países europeus em pior situação fiscal recorrem a uma única ferramenta: a renegociação da data limite para reequilíbrio fiscal de 3% de déficit em relação do PIB. A esquerda europeia, oposição na maior parte dos países europeus atualmente, não convence os eleitores de sua capacidade de melhor solucionar a crise e a nova experiência socialista francesa, mesmo que não abrace a ideia da austeridade à moda de A. Merkel, falha em propor uma saída alternativa. Até o momento o principal recurso dos eleitores europeus, conforme a última eleição italiana, é o voto em políticos populistas que conspiram contra as instâncias comunitárias e propõe a saída da zona do euro como solução a crise, uma medida irresponsável mas que, em tempos de incapacidade da esquerda propor novas soluções e da direita tradicional defender com firmeza as ferramentas implementadas por ela, encontra um eleitorado cativo. Nesse cenário, nem mesmo uma possível derrota de A. Merkel para os Social-Democratas em setembro poderá provocar uma mudança importante na política europeia vis-à-vis do contencioso orçamentário.

Oscar Berg,
Le 14 mars 2013.

sábado, 9 de março de 2013

Para Ministro francês: “O mundo ganharia com ditadores como Chávez”


Veja algumas reações dos políticos franceses sobre a  morte de Hugo Chávez

Franceses simpatizantes de Chávez se reúnem em frente a estátua de Simon Bolívar para homenagear o líder morto

Victorin Lurel, ministro da França Ultramarítima, que representou o governo francês no funeral do Presidente Venezuelano, Hugo Chávez, recusou chamar o líder do Socialsmo Bolivariano de ditador: “Eu digo, e isto pode me ser censurado, que o mundo ganharia em ter muitos ditadores como Chávez, pois julga-se que ele tenha sido um ditador. Ele, por quatorze anos, respeitos os direitos humanos”, declarou às rádios RTL e Europa 1.

Victorin Lurel, Mnistro da França Ultramarítima, representou os franceses no funeral de Chávez
Continuando seu compte-rendu emocionado, o ministro francês afirmou que Chávez era ao mesmo tempo De Gaulle (militar francês, líder da Resistência externa na II Guerra Mundial e fundador do gaullismo, uma ideologia política francesa de direita) e Léon Blum (Primeiro socialista a ser nomeado chefe de governo na França): “De Gaulle pois ele Chávez mudou profundamente as instituições e então Léon Blum, quero dizer a Frente Popular [Partido de Esquerda que venceu as eleições de 1936 reunindo socialistas, radicais de esquerda e comunistas], porque ele lutou contra as injustiças.” 

Mesmo que o ministro francês classifique a prática de embalsamar o corpo do ex-presidente de pertencente “a outra época” (lembremos que Lênin é uma das grandes figuras embalsamadas mundo a fora), ele revelou ter ficado impressionado pela preparação do corpo de Chávez: “Ele parecia jovem, em ótimo estado, estava sereno, como podem estar as feições de alguém morto”. Ainda, segundo o ministro, via-se um Chávez “que não estava bochechudo, como se percebia desde sua doença”.

François Hollande celebra o líder que marcou a história da Venezuela
No dia da morte do líder Venezuelano, o presidente francês, François Hollande, enviou uma carta apresentando seus sentimentos ao povo venezuelano. Hollande declarou que “O Presidente morto exprimia além de seu temperamento e de orientações que nem todos concordavam, uma imensa vontade de lutar pela justiça e pelo desenvolvimento”. Para o presidente francês, Hugo Chávez “marcou profundamente a história de seu país”.

“Chávez nunca irá morrer”
Se François Hollande não repetiu a mesma emoção de seu ministro Victorin Lurel em seus comunicados, é um outro antigo postulante à presidência francesa, Jean-Luc Mélenchon, que reivindica uma forte ligação à Venezuela de Hugo Chavez.

