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segunda-feira, 31 de março de 2014

Quem é Manuel Valls, o novo Primeiro ministro francês?

O péssimo resultado dos socialistas nas eleições municiais levou o Presidente François Hollande a demitir seu Primeiro Ministro Jean-Marc Ayrault e nomear o desconhecido dos brasileiros Manuel Valls ao posto. Conheça o novo premiê francês responsável a partir de agora de salvar os socialistas franceses.



O prazo de validade de Jean-Marc Ayrault a frente da chefia de governo já estava contado a muito tempo. No final do ano passado os rumores já eram grandes. Na época circulava o nome do ambicioso ministro do Interior (pasta de maior importância do governo, uma espécie de Ministério da Segurança Pública brasileiro) Manuel Valls e da prefeita de Lille, Martine Aubry. Ainda que eu apostasse já na época em uma troca de chefia a razão estava com um amigo militante socialista de La Rochelle que me confiou: “Jean-Marc Ayrault é muito fiel ao Presidente, é um bom cheval de bataille. Hollande está certo em mantê-lo”. Jean-Marc Ayrault, contudo, não resistiu ao grande choque da derrota do PS nas eleições municipais realizadas em 23 e 30 de março. Ao passo que em 2008, os socialistas foram os grandes vencedores dessas eleições, quatro anos mais tarde eles foram os grandes derrotados ao perderem cidades importantes como Niort, Reims, Saint-Étienne e Toulouse (a lista completa está no Le Monde) e, pior, em muitas cidades se tornaram a terceira força política graças ao surpreendente resultado da extrema-direita. Mesmo bastiões socialistas como no norte foram perdidos (ainda que Aubry tenha sido reeleita em Lille). Falando em bastiões, os comunistas também estão em choque com a derrota de Catherine Peyge (femme politique que tive o prazer de conhecer e por quem nutri uma grande simpatia) em Bobigny, cidade do subúrbio parisiense comandada pelos comunistas há um século!

Em face desse grande fracasso, François Hollande não teve outra escolha senão a de iniciar uma reformulação de sua equipe de governo, a começar por seu Primeiro Ministro muitos analistas políticos tendo indicado que a derrota socialista foi uma resposta à impopularidade do Presidente Hollande e não necessariamente um voto de desconfiança às administrações socialistas locais. De certa forma, a eleição local tomou ares de disputa nacional.

Quem é Manuel Valls?
Jovem, 51 anos, ministro do interior, deputado de Essone e prefeito de Évry e a partir de hoje Primeiro Ministro, Manuel Valls tem um bom currículo que o coloca em postos de sonhar com a presidência francesa já em 2017, o que preocupa muita gente a começar pelo Presidente em exercício François Hollande (ainda não se sabe se ele pretenderá brigar um segundo mandato). Manuel Valls já apareceu uma vez aqui no blog FrancePo quando das primárias do Partido Socialista nas quais ele terminou penúltimo colocado com 6% dos votos.

À época, Valls foi descrito como o plaidoyeur de uma política realista. Ainda que isso levasse os socialistas à se aproximarem dos centristas e mesmo da centro-direita, algo que preocupou muito os militantes socialistas à época mas, sejamos sinceros, após dois anos de presidência de François Hollande percebemos que esse é o menor medo dos socialistas agora. Vale ressaltar que Valls recebeu, em 2011, o apoio da influente publicação The Economist que o apresentou como o único portador dos valores da esquerda moderna em detrimento aos ‘dinossauros do PS francês’ (leia-se François Hollande e outros).

Expert do PS em questões de segurança pública, Valls foi nomeado por François Hollande quando de sua eleição ao Ministério do Interior em detrimento de ‘dinossauros do PS’ que sonhavam com o posto, como François Rebsamen que poderá agora entrar no governo. Em seu posto, Valls se envolveu em grandes polêmicas, mas se caracterizou como o campeão da opinião pública, sendo um dos políticos mais populares da França, algo raro em meio ao governo socialista acusado de não fazer nada para conter a crise.

