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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Droit Devant

Sarkozy está de volta.

Nicolas Sarkozy, eleito presidente da UMP


                Existe uma música da banda quebequense Cowboys Fringants que diz o seguinte: « prépare toi petit garçon, elle sera longue l’expédition, et même si on n’en revient jamais vivant, Il faut marcher droit devant ». O nome da música é o mesmo deste post, ‘direto à frente’, e resume bem o que deve fazer o recém-eleito Presidente do partido União por um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy, em sua estratégia de (re)conquistar o coração dos franceses.

            Stratégie é uma boa palavra para descrever os movimentos do ex-presidente francês. Discursos, aparições públicas, fotos na imprensa, absolutamente nada, foi feito sem pensar ou passou em margem da estratégia. Nem mesmo a anunciada aposentadoria da vida política francesa. Tudo se inscreve em uma minuciosa estratégia que, ao menos, na cabeça de Sarkozy é coerente e capaz de livrá-lo do título de ex-presidente impopular para coroá-lo “salvador da pátria”. Há dois séculos, Napoleão Bonaparte deixou o exílio na Ilha de Elba para conquistar a França por uma segunda vez. Sarkozy acredita que pode (e deve) fazer o mesmo.

            Em linhas gerais, a estratégia de Sarkozy começou já no anúncio de aposentadoria. Evidentemente que o objetivo não era deixar a política, mas deixar sua família política órfã de liderança (a qual en toute évidence caberia a ele), de modo que os militantes implorassem por seu “retorno” a vida política, legitimando este salto. Em um primeiro momento, tudo funcionou bem. A direita francesa, limitada aos postes (piada pronta) Jean-François Copé e François Fillon, ficou rachada após as brigas entre ambos pela presidência da UMP em 2012. Contudo, o tempo virou: Sarkozy viu seu nome envolvido em grandes denúncias de corrupção, as contas de sua campanha apresentaram um enorme déficit (colocando em causa até mesmo a saúde financeira da UMP) e um verdadeiro competidor surgiu: o ex Primeiro Ministro e prefeito de Bordeaux, Alain Juppé, outrora nomeado pelo Presidente Jacques Chirac como “provavelmente o melhor dentre nós”.

            Dotado de incrível lábia, Sarkozy contornou os problemas relacionados às denúncias de corrupção. Ainda assim, Alain Juppé continua a ser uma pedra no seu sapato. A revista L’express lhe concedeu o título de “O homem que quer salvar a direita” e as pesquisas de intenção de voto, por sua vez, o colocam como único candidato da direita capaz de se impor tranquilamente sobre Marine Le Pen (hoje a real adversária) e François Hollande. A volta de Juppé fez com que a primeira fase da estratégia de Sarkozy falhasse, ou seja, o ex-presidente não é hoje o líder incontestável da direita que ele esperava ser, et ce apesar de sua recente eleição a presidência da UMP.

Revista L'Express revelou os planos do salvador da direita francesa. Bons tempos em que se tinha acesso a mídia francesa em Montréal.


            A vitória eleitoral é minorada por duas razões. Em primeiro lugar, Juppé ficou de fora da disputa se resguardando para a única disputa que importa: a presidência francesa, em 2017. Já amado e odiado pela opinião pública, o prefeito de Bordeaux sabe bem que precisa se resguardar para que chegue ao final da maratona com chances de vitória (Hollande é o único outro político a ter plena noção disso). Assim, o confronto decisivo ainda deverá ser travado para que Sarkozy seja de fato lançado candidato da UMP à presidência francesa, portanto, rien n’est joué d’avance. Em segundo lugar, Sarkozy não venceu a eleição com um score “soviético” (como colocado pelo Le Monde) e viu o jovem Bruno Le Maire (antigo aliado de primeira hora) conquistar 30% dos votos. A juventude é um ponto forte de Le Maire, pois Juppé, cuja idade já ultrapassa os 70, pode não ter saúde necessária para bancar uma campanha presidencial e, em um dado momento, supõe-se que a questão da renovação do partido surgirá.

            Concluímos que vencer a presidência da UMP foi apenas um primeiro degrau da estratégia de Sakorzy já que tanto sua aposentadoria, como seu retorno político foram atos falhos (há quem diga que o livro da ex primeira dama Valérie Trierweiller no qual ela afirma que seu ex-companheiro François Hollande odeia os pobres e os chama de banguelas tenha sido o grande événement da temporada política francesa, até porque House of Cards ainda não estreou no Hexágono). Sarkozy ainda deverá provar que tem gás para se desprender da imagem que esculpiu em cinco anos de presidência e mostrar que seu arrependimento era verdadeiro e não somente um componente de seu marketing pessoal. O que é difícil de acreditar, pois já na noite da vitória seu comboio “presidencial” foi flagrado andando em faixas reservadas aos ônibus para fugir do trânsito parisiense. Arrependido? Peut-être. Bling-bling? Toujours.

            Em um âmbito mais expandido devemos nos questionar acerca do efeito positivo da eleição de Sarkozy para a direita francesa. Será que essa família ainda pode se salvar, conforme L’express sugeriu que Juppé fosse capaz? Essa pergunta ainda carecerá de respostas. A meu ver Sarkoz, na verdade, cria mais problemas do que resolve. A estratégia de retorno à la Napoleão não deu certo. Por uma simples razão. Ao passo que o baixinho córsego de fato se ausentou da vida pública francesa, o baixinho dos bairros chiques de Paris sempre esteve [omni]presente (até mesmo quando ele pretendia estar ausente). Ninguém até hoje sentiu falta de Sarkozy e o seu retorno nada mais é que o retorno daquele que nunca foi. Paradoxalmente quem poderá desfrutar mais da eleição de Sarkozy à presidência da UMP são seus adversários. Marine Le Pen torce por esmagá-lo nas eleições de meio mandato (assim como já vez nas eleições para o Parlamento Europeu). Hollande por sua vez torcerá para que os franceses coloquem seu adversário de 2012 no escanteio e que no segundo turno de 2017 os votos da UMP venham para ele no combate direto contra a extrema-direita, assim como os socialistas votaram em Chirac em 2002 contra o papai Le Pen. Como diriam os Cowboys do Québec, a expedição será longa e nem sempre voltaremos vivos.