A admiração de Mélenchon por Chávez começou quando o esquerdista francês participou do Forum Social Mundial em Caracas, em 2006 (Mélenchon era uma figura constante nos Fóruns realizados em Porto Alegre, e um nome conhecido da esquerda gaúcha). No dia da morte do líder Venezuela, Mélenchon – co-presidente da Frente de Esquerda, partido que reúne o PCF e o Partido de Esquerda, fundado por ele – organizou uma homenagem a Chavez nos pés da estátua de Simon Bolívar em Paris, ao curso da qual, Mélenchon declarou que “Chávez nunca irá morrer”.

Jean-Luc Mélenchon com Hugo Chávez (acima à esquerda) e discursando na noite de homenagens ao líder venezuelano em Paris (acima)

 A ambivalência do Chavismo se fez presente na homenagem. Se de um lado fez-se uma homenagem ao Presidente reeleito democraticamente por diversas vezes, que lutou pela igualdade, justiça e fim da miséria, a ligação de Chávez com ditadores do Oriente Próximo foi lembrada: em meio ao evento uma bandeira com de Bashar Al-Assad foi levantada por simpatizantes do regime de Damas, Jean-Luc Mélenhon precisou intervir junto aos militantes.


Militantes pró-Assad compareceram na noite de homenagens à Hugo Chávez

Esse evento representa a essência do chavismo: uma vontade incessante de lutar pela justiça social, defender os mais pobres e criar meios para que estes ascendam à uma vida digna, mas também uma ambivalência marcada pelo apoio à regimes ditatoriais e uma determinação em controlar os meios de comunicação venezuelanos. Como uma homenagem a Chávez, faço uso das palavras de François Hollande: Homenageio aquele Hugo Chávez que transformou seu país e lutando contra a pobreza, marcou profundamente a história venezuelana, sem, no entanto, concordar com todas suas práticas.

Oscar Berg
Le 9 mars 2013






quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Qual exílio para franceses e belgas?

Entre fortunas e equipes de futebol, a fronteira belga-francesa esteve movimentada ao longo de 2012

As relações entre a França e a Bélgica deram o que falar neste ano. Não tanto pela recepção do novo presidente francês por Bruxelas, mas sobretudo por assuntos bem originais nas relações entre os dois vizinhos.

O star francês Gérard Depardieu partiu para a Bélgica para escapar dos altos impostos franceses...


Primeiramente, o ano foi marcado por ricaços franceses que cruzaram a fronteira em busca de vantagens fiscais. Em um primeiro momento, foi o executivo francês Bernard Arnault, o homem mais rico da França e também da União Europeia, cuja fortuna é estimada em 41 bilhões de dólares (fazendo dele o quarto homem mais rico do mundo em 2012 pelos dados da Forbes), que pedira ‘exílio fiscal’ na Bélgica para fugir dos altos (altíssimos) impostos de sucessão franceses (que se elevam à 40% contra 3% do lado belga). Após o executivo, foi o ator francês Gérard Depardieu que deu início ao processo de naturalização belga, tendo adquirido uma residência no país (próximo à fronteira com a francesa Lille) e entregado seu passaporte francês, buscando igualmente fugir de suas obrigações com o fisco francês.

Em face da polêmica, o ministro dos negócios estrangeiros belga, Didier Reynders, declarou que a Bélgica estaria pronta a estender a mão aos franceses que buscam o ‘exílio fiscal’, deixando claro que a França deveria “assumir as conseqüencias de um sistema fiscal que conduz seus cidadãos nacionais a deixarem o país”. O sistema fiscal belga é o mesmo desde 1830, ao passo, que o francês sofre constantes modificações de acordo com a mudança dos governantes e a alternância da direita e esquerda no poder. Procurando restabelecer a calma em um caso que suscitou inúmeras reações dos dois lados da fronteira (o primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault taxou a fuga fiscal de Depardieu de patética5), o ministro belga tratou de lembrar que seus concidadãos atravessam a fronteira para fazer compras na França devido ao imposto sobre o consumo (TVA – Taxa sobre o valor acrescentado) ser menor do lado gaulês. Vale lembrar que ainda que ambos os chefes de governo francês e belga sejam socialistas (Elio di Rupo, o atual primeiro-ministro belga desde dezembro de 2011, que esteve inclusive presente na campanha de François Hollande em janeiro deste ano), uma crise mediática não foi evitada no caso do ‘exílio fiscal’.