É certo que Valls terá grandes desafios a sua frente e o primeiro deles será justamente negociar com o presidente os nomes de seus ministros. Personalidades socialistas batem a porta do governo como Ségolène Royal e Rebsamen, outros buscam mais espaço no governo como Stéphane Le Foll (agricultura), Pascal Lamy (cidade) e Najat Vallaud-Belkacem (direito das mulheres e porta voz do governo). Outros ainda lutam para manter seus postos, como Arnaud Montebourg (recuperação industrial) e Pierre Moscovici (economia e finanças). Valls e Hollande, agora juntos, terão que balancear as aspirações pessoais dos ministros com o recado das urnas. Algo nada fácil. Ainda, há algumas semanas os verdes declararam que não participariam de um governo com Valls em sua chefia. O bom resultado dos verdes nas eleições municipais (uma exceção na esquerda. Notável vitória em Grenoble contra os socialistas) aumentou ainda mais sua margem de manobra. É provável que Cecile Duflot (habitação) busque finalmente o ministério do meio ambiente. O atual ministro Philippe Martin, segundo o Nouvel Observateur, estaria preparado para deixar a pasta.

Para concluir, é possível que François Hollande tenha criado um belo problema para sua reeleição em 2017. Um desempenho positivo de Valls não recuperaria somente a pele do governo, mas também o lançaria como candidato natural à sucessão de Hollande ao passo que este estaria em condições de disputar um segundo mandato. O fato é que Hollande não teve outra escolha. Dentro os nomes à sucessão de Ayrault o de Valls era o que mais agradava: Hollande e Aubry não têm boas relações; Laurent Fabius (relações exteriores, político mais popular da França conforme recentes sondagens) já esteve no posto de Primeiro ministro na época de Mitterrand (1985-1986) e apresentou uma performance severamente criticada; Jean-Yves Le Drian (defesa) não encarna o espírito de mudança demandado pelos franceses; e Ayrault não teria nada de novo a oferecer. Prevaleceu a lógica e Manuel Valls foi nomeado para Matignon, o que pode decepcionar em especiais os militantes mais à esquerda do PS.

Oscar Berg
Montréal (Québec), 31/03/2014

sexta-feira, 5 de julho de 2013

“Ministro Fabius, tome uma iniciativa para acalmar as relações com a Bolívia"

Reproduzimos abaixo a carta aberta do deputado Sergio Coronado (Verdes EELV) endereçada ao Ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, a respeito da retenção do Presidente Morales em Viena. Sergio, que me recebeu recentemente na Assembleia Nacional em Paris, representa os franceses que vivem na América Latina e Caribe e é um atuante deputado do reatamento das relações da França com os países latino-americanos, uma região que o antigo governo Sarkozy/Fillon deu pouca atenção. Essa carta foi inicialmente publicada no Le Monde.

Sergio Coronado na tribuna da Assembleia Nacional

Na terça-feira, 2 de julho a noite, o Presidente da República da Bolívia, Evo Morales, foi obrigado a realizar uma escala imprevista em Viena, na Áustria, tendo a França e Portugal fechado brutalmente seu espaço aéreo pelo motivo infundado da suposta presença de Edward Snowden a bordo do avião presidencial.

Snowden, ex-agente da CIA e da National Security Agency é um lançador de alerta. Ele tornou pública a existência de um grande programa de espionagem de massa da administração americana chamado Prism.

Além da espionagem dos governos europeus, o governo americano realiza uma violação de direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos do mundo todo. O Presidente e o governo francês pediram explicações ao governo americano.

Mas no momento atual, Edward Snowden, que ninguém nega a veracidade de suas revelações, continua retido em um aeroporto russo e exigido pela polícia americana.

LÓGICA SECURITÁRIA

As relações transatlânticas parecem prisioneiras de uma lógica securitária acrescida pelo retorno da França na OTAN em abril de 2009. Bastou um rumor para