Sarkô e Juppé, inimigos declarados


Oscar Berg
3 de dezembro de 2014.

terça-feira, 23 de abril de 2013

França adota casamento para todos




            O projeto de lei da ministra da Justiça Christiane Taubira que possibilita aos casais do mesmo sexo de se casarem e adotarem foi finalmente adotado pela Assembleia Nacional Francesa hoje à tarde.
            Do total de 566 deputados, 556 votos foram expressos. A maioria absoluta que o projeto necessitava para ser aprovada era de 279 votos a favor, ao final, o projeto de lei Taubira conquistou 331 votos a favor e 225 votos contrários.
Após a divulgação dos resultados, os deputados comemoram aos gritos de “C’est gagné!”

            Conforme a análise publicada na sequência da divulgação do resultado pela Assembleia Nacional, os principais apoiadores do projeto de lei foram os grupos Socialista (Groupe Socialiste, républicain et citoyen. 292 membros, 281 votos favoráveis, 4 contrários, 4 abstenções e um membro não-votante, o presidente da casa, Claude Bartolone), Ecologista (Groupe Écologiste. 17 membros e 17 votos favoráveis) e dos radicais-progressistas (Groupe radical, républicain, démocrate et progressiste. 16 membros. 13 votos favoráveis e 2 contrários). A esquerda radical (Groupe de la gauche démocrate et républicaine. 15 membros. 9 votos favoráveis, 4 votos contrários e 1 abstenção), por sua vez, ficou dividida. Marie-George Buffet, ex-candidata à presidência e membro do grupo votou a favor do projeto de lei.
            Os votos contrários ao projeto de lei Taubira vieram, sobretudo, da oposição conservadora. O partido do ex-presidente Nicolas Sarkozy, UMP, votou massivamente contra a proposta do casamento para todos (Groupe de l’union pour un mouvement populaire. 196 membros. 6 votos favoráveis, 183 votos contrários, 5 abstenções). Os centristas e radicais de direita (Groupe de l’union des démocrates et indépendents. 30 membros. 5 votos favoráveis e 25 votos contrários) e os não-inscritos (em sua maioria deputados de extrema-direita que não obtiveram o número mínimo de cadeiras para formar um grupo na Assembleia. 7 votos contrários, nenhum a favor) endossaram a lista oposicionista.
            O deputado dos franceses da América Latina e Caribe, Sr. Sergio Coronado, do grupo ecologista votou a favor do projeto de lei Taubira, recentemente, ele havia subido à tribuna do hemiciclo para defender o casamento para todos. O franco-brasileiro Eduardo Rihan Cypel, do grupo socialista, votou a favor. Os antigos pretendentes à presidência francesa Jean-Louis Borloo (União dos democratas e independentes. Centrista), Noël Mamère (Ecologistas) e Marie-George Buffet (Esquerda democrata e republicana) votaram à favor, enquanto que o soberanista de extrema-direita, Nicolas Dupont-Aignan (Não-inscritos) votou contra.
            Chamou a atenção, contudo, o voto favorável ao projeto de lei dos deputados UMP, Henri Guaino e Luc Chantel que fizeram forte oposição ao casamento para todos. Eles declararam terem errado o botão durante a votação, ao total seriam cinco deputados que votaram errado. Além dos dois, Alain Chrétien, Marcel Bonnot e Marianne Dubois, todos da UMP, também erraram o botão. O erro, contudo, não mudou o resultado de uma disputa que consumiu “136 horas e 56 minutos” de debate da Assembleia, conforme o pronunciamento do presidente da casa, Claude Bartolone. Ainda assim, os deputados UMP Benoist Apparu e Franck Riester que votaram a favor do casamento para todos não se pronunciaram endossando rumores que eles apoiaram a proposta do governo socialista.

Para os oposicionistas, a luta continua

            Henri Guaino, que foi conselheiro do ex-presidente Nicolas Sarkozy, declarou que continuará a manifestar sua oposição ao projeto de casamento e adoção para todos e demandará ao presidente François Hollande realizar um referendo sobre a adoção da lei.
            Os opositores ao projeto de lei do casamento e adoção para todos que se reuniram em torno de grandes manifestações – manifs pour tous (manifestações para todos) prometem não baixar os braços apesar do voto favorável da Assembleia Nacional. Uma parte dos manifestantes contrários ainda que aceite o casamento gay se manifesta contra o projeto de lei, pois ele permite a adoção para os casais do mesmo sexo. Para eles esse é o grande problema do projeto, o ex-militar Philippe que participava de uma manifestação na cidade de Tours, declarou ao jornal Le Monde: “Na verdade, o que nos incomoda na lei Taubira não é o casamento, mas a adoção. Isso quer dizer que a criança adotada por um casal homossexual será inscrita no registro civil como filha de dois pais homo, sem nenhuma menção aos nomes da mãe e pai genéticos, como se fosse filha de um casal que, no entanto, não pode reproduzir. Elimina-se uma referência fundamental na criação da identidade da criança”.