Mas nessa quarta-feira, o ‘exílio’  tomou a direção contrária. Ou seja, desta vez, são belgas cruzando a fronteira em busca de vantagens na França. Contudo, não se trata de nenhum grande executivo ou ator renomado belga que procura se instalar no Hexágono, e sim... uma equipe de futebol!

Assim, ainda que os impostos franceses não sejam bem vistos pelos belgas, pelo menos o futebol dos gauleses continua admirado do outro lado da fronteira, a ponto de uma grande equipe da primeira divisão belga – o Standard de Liège, uma das equipes mais ricas do país de Jacques Brel e Tintim – dar a entender que iria aderir à 1ª Divisão do Futebol Francês.

...enquanto o dirigente belga Roland Duchâtelet procura a França  para aumentar direitos de imagem de seu time.


Roland Duchâtelet, o presidente do clube de Liège – a quarta cidade da Bélgica – defende a criação de uma liga de futebol reunindo clubes belgas e holandeses – oito clubes belgas e doze holandeses, buscando respeitar um critério demográfico, explica logo o dirigente belga - a fim de evitar a morte natural do campeonato belga. A criação da Beneliga seria necessária para que os clubes belgas pudessem recuperar direitos televisivos que perderam para outros clubes europeus nos últimos anos. Segundo Duchâtelet «Há 15 anos, os clubes belgas tinham o monopólio do futebol na Bélgica, as transmissões televisivas apenas mostravam jogos belgas, mas, hoje em dia, estamos numa situação de forte concorrência com a Premier League, a Liga Espanhola ou a Bundesliga Alemã, é um problema existencial, não o reconhecer seria uma idiotice». 

Duchâtelet estabeleceu o prazo de dois anos para a criação do campeonato belga-holandês, o qual já teria o apoio dos maiores clubes das antigas Províncias Unidas, a saber: Anderlecht e Bruges (belgas) e Ajax e PSV Eindovhen (holandeses).

Caso o prazo não seja respeitado e o projeto não seja levado adiante, o Standard de Liège irá aderir a Liga francesa, o que segundo o presidente do clube, é legalmente possível, caso os franceses estiverem de acordo. Exílio ‘televisivo’, ‘mediático’?

Segundo Arnaud Rouger, diretor de atividades esportivas da Liga de Futebol Profissional (LFP) da França, a equipe belga não poderia participar da Liga Francesa apenas através de um pedido, pois tanto FIFA como UEFA – instâncias superiores do futebol internacional – não autorizam as federações, como a LFP, de englobar clubes que não pertençam ao seu território nacional. Além disso, seria necessário que a equipe belga fosse uma sociedade de direito francesa. Ainda segundo Arnaud Rouger, a equipe de Liège já havia se informado junto à LFP da possibilidade de integrar a Liga Francesa há 6-7 anos, mas nenhum pedido oficial foi requisitado.

Não fechando a porta totalmente aos belgas, Rouger declarou que “a questão poderia ser estudada, mas há inúmeros obstáculos para conseguir-se alguma coisa”.

Realmente parece que não são apenas as grandes fortunas francesas que sofrem da falta de ‘solidariedade’ dos responsáveis nacionais, mas os clubes de futebol estrangeiros que buscam exílio ‘televisivo’ na França também!

Leituras complementares e fontes

[1] Sudpresse (Jornal francófono belga): « Roland Duchâtelet ameaça : é preciso a Beneliga dentro de 2 anos ou o Standard vai jogar ... na França ».  Disponível em: http://www.sudinfo.be/630594/article/sports/foot-belge/standard/2012-12-26/roland-duchatelet-menace-il-faut-la-beneliga-dans-2-ans-ou-le-standard-ira-

[2] Dernière Heure (Jornal francófono Belga): «Impossível de ver o Standard jogar na Liga 1». Disponível em : http://www.dhnet.be/sports/standard/article/419369/impossible-de-voir-le-standard-jouer-en-ligue-1.html