Complicações políticas   

            A França foi tomada de manifestações tanto favoráveis como contrárias ao projeto de casamento para todos, o que dominou toda a discussão política nacional desde janeiro. Alguns líderes do manif pour tous começam a tratar as manifestações como affaire político e se coligaram aos conservadores UMP e FN. Uma das líderes das manifestações, Frigide Barjot apareceu recentemente ao lado de um eleito do partido de extrema-direita FN, uma posição que não agradou à grande parte dos manifestantes.
            Após a votação favorável na Assembleia Nacional, onde a esquerda possui uma maioria esmagadora, a oposição irá consultar o Conselho Constitucional em relação a constitucionalidade do projeto de lei, o que deverá retardar em mais um mês a outorga da lei por parte do Presidente François Hollande. Os primeiros casamentos de casais do mesmo sexo deverão ocorrer somente a partir da metade do mês de junho.
            Caso a outorga da lei se estenda e as manifestações contrárias a lei aumentem poderá criar-se mais um problema político para o presidente François Hollande e para o governo socialista. O grande trunfo que contam os manifestantes contrários e a direita francesa é a pressão sobre os eleitos locais em função das eleições municipais do próximo ano. Uma eleição que se anuncia desde já difícil à maioria presidencial socialista em função da crise econômica na França e da impopularidade do presidente Hollande.
            A implicação de François Hollande é direta, pois ainda candidato, o socialista decidiu abraçar a proposta do casamento e adoção para casais do mesmo sexo, inscrevendo-a em suas propostas de campanha:

            Sob a ótica eleitoral, para o eleitorado progressista que já havia confiado seu voto em Hollande em maio de 2012 a adoção da lei significa o cumprimento de mais uma proposta de campanha, contudo, é difícil identificar o quanto, atualmente, a aprovação da lei poderá conquistar novos eleitores aos socialistas na perspectiva das próximas eleições. O fato é que a lei representa um grande avanço social na França. Os socialistas franceses, mais uma vez, se colocam como os responsáveis pelas grandes mudanças societárias, da mesma forma como nos anos 80 durante a presidência de François Mitterrand, o ministro da justiça Robert Badinter pediu a Assembleia Nacional a abolição da pena de morte, apoiada pela maioria socialista da Assembleia Nacional. Para aqueles que conseguiram manter uma posição indiferente em relação à lei Taubira, sua aprovação e futura promulgação pelo Presidente Hollande significa mudar o foco do debate político para outros domínios, visto que o casamento para todos ocupou a atenção dos franceses desde janeiro desse ano. Até mesmo para o Presidente Hollande o final do grande debate sobre o casamento para todos poderá ser uma boa notícia, pois garante seu lugar na história como chefe de Estado responsável pela promulgação do casamento de pessoas do mesmo sexo no 14º país do mundo – 9º país europeu – e também permite que o governo volte a apresentar para um público mais significativo suas proposições para vencer a crise econômica internacional, recuperando o prestígio da opinião pública francesa. Quem sabe a distância do tempo permita à François Hollande cantar seu primeiro ano de presidente ao som de Non, je ne regrette rien!
A França deverá ser o 14º país a adotar o casamento homossexual no mundo


Para uma lista completa dos deputados que votaram contra e a favor do projeto de lei, acesse o link da Assembleia Nacional Francesa:

Oscar Augusto Berg
Brésil, le 23 avril 2013.
Fotos retiradas do motor de pesquisa do Google.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A França vira a página Sarkozy


Depois de 17 anos, um socialista volta ao Palácio do Élysée


Da noite de festa do 6 de maio a manhã de 7 de maio, a França amanheceu um novo país, na passagem destes dois dias a França não apenas escolheu um novo presidente, mas um novo destino. O que esteve em jogo na eleição presidencial de 2012 dividida em dois turnos equilibrados e muito disputados foi muito maior que a vaga ao qual destinava-se o pleito. Esteve em jogo, mais do que nunca, o futuro da França, sua escolha entre conformismo ou desafio; divisão ou conciliação e - em momentos de crise da dívida, algo que faz muito sentido - austeridade ou crescimento. No momento em que François Hollande ascende ao topo do Estado Francês, a definição dos desafios acima torna a transição do conservador Sarkozy ao socialista Hollande não apenas uma simples alternância de poder mas uma verdadeira mudança, pois como nos dizia o slogan de François Hollande « A mudança é agora ».

Eu recebo os resultados da eleição presidencial francesa de 2012 mais como um grito de esperança que um grito de desconfiança no presidente Sarkozy. François Hollande conseguiu ao longo do período entre sua candidatura às primárias socialistas e ia vitória no último domingo aquilo que nenhum outro socialista francês havia conseguido desde Mitterrand em 1988: Suscitar a esperança. Certamente a crítica ao saldo do governo Sarkozy-Fillon passou pelo discurso de Hollande, mas não foi a desconfiança dos franceses em relação ao agora ex-presidente que fez o socialista vencer, no entanto, foi a capacidade de suscitar em seu eleitorado aquilo que ele mesmo chamou de « Rêve Français », ou seja, o ideal republicano em que é tornado possível a uma geração viver melhor que a sua predecessora.

Eu recebo o resultado da eleição presidencial francesa de 2012 como uma chance para a Europa. A crise européia atual é vista como uma crise da dívida pública, no entanto, antes disso, a crise européia é uma crise social e política ambas resguardando relações de causa consequência entre si. Social, pois a Europa vive a crise do modelo que criou e defendeu, aquele do bem-estar social. Política, pois esta crise é uma consequência do marasmo da social-democracia européia, que há anos não consegue traduzir as transformações do Sistema Internacional em reformas que continuem a deixar competitivo o sistema produtivo europeu e que deem continuidade ao welfare state como organização estatal de excelência de igualdade e justiça. A combinação das duas crises acima é o desemprego em massa das populações europeias e a desindustrialização contínua  do continente, o que por final emerge um novo risco à democracia e integridade do bloco da UE: o crescimento da extrema-direita.

Eleito em 06 de maio de 2012, com 51,7% dos votos, François Hollande, do Partido Socialista terá a sua frente grandes desafios a corresponder e promessas a cumprir. Sabemos de antemão que caso Hollande venha a falhar em algum dos dois pontos acima, a social-democracia européia terá perdido a chance que lhe foi conferida no último domingo de reerguer-se, e o voto contestatório da extrema-direita baterá a porta dos progressistas. O papel de Hollande na história portanto, transcende a eleição do último domingo e as fronteiras do Hexágono francês e apresenta-se – como ele mesmo declarou em seu discurso da vitória em seu reduto eleitoral, a pequena Tulle – como um alívio, uma esperança à Europa, um ponto final a ideia de que a austeridade é uma fatalidade.






quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Reação de FrancePo à publicação de VEJA - O Dilema de Hollande



     Na sua última edição (n° 2254, ano 35, n°5, dia 1° de fevereiro de 2012), a revista VEJA, revista semanal de maior circulação e repercussão do Brasil, agitou seus tambores e produziu sua primeira reportagem sobre a eleição presidencial francesa, há menos de 3 meses do primeiro turno. Face a afirmações imprecisas e incorretas, e a manipulação para que o leitor chegue a uma conclusão não-óbvia (e falsa), FrancePo torna público seu descontentamento com a falta de imparcialidade da principal publicação do país; acompanhe abaixo item a item o que VEJA publicou e o que é a verdade:

A) Uma imagem vale por mil palavras: Preste atenção nas fotos, a primeira mostra o candidato socialista (PS) François Hollande (que pelo cenário provavelmente tenha sido tirado durante o comício de Bourget - subúrbio parisiense - que reuniu 25 simpatizantes do candidato do Partido Socialista e do Partido Radical da Esquerda), a outra mostra o presidente francês Nicolas Sarkozym da direitista UMP (União por um movimento popular), provavelmente em mais um encontre de cúpula da UE, que não chega a propor soluções a crise da zona do euro.

Agora, analise a foto escolhida por VEJA para mostrar pela primeira vez ao Brasil o candidato socialista: a foto dá a impressão de ele estar sendo bombardeado por jornalistas com perguntas sobre a crise da zona do euro, dado ao aparente nervosismo de Hollande que a foto conseguiu captar; suas mãos abertas e a testa enrugada dão mostras que ele não está conseguindo convencer ninguém e nem a ele mesmo, tanto as mãos como a testa evidenciam também a incerteza, o vazio, a desconfiança. Os olhos arregalados não indicam que François tenha certeza daquilo que está falando, e que nem ele veja uma saída para a crise. As narinas mais abertas que o normal evidenciam que falta ar à François para continuar no debate, não conseguindo nem ele respirar face a inúmeras perguntas sobre a crise, a perda do triplo A, desemprego em massa, etc. A boca desta forma, aparece como uma cereja no bolo, dando a entender o tanto atrapalhado que ele está, contando mais mentiras sobre a situação da França. Segunda parte do exercício, como uma imagem vale por mil palavras, veja o vídeo abaixo do encerramento do discurso de François em Bourget e tire suas próprias conclusões. Provavelmente você perceberá que o que não falta ali é determinação, esperança, confiança e certeza. 



_________________

     Agora, vamos a segunda foto: e que surpresa, ela mostra um presidente forte, conciso. Seus punhos fechados mostram a força com a qual a França vem enfrentando a crise, as pálpebras milimetricamente arregaladas evidenciam a determinação do Presidente em lutas pelo melhor dos franceses. Os olhos, mirando um lugar fixo, são uma prova da determinação e perspicaz de Sarkozy, o lugar que ele mira é a saída da Europa da crise, que ele e Angela Merkel juntos alcançarão. Mais uma vez vamos para a segunda parte do exercício, veja na imagem abaixo alguns dados do quinquenato de Nicolas Sarkozy.




Destaques:
*612 bilhões de euros em dívidas suplementares desde o início do mandato;
*Menos 750 mil empregos na indústria em 10 anos de governo da direita;
*1 milhão de novos desempregados em cinco anos;
*330 mil novos pobres em cinco anos;
*Nenhum excedente comercial em 10 anos de governo de direita;
*Déficit comercial de 75 bilhões de euros em 2011, recorde absoluto;
*Aumento de 107% do preço dos imóveis;
*80 mil postos de empregos suprimidos na Educação pública;
*24 novas taxas e 75 bilhões de euros em nichos fiscais.

Conclusão: VEJA utilizou-se do recurso da imagem para passar uma imagem falsa, e até invertida, dos dois candidatos. Procurou descreditar o determinado socialista e atenuar o fracasso da direita há dez anos no poder e de Sarkozy há cinco anos no Élysée.

B) Texto: VEJA x Realidade

"François Hollande era tido como o picolé de chuchu da disputa pela presidência da França"
Eu acompanho a mídia francesa (de Figaro a Libération, Le Parisien a Nouvel Observateur) e não vi em nenhum lugar alguém acusar Hollande de picolé de chuchu, nem mesmo nas páginas do L'Humanité, o jornal mantido pelo Partido Comunista. Aliás, o único lugar onde eu vi Hollande ser chamado de chuchu foi nas páginas de VEJA em 27/07/2011. A única crítica que havia em relação a Hollande era que ele não estava suficientemente à esquerda (uma crítica interna no PS), que caiu por terra com o comício de Bourget (levado à alma da esquerda).