[3] Le Monde (Jornal francês): « A Bélgica se diz pronta para acolher os exilados fiscais franceses » Disponível em: http://www.lemonde.fr/economie/article/2012/12/18/la-belgique-se-dit-prete-a-accueillir-les-exiles-fiscaux-francais_1807679_3234.html

[4] Sobre a participação de Elio di Rupo na campanha de François Hollande, ver: RTL Info (Site de notícias belga): « Por que Elio di Rupo irá aplaudir François Hollande ». Disponível em : http://blogs.rtl.be/carnetpolitique/pourquoi-elio-di-rupo-ira-applaudir-francois-hollande/

[5] Declaração do Primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault sobre o exílio de Depardieu. Disponível em: http://www.dailymotion.com/video/xvuf3j_ayrault-le-depart-de-gerard-depardieu-est-minable_news#.UNvRUOT7LSs

Oscar Berg,
Brésil, 26/12/2012

domingo, 28 de outubro de 2012

Serra, seja Jospin!



21 de abril de 2002. O socialista francês Lionel Jospin reúne sua equipe de campanha e seus militantes para fazer seu discurso após o fracasso do PS na eleição presidencial francesa daquele ano na qual ele, pela segunda vez, representava os socialistas. Jospin não esconde seu desapontamento com os resultados, afinal ele era primeiro-ministro até então e ainda por cima bem avaliado, toma a responsabilidade pela derrota e por final, se retira da vida política francesa.

28 de outubro de 2012. O tucano José Serra reúne sua equipe de campanha e seus militantes para discursar após a terceira derrota em eleições majoritárias nesta década. Após ter sido duas vezes derrotado na corrida presidencial, Serra desta vez perde para o novato Fernando Haddad na disputa da prefeitura paulistana. Serra discursa em consonância ao seu pronunciamento de 2010 (na sequência da derrota à também novata Dilma Rousseff): não se responsabiliza pela derrota, nem a lamenta profundamente, pelo contrário. Asfixiado, disse que saíra da eleição com ainda mais energia, mas que sinceramente não sabia no que empregá-la. Engana a si mesmo, e só.

Esse texto procura ajudar Serra a encontrar um bom emprego para tanta energia: largar a toalha e abandonar a política, uma tarefa que aliás, requer tamanha energia e que já devia ter sido tomada.

Se a derrota une José Serra a Lionel Jospin, a reação face a ela, os separa. Um reage respeitando a decisão dos eleitores, afinal democrática; outro não a aceita. Retirando-se da política, este avança; Enganado-se na posição de líder, o outro afunda.

A saída de Lionel Jospin não levou automaticamente os socialistas de volta ao poder na França, levaram, ao contrário, 10 anos mais para isso acontecer. Em 10 anos, Jospin tendo saído da vida política francesa e aberto mão da liderança dos socialistas, o PS se reestruturou, adotou novas políticas e abriu espaço para novos nomes. Em 2007 não suficiente, ainda teve de engolir outra dura derrota na presidencial, mas em 2012 deu a volta por cima, e com François Hollande – um nome desligado da era Jospin – retomou o Eliseu.

A esperada (achei ‘provável’ uma palavra muito forte em se tratando de José Serra) saída de Serra também não fará do PSDB vitorioso nas próximas eleições. Muita coisa precisa ser reconstruída. Certamente ainda há Aécio Neves, mas desde FHC o PSDB não faz que queimar seus grandes nomes (Serra de outrora, Alckimin e Aécio), enquanto que sem grandes nomes o PT se fortalece. No entanto, a saída de Serra é necessária: só assim, questões obscuras como o apoio de Silas Malafaia poderá ser revisto e só assim igualmente o partido estará descansado de ter que encontrar um novo cargo para Serra após cada derrota premeditada. Até o povo tucano gostaria que Serra surpreendesse à la Jospin.