"Ele só se tornou candidato do Partido Socialista depois que o preferido, o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) Dominique Strauss-Kahn, foi preso"
Um pouco de respeito e meritocracia à François Hollande caberia bem para a VEJA. François Hollande anunciou sua candidatura às Primárias Socialistas em 31/03/2011: "[...]j'ai décidé de présenter ma candidature à l'élection présidentielle à travers la primaire du Parti Socialiste"1 ("Eu decidi apresentar minha candidatura à eleição presidencial através as primárias do PS"), antes disso ainda, François já havia falado de sua vontade de concorrer em 2010 para a rádio RTL2 e em 23/03/2011  em entrevista ao jornal Échos que se ele se candidatasse às primárias seria para vencê-las. Sobre o mérito à vitória de Hollande, gostaria de ressaltar um outro ponto: após DSK sair da disputa, a candidata favorita era Martine Aubry, primeira-secretária do PS, que havia acordado com DSK que na impossibilidade de um concorrer o outro concorreria, disto concluímos que Hollande correu sempre por fora na disputa, uma vez que não é ligado a corrente dominante do PS. Outro fato que merece ser esclarecido: Dominique Strauss-Kahn já havia concorrido às primárias do PS em outra ocasião (2007) na qual perdeu a indicação para Ségolène Royal.Portanto, o que garantia que desta vez o chefão do FMI ganharia?

"[...] Nicolas Sarkozy, que tentará a reeleição no próximo dia 22 de abril" 
Por mais óbvia que possa parecer a informação, ela está errada: Nicolas Sarkozy ainda não anunciou sua candidatura, e há setores de sua UMP que defendem que seu candidato seja o ministro de relações exteriores e assuntos europeus, Alain Juppé (ligado ao ex-presidente Jacques Chirrac, do qual Nicolas Sarkozy é desafeto) ou ainda o atual Primeiro Ministro, François Fillon, ambos têm índices de aprovação mais positivos que Sarkozy. Jean-François Copé, número 1 da UMP é um nome que corre por fora.

"segundo uma sondagem do instituto francês CSA, 31% dos eleitores pretendem votar no socialista, e 25% no presidente (na pesquisa anterior, Hollande ganhava por 29% contra 26%). Assustado com o avanço do adversário, dois dias depois Sarkozy apelou para a tática do tudo ou nada"
Mais que o leitor de VEJA, o leitor de FrancePo vem acompanhando as sondagens desde o processo de primárias do Partido Socialista, as Primaires Citoyennes, e sabe que François Hollande já esteve muito acima da casa dos 30% e conheceu nos últimos meses uma ligeira queda, a recente alta de Hollande deu-se com o retorno a pleno vapor da campanha (comício de Bourget), ou seja, a recente alta foi um retorno a um padrão que vinha sendo repetido nos últimos meses, o socialista acima dos 30%. Acompanhe na tabela abaixo, as últimas pesquisas do instituto CSA:



 2011
 2012
 Jun
Jul 
 Ago
 Set
 Out*
 Nov
 Dez
 Jan
 Jan**
 F. Hollande
 27
 26
 27
 28
 35
 34
 32
 29
 31
 N. Sarkozy
 23
 26
 26
 24
 25
 27
 26
 26
 25

* Primárias do Partido Socialista/Partido Radical de Esquerda
**Sondagem após o Comício de Bourget

Assustado, é a última coisa que Sarkozy está, ele sabe muito bem que com 25% dos votos no primeiro turno pode muito bem sair vitorioso no segundo, isto depende de duas coisas articuladas uma à outra:

1) Uma pequena quantidade de votos das outras candidaturas de esquerda no primeiro turno (Jean-Luc Mélenchon, Partido da Esquerda/Partido Comunista; Eva Joly, Partido Verde; outras candidaturas menores: trotkistas, altermondistas, e outros) não daria um grande impulso a candidatura socialista no segundo turno, correndo o risco de repetir a eleição de 1995 na qual o socialista Lionel Jospin venceu o primeiro turno mas sem a força de outras candidaturas de esquerda perdeu o segundo turno para Jacques Chirac que ganhou o apoio do terceiro colocado, o centrista Édouard Balladur.

2) Votação expressiva das diversas candidaturas de direita, Dominique de Villepin, Christine Boutin, Frédéric Nihous, Nicolas Dupon-Aignan e Hervé Morin (creditadas entre 0,5 e 1,0% cada, o que pode render 5% à Sarkozy), do candidato do centro, François Bayrou (MoDem - 11% na última pesquisa CSA) e de extrema-direita Marine le Pen (FN - 17% na última pesquisa CSA) que tendem a ceder mais votos a Sarkozy que a Hollande no segundo turno.

Neste sentido, a declaração de Sarkozy de que se ele não ganhasse as eleições em maio ele abandonaria a vida política foi um golpe eleitoral. Baixo, diga-se de passagem.

C) Revendo conceitos

"O dilema Hollande"
Dilema: Situação embaraçosa com duas saídas difíceis ou penosas.
Respeitando o significado acima, trazido do dicionário, consigo me lembrar do Dilema do Prisioneiro, do Dilema de Segurança (das aulas de Introdução às Relações Internacionais) ou ainda do Dilema de Tecnologia (das aulas de teoria). Não consigo enxergar nenhum dilema por trás de candidatar-se, apresentar um projeto e debatê-lo. Em tempo, o título deve ser um resumo do conteúdo, assim não encontrei em nenhum lugar do texto que explique o que seria "o Dilema Hollande".

"O favorito à Presidência Francesa quer taxar os ricos para reduzir a dívida pública, mas só populismo não resolve"
VEJA precisa rever urgentemente seu conceito de populismo.