Desde 2002, quando deixou a vida política, Lionel Jospin tem se dedicado a outras tarefas: escreve, constantemente é convidado a se exprimir em cadeias de rádio e televisão nacionais, participa dos grandes congressos do PS. Recuperou o devido respeito que qualquer derrota coloca em risco. Após o desmoralizante governo Sarkozy, o novo presidente François Hollande chamou Lionel Jospin para liderar uma comissão responsável justamente por moralizar a vida política. Honra recuperada! Exemplo (apesar de eu desconhecer  José Serra escritor) a ser seguido, ex-tudo Serra!

Em 2010, Serra disse que chegou ao final da campanha – que trouxera mais uma derrota – com a mesma energia com a qual a começara. Em 2012, repetiu – praticamente de forma idêntica – a frase. Errou e repetiu no erro. O PSDB afunda.

O PSDB afunda, resistirá por mais tempo que se esperava provavelmente (ainda tem cartas a queimar e eventualmente dá sorte em ressuscitar um tipo como Artur Virgílio ou ACM Neto). Mas, certamente desaparecerá. A derrota em São Paulo agrava ainda mais a situação e o PSDB começa o projeto 2014 não disputando com Dilma Rousseff o Palácio do Planalto, mas com Eduardo Campos a preferência dos analistas como maior desafiante ao poder petista.

Se o PSDB está nesta situação, muito se deve a Serra: duas derrotas presidenciais não podem ser relativizadas. E se Serra errou, é porque não quis ser Jospin: colocou sempre sua fixação em entrar para história como presidente acima do interesse de seu partido, de “seu povo”, e não desistiu; sequer mudou e apenas seguiu irresponsavelmente em frente. Cego, não olhou para o lado e não percebeu que pode-se entrar na história por vários motivos, como fez Jospin, que renunciou ao sonho e abriu espaço para o novo. Serra sufocou o PSDB, ao não dar espaço para o novo. Serra sufocou a democracia, ao se alinhar com as ideias mais conservadoras e reacionárias deste país transferidas pelo discurso fundamentalista evangélico. Serra sufocou a análise crítica, ao não reconhecer sua responsabilidade pela derrota. Serra sufocou a si mesmo. E morreu. No discurso da morte acenou com um “até logo” (2010), quando todos gritavam: Serra, seja Lionel Jospin!

Eu gostaria de ver José Serra ter a coragem de Lionel Jospin.
Ódio a Serra? Não, simplesmente muito carinho pela nossa frágil democracia, que tanto terá uma oposição fracassada, tanto terá um governo irresponsável. Serra, seja Jospin!
Amor a Serra? Tampouco, se aviso é porque simplesmente penso que Serra ainda não tenha tomado conta que a hora de se retirar da política passou. Prezo pela integridade da política: Serra, seja Jospin!

Serra, seja Jospin! Dê Adeus!


Links discursos relacionados:


Pronunciamento Jospin 2002 – Abandono da vida política (em francês) http://www.youtube.com/watch?v=Ux11q2LX4Ms


Oscar Berg,
Brésil, le 28 Octobre 2012


terça-feira, 26 de junho de 2012

Evento FrancePo




Na próxima quarta-feira (27/06) FrancePo convida todos seus companheiros a participar da Palestra "Le Rêve Français - Qui est François Hollande - le nouveau Président français, et quelles sont ses idées pour la France et pour le Monde?" ("O sonho francês - Quem é François Hollande - novo presidente francês, e quais são suas idéias para a France e para o Mundo?") que será realizada com o apoio do Unidiomas nas dependências do Unilasalle Canoas - Centro Universitário La Salle Canoas.

Na palestra serão abordadas as seguintes questões:

* Quem é François Hollande, o novo presidente eleito?

* Qual foi o caminho percorrido por ele até chegar ao Palácio do Eliseu?

* Quais são as principais ideias de François Hollande para a França e para o mundo?

* Quais estão sendo os primeiros passos dados por François Hollande e sua equipe?

*Quais desafios para o novo presidente?

Para abordar o tema de uma forma diferente, a palestra será realizada inteiramente em francês e contará com os alunos do curso de língua francesa do Unidiomas para realizar a interpretação e tradução, possibilitando que interessados no assunto que não dominem a língua do país do Hexágono possam participar também!

Conto com a presença de todos,
para mim será muito importante!

Saudações,
Oscar A Berg

terça-feira, 15 de maio de 2012

A França vira a página Sarkozy


Depois de 17 anos, um socialista volta ao Palácio do Élysée


Da noite de festa do 6 de maio a manhã de 7 de maio, a França amanheceu um novo país, na passagem destes dois dias a França não apenas escolheu um novo presidente, mas um novo destino. O que esteve em jogo na eleição presidencial de 2012 dividida em dois turnos equilibrados e muito disputados foi muito maior que a vaga ao qual destinava-se o pleito. Esteve em jogo, mais do que nunca, o futuro da França, sua escolha entre conformismo ou desafio; divisão ou conciliação e - em momentos de crise da dívida, algo que faz muito sentido - austeridade ou crescimento. No momento em que François Hollande ascende ao topo do Estado Francês, a definição dos desafios acima torna a transição do conservador Sarkozy ao socialista Hollande não apenas uma simples alternância de poder mas uma verdadeira mudança, pois como nos dizia o slogan de François Hollande « A mudança é agora ».

Eu recebo os resultados da eleição presidencial francesa de 2012 mais como um grito de esperança que um grito de desconfiança no presidente Sarkozy. François Hollande conseguiu ao longo do período entre sua candidatura às primárias socialistas e ia vitória no último domingo aquilo que nenhum outro socialista francês havia conseguido desde Mitterrand em 1988: Suscitar a esperança. Certamente a crítica ao saldo do governo Sarkozy-Fillon passou pelo discurso de Hollande, mas não foi a desconfiança dos franceses em relação ao agora ex-presidente que fez o socialista vencer, no entanto, foi a capacidade de suscitar em seu eleitorado aquilo que ele mesmo chamou de « Rêve Français », ou seja, o ideal republicano em que é tornado possível a uma geração viver melhor que a sua predecessora.

Eu recebo o resultado da eleição presidencial francesa de 2012 como uma chance para a Europa. A crise européia atual é vista como uma crise da dívida pública, no entanto, antes disso, a crise européia é uma crise social e política ambas resguardando relações de causa consequência entre si. Social, pois a Europa vive a crise do modelo que criou e defendeu, aquele do bem-estar social. Política, pois esta crise é uma consequência do marasmo da social-democracia européia, que há anos não consegue traduzir as transformações do Sistema Internacional em reformas que continuem a deixar competitivo o sistema produtivo europeu e que deem continuidade ao welfare state como organização estatal de excelência de igualdade e justiça. A combinação das duas crises acima é o desemprego em massa das populações europeias e a desindustrialização contínua  do continente, o que por final emerge um novo risco à democracia e integridade do bloco da UE: o crescimento da extrema-direita.

Eleito em 06 de maio de 2012, com 51,7% dos votos, François Hollande, do Partido Socialista terá a sua frente grandes desafios a corresponder e promessas a cumprir. Sabemos de antemão que caso Hollande venha a falhar em algum dos dois pontos acima, a social-democracia européia terá perdido a chance que lhe foi conferida no último domingo de reerguer-se, e o voto contestatório da extrema-direita baterá a porta dos progressistas. O papel de Hollande na história portanto, transcende a eleição do último domingo e as fronteiras do Hexágono francês e apresenta-se – como ele mesmo declarou em seu discurso da vitória em seu reduto eleitoral, a pequena Tulle – como um alívio, uma esperança à Europa, um ponto final a ideia de que a austeridade é uma fatalidade.






segunda-feira, 30 de abril de 2012

Como votaram os franceses


No último post, no qual apresentei todos os candidatos a eleição presidencial francesa, tracei dois prováveis cenários para o voto francês de primeiro turno, eis que na prática vimos meu primeiro prognóstico ocorrer. Em 2012, os franceses repetiram a fórmula de 2007. Nada a ver com a vitória de Nicolas Sarkozy no primeiro turno, visto que passados cinco anos de governo ele perdeu esta posição para seu desafiante socialista, François Hollande. No entanto, o que notamos foi que os candidatos dos partidos de poder (UMP e PS) distanciaram-se muito de seus desafiantes. Marine Le Pen, Jean-Luc Mélenchon e François Bayrou, fizeram nesta ordem as posições seguintes do ‘grid de chegada’, como podemos ver na imagem abaixo.