CONCLUSÃO

     Ter um engajamento internacionalista, o que diferente de apenas ser um internacionalista - profissional de Relações Internacionais - significa lutar para que a solidariedade, democracia, liberdades e justiça sejam desfrutadas a nível mundial. Hoje, identifico que para alcançarmos isto, somado a igualdade em escala internacional, precisamos de políticos e políticas engajados nestas lutas, por isto do meu carinho e engajamento pela Internacional Socialista, pelo Partido Socialista Francês e sobretudo a François Hollande. Por mais bela que possa parecer esta ideia de igualdade a nível internacional, tenho plena convicção que existem muitos dispositivos com o objetivo de impedi-la e um deles é a mídia e seu poder de manipulação e condução da conscientização que ela exerce.
     Antes que qualquer um possa lembrar que temos liberdade de expressão, que a mídia (felizmente) tem liberdade para falar sobre o que quiser, e que nós, leitores, temos plena liberdade de escolhermos o que queremos ler, e nesse sentido, VEJA dispõe de liberdade para publicar o que bem entender, procuro lembrar que a liberdade para a mídia, não é um fim, apenas um começo. Esta liberdade deve sr sempre seguida de imparcialidade, justiça e verdade, pois estes sim são meios-fim. Assim, lamento o exercício de manipulação que VEJA fez com a reportagem "O dilema de Hollande" ao passar uma imagem falsa e imprecisa da situação que a França vive hoje. Gostaria de ressaltar a gravidade disto, uma vez que a reportagem que trouxe muito mais uma opinião do que uma informação, ocorre exatamente na primeira reportagem da publicação mais importante do Brasil dedicada às eleições francesas, ou seja, bem no momento em que milhões de brasileiros tem o primeiro contato com François Hollande. Tudo isto é lamentável.

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Bônus

     Pelo menos a cada 5 ou 7 anos, VEJA agita seus tambores para passar uma imagem imprecisa do Socialismo Francês, que já foi inclusive objeto de admiração e análise de nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em "América Latina e o Novo Socialismo Francês (1982). Vamos rever abaixo algumas reportagens de VEJA sobre o PS:  

*2011 - Primárias Socialistas: Ao invés de ressaltar o caráter democrático e inovador das primárias do PS, VEJA preferiu continuar acusando DSK de estupro e seguir a linha do jornalismo de revista de fofocas. Na única reportagem dedicada às primárias, VEJA chamou o então candidato François Hollande de chuchu. Para uma revista que defendeu Aécio Neves em sua capa em semana eleitoral, chamar François Hollande de insosso é falta de espelho nos escritórios do editorial.


Como se diz chuchu com sotaque de Minas? Insosso quem? Hollande em quem VEJA bate, ou o sem graça Aécio Neves, menina dos olhos de VEJA.



*2007 - O assunto principal da eleição era a imigração e a estagnação que a França se encontrava com um Presidente de direita desde 1995 no poder, mas VEJA preferiu focar no 'asistencialismo' de Ségolène Royal. VEJA e a maioria dos franceses aceitou a ideia de trabalhar mais para ganhar mais de Sarkozy, hoje com o desemprego nas alturas, trabalhar se tornou uma grande dificuldade.








*1978 - Para o alívio de VEJA, o realismo-socialista triunfante nas letras e nas artes não ocorreu, demoraria mais 3 anos até a vitória de Mitterrand. Com isso graças a sabedoria da direita triunfante, nem Pierre Cardin, nem Yvez Saint-Laurent foram enviados para campos de reeducação. Apenas para lembrar: nada disto ocorreu com a vitória dos socialista em maio de 1981 e mais: foram os socialistas que aboliram a pena de morte na França neste mesmo ano.



Da próxima vez que VEJA se manifestar sobre as eleições franceses fique atento ;)


Brasil, 31/01/2012
Oscar Berg





segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ex-presidente Chirac é condenado à prisão por envolvimento em corrupção




A França foi sacudida por duas tempestades nesta semana, a primeira – inevitável e difícil de prever – foram ficaram conhecidas por Joaquim que com seus fortíssimos ventos, que atravessaram a França de Leste a Oeste, deixaram centenas de milhares de residências sem energia elétrica. A segunda tempestade que atormentou a França nesta semana correu em sentido contrário e nos tribunais parisienses. Esta segunda tormenta teria sido, caso a ética tivesse sido feita presente, perfeitamente evitável, mas por sua falta, como já prevíamos há uma dezena de anos, aconteceu. A segunda tempestade também responde por um nome masculino, e muito mais afrancesado que Joaquim: Jacques Chirac.

Para quem ainda se lembra dos antigos Mitterrand e de Gaulle, Chirac está fresquinho na memória, ele foi presidente francês entre 1995-2007 (o último do sistema presidencialista, pois deste então a SarkoFrança adotou o superpresidencialismo, o sistema no qual um super-herói é dono dos poderes judiciário, legislativo e executivo) e inclusive já se fez presente aqui no blog na Resenha sobre o filme Mort d’un Président (aqui: http://francepo.blogspot.com/2011/11/dica-de-filme-mort-dun-president.html) . No entanto, as acusações sobre Chirac não recaem sobre seu período como presidente e sim no período que o precedeu, no qual ele foi prefeito de Paris (cargo devidamente ocupado hoje pelo socialista Bertrand Delanoë). Tido como a figura política preferida dos franceses, em pesquisas em meados de abril 2011, o querido ex-presidente e ex-prefeito fantasminha (você já vai entender), envolvido em diversos escândalos de corrupção, foi condenado nesta semana a dois anos de prisão com sursis (uma artemanha do direito penal para que o camarada mesmo preso não se sujeite a execução de pena privativa de liberdade). Mas o que terá feito o simpático gaullista?

Os tempos mudam: Do homem de palavra dos anos 80 restou uma condenação à dois anos de prisão por corrupção


Quando esteve à frente da administração da capital francesa, a partir do belo Hôtel de Ville de Paris, de estilo renascentista, Jacques Chirac (UMP) é acusado de ter sido a peça central de um sistema de criação de empregos fantasmas na prefeitura, de abuso de poder, desvio de recursos públicos e ingerência. Chirac foi acusado de ter usado a máquina pública e ter desviado dinheiro da administração local para o financiamento de sua campanha presidencial de 1995 (cuja eleição ele venceu face ao socialista Lionel Jospin). O caso, no entanto, remonta a 15 anos atrás, tempo suficiente (no Brasil seria assim) para se perdoar o que foi feito, até porque se trata de um ex-presidente da República, mas a inédita resposta do judiciário francês não foi esta: não houve blindagem que deu certo (e a UMP tratou de encontrar muitas), doença que impossibilitasse ou poder político que impedisse o veredicto: Jacques Chirac é condenado à prisão com sursis por dois anos.


O inglês The Economist acusava a impunidade
de Jacques Chirac (2001)
Eu sempre procuro dizer que política francesa e brasileira não são muito fáceis de serem comparadas: ser socialista na França não é igual a ser socialista no Brasil (eu quem o diga), a esquerda francesa é – no máximo – a centro-esquerda brasileira, o sistema deles é diferente, eles têm um primeiro-ministro (além de ter o Sarkozy, ainda que nós tínhamos o Lula, e aqui, os egos são equivalentes), etc. Mas não é que chegamos a uma coisa em comum entre Brasil e França: a corrupção, uma velha conhecida dos nacionais da terra do Sarney, da qual temos propriedade em falar, ou como diriam os franceses, temos o savoir-faire. E como. Ainda que tenhamos enormes diferenças em relação aos franceses, corrupção cá e lá, parece (e é) a mesma coisa de sempre, e está aí Jacques Chirac e seus empregadores fantasminhas para nos mostrarem.

Por as acusações que levaram à condenação de Jacques Chirac remontarem a 15 anos no retrovisor não poderia ser, portanto apenas uma simples revanche ao ex-presidente? Ainda que possa ter sido, a chance é mínima. Sobre a condenação de Jacques Chirac é importante ter em mente que a sua importância não se dá em função de sua figura política de símbolo do gaullismo e da direita francesa, mas sim da condenação de um ex-presidente que se aproveitava de sua impunidade penal para escapar do rendez-vous que ele devia aos juízes franceses. A condenação de Chirac tardou 15 anos a chegar em função de diversos dispositivos armados por seu partido, a direitista UMP, seu estado crítico de saúde e sobretudo a impunidade penal que gozam os presidentes, deflagrando ainda a reforma necessária do estatuto penal do presidente (reforma na qual François Hollande, candidato socialista, deverá se engajar) e sua impunidade (no mais amplo sentido da palavra). Para concluir, com a independência do poder judiciário (e do legislativo) a justiça, ainda que demore, é feita. Mesmo que para um brasileiro isto soe a utopia, porque não tomar o caso Chirac como um norte para que a nossa justiça julgue (e se verificada a acusação condene) estes monarcas que condenam nosso país à corrupção e à miséria? É de se pensar.



Oscar Berg,
Brésil, le 20 Décembre 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um início de campanha complicado à François Hollande

Semana conturbada ao socialista François Hollande premia Sarkozy com uma clivagem nas sondagens.
Nicolas Sarkozy, mesmo desmoralizado, sobe nas pesquisas. É o efeito Zapatero ao contrário
As pesquisas de intenção de voto ainda apontam o candidato socialista François Hollande como vencedor com uma larga vantagem em relação a Nicolas Sarkozy, no entanto o chefe de Estado francês foi premiado com uma elevação das intenções de voto nele, em uma semana conturbada a Hollande e ao Partido Socialista, que acaba de fechar um acordo com a EELV (Europe Écologie Les Verts), o Partido Verde francês.

FH, duramente criticado por sua esquerda
Para Jean-Luc Mélenchon (Front de Gauche) : Hollande, um capitão de pedalinho
A declaração que dominou as principais páginas dos jornais franceses e a à La une de seus sites foi a declaração do candidato esquerdista à presidência Jean Luc Mélenchon (Front de Gauche, da qual faz parte o Partido de Esquerda, criado por Mélenchon, e o Partido Comunista Francês) deu a imprensa: “François Hollande é um capitão de pedalinho em meio a tempestade”
Esta semana, muito importante ao deputado da Corrèze por ele finalmente ter apresentado sua equipe de campanha, reservou ainda mais críticas. Jean Luc Mélenchon, mais uma vez, acusou Hollande de adotar uma linha centrista e manter uma obstinação social-liberal. A equipe de Hollande também foi duramente criticada, muitos franceses enxergam Hollande cada vez mais ligados à uma linha centrista e à direita do PS, ao adotar nomes como Manuel Valls, Pierre Moscovici e Julien Dray. A posição de Hollande em relação ao nuclear também ajudou-o a receber críticas, desta vez pela parte dos verdes (EELV) e do comitê central do PS que continuava a época em negociação com os verdes (os quais cobravam dos socialistas uma posição mais clara sobre a saída do nuclear), o deputado da Corrèze defende claramente (desde as primárias) uma saída do nuclear de 75% para 50% até 2025 (os verdes querem mais, ou seja, total).