No entanto, nem tudo repetiu-se de 2007 a 2012. Primeiro lugar (mas não mais importante), a primeira posição saiu das mãos da direita e caiu nas mãos da esquerda. Segundo – e mais notável – o terceiro colocado manteve-se na casa de 18% dos votos, mas desta vez, a posição não pertenceu aos centristas da MoDem de François Bayrou, mas aos ultranacionalistas da Front National sob a liderança de Marine Le Pen. Terceira mudança entre essas duas eleições está a posição da extrema-esquerda na eleição, detentora de menos de 2% dos votos em 2012, esse posicionamento está aquém do obtido somente pelo anticapitalista Olivier Besancenot (NPA) com seus 4% de 2007. O fraco desempenho da extrema-esquerda não está apenas na mudança de candidato anticapitalista, mas também pela mudança ocorrida na casa dos trotskystas da Lutte Ouvrière, que confiaram pela primeira vez sua candidatura a outra pessoa que Arlette Laguiller. Nesta dura troca, Nathalie Arthaud conquistou pouco mais que 0,5% dos votos.
Quanto às particularidades de 2012 a mais importante delas foi em relação a votação – pouco expressiva, aquém das expectativas – de Jean-Luc Mélenchon, cuja candidatura fez muito barulho e provocou o ressurgimento do Partido Comunista Francês através da Front de Gauche, mas no final não correspondeu a toda a ambiance gerada entre seus militantes nas últimas semanas de campanha. Tendo começado a jornada do 22 de abril com expectativas de tornar-se a terceira força política da França e criar um domínio paralelo ao Partido Socialista no seio da esquerda francesa, a Front de Gauche falhou em sua tarefa ao obter módicos 11,11% (nas sondagens falávamos entre 14%-16%, com esperanças de romper a barreira dos 18%).
A impressão que temos ao final do primeiro turno é que a França está a beira de importantes transformações políticas, sobretudo de sua direita. Dominante desde o final da 2ª Grande Guerra, o Gaullismo havia posto-se como grande força da direita e a Constituição de 1958 foi apenas o auge de seu domínio que estendeu-se ao menos até o final da presidência de Georges Pompidou (1974) e tomou um novo ar com a eleição de Jacques Chirac (1995,2002) e porque não, seu sucessor Nicolas Sarkozy (2007). O que vemos hoje, é uma disputa dentro da direita, da mesma forma que o Partido Socialista originado do Congresso de Épinay (1971) batalhou com o poderoso aliado de Moscou PCF pelo domínio da esquerda francesa, parece-nos que UMP e FN disputam hoje a direita. De ambos os lados, duas concepções de direita, mas também dois discursos semelhantes. Para não deixar escapar eleitores da FN, Sarkozy e sua trupe (encabeçada pelo número 1 da UMP, Jean-François Copé, pelo primeiro-ministro, François Fillon, e o ministro do interior, Claude Guéant) tem cada vez mais aderido ao discurso anti-imigrante, ao mesmo tempo em que, para agregar cada vez mais simpatizantes à sua ideia de França, Marine Le Pen tem dotado a FN - a qual preside - de um discurso social inovador (Ver Le Monde Diplomatique Brasil abril/2012).
Dois dados estatísticos devem no entanto guardar nossa atenção acerca do resultado da eleição francesa: primeiro, 1 em cada 3 franceses optou pelos extremos do espectro político, e segundo, 1 em cada 5 franceses decidiu-se por candidatos que propunham a saída do euro. A França moderada do respeito e da laicidade, que vê seu futuro na construção européia, a qual nos habituamos a conhecer nas últimas décadas está cada vez mais distante, será necessário que o próximo presidente francês, seja ele, François Hollande ou um Nicolas Sarkozy 2.0, escute esses eleitores.

Oscar Berg,
Brésil, le 1er mai 2012.