Acordo PS-EELV: mais um nicho para críticas ao programa socialista?
As últimas notícias nos dizem que o acordo entre o Partido Socialista (PS) e o partido Verde (EELV) vinha sendo tratado há um bom tempo, especialmente desde que foram montados grupos de trabalho entre representantes do PS e da EELV sobre diversos assuntos. As negociações que se entenderam “oficialmente” por diversas semanas iam bem até o chegar da discussão de um assunto muito importante aos verdes: o nuclear.
Defensores da saída total do nuclear (como a Alemanha de Merkel anunciou que fará até 2022), os verdes encontraram muitos convergentes à política desejada pelos socialistas para o abandono da tecnologia nuclear, pois diferentemente dos verdes, o Projeto Socialista para 2012 (Le Changement, disponível no site do PS) não fixa um porcentagem da dependência nuclear que deverá ser deixada de lado, apenas que novas energias renováveis deverão ser melhor exploradas a fim de realizarmos a transição nuclear, pois ainda conforme o Projeto, abandonar o nuclear, não é apenas deixar de lado a geração deste tipo de energia, mas também toda a sua indústria (Areva, etc.) e todo o savoir-faire (know-how à francesa) adquirido desde os anos 70, quando o nuclear passou a ser o centro da matriz energética francesa, e isto, em última análise, seria aumentar ainda mais a desindustrialização da francesa e milhares de trabalhadores abandonados ao desemprego.

Nos anos 70 a França optou pelo Nuclear, e nele entrou de cabeça, 42% da produção européia é francesa, mesmo com o esforço francês a quantidade não tende a diminuir, já que em todo o continente o setor nuclear é de pouco em pouco abandonado.
Nesta semana, no entanto o PS chegou a um acordo com a EELV, no qual – entre diversas outras ações políticas – decidiu-se por diminuir a dependência francesa em relação ao nuclear de 75% a 50% até 2025 (mesma proposta que François Hollande defende desde sua campanha nas Primaires Citoyennes) e o fechamento de 24 reatores. Todas as propostas deste acordo podem ser encontradas no link fornecido no final desta postagem.

O Nuclear é onipresente na França hoje : 75% da matriz energética e 58 reatores. Segundo o acordo PS-EELV, a dependência irá diminuir para 50% e 24 reatores serão fechados.
 Como se esperava, o acordo PS-EELV abriu espaço para muitas críticas da direita pela política adotada pelo PS. Como já dizia François Mitterrand em sua obra Ici et Maintenant (1980) (No Brasil chamado de “Aqui e Agora” e facilmente encontrável em um sebo ou no Mercado Livre) o PS enfrenta uma dupla concorrência sobre o nuclear: seja o tudo da direita ou o nada dos ecologistas. Incrivelmente, mais de 30 anos depois o debate e as posições restam as mesmas, mas desta vez, parece o PS ter cedido demais aos verdes, tendo alguma parte do eleitorado socialista temer que os verdes possam em um futuro próximo fazer o mesmo que ops próprios socialistas fizeram com os comunistas nos anos 70 e 80 através de diversos acordos, como o Programa Comum, de 1972.

Hollande ainda na frente, mais com uma vantagem menor.
Não suficiente dura, a semana de François Hollande foi “premiada” com uma queda considerável nas pesquisas de intenção de voto. Conforme mostrado aqui em 20/10/2011, o candidato socialista dispunha de 35% das intenções de voto contra atuais 34%, seu provável adversário Nicolas Sarkozy, ficaria com 27% dos votos, 2 suplementares em relação a última pesquisa, conforme uma pesquisa da CSA realizada entre 14-15 Novembro tendo consultado 1001 pessoas. Ainda mais preocupante que a sondagem da CSA, foi a sondagem da LH2 que mostrou, como bem sublinhou a mídia francesa, um Hollande em queda e um Sarkozy subindo nas pesquisas:

“Nicolas Sarkozy continua sua subida e encosta em um Hollande que perde seu fôlego” (TF1.fr)

“Nicolas Sarkozy confirma seu retorno às sondagens face à um François Hollande em evidente queda” (France Soir)

“O Presidente da República estaria nos calcanhares de François Hollande (30%, -9pts.) somando 29% das sondagens” (Le Parisien)

“Hollande e Sarkozy disputam cotovelo a cotovelo o 1° turno” (Libération)

Segundo a LH2, Hollande não teria mais que 30% dos votos, ao passo que o presidente Sarkozy encostaria nele com 29% das intenções, no entanto, no 2° turno os socialistas ainda venceriam, com 58% dos votos contra 42%, mantendo o score que vinha fazendo nas últimas pesquisas. A pesquisa de LH2 foi menor, realizada com cerca de 600 pessoas (environ 600, conforme a ficha técnica da pesquisa). Veja uma tabela resumindo as pesquisas da CSA e da LH2 da última semana:



Candidato
1  Turno
2° Turno
Pesquisa
Intenção (%)
Relação out/2011
Intenção (%)
Relação out/2011
François Hollande (PS)
CSA
34*
(-1)      ↓
59
(-3)  ↓
LH2
30*
(-9)      ↓
58
(-2)  ↓
Nicolas Sarkozy (UMP)
CSA
27*
(+2)     ↑
41
(+3) ↑
LH2
29*
(+5)     ↑
42
(+2) ↑
Marine Le Pen (FN)
CSA
16
(±0)       -

LH2
15
(+1)     ↑

François Bayrou (MoDem)
CSA
7
(-2)      ↓

LH2
7
(-1.5)  ↓

Jean-Luc Mélenchon
(Front de Gauche:PG/PCF)
CSA
5
(±0)      - 

LH2
7
(+0.5) ↑

Eva Joly (EELV – Verts)
CSA
4
(+1)     ↑

LH2
6
(+1)     ↑

Outros
(Jean-Pierre Chevènement, Dominique de Villepin, Nathalie Artahud, Hervé Morin, etc.)
CSA
7
(-1)      ↓

LH2
6
(+3)     ↑





Sondagem CSA (14-15/Novembro 2011)






Sondagem LH2 (20/Novembro 2011)



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Pesquisas de Intenção de Voto CSA Novembro/2011
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Pesquisa de Intenção de Voto LH2 20/11/2011
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Principais pontos do Acordo PS-EELV

Oscar Berg,
Brésil, le 21 Novembre 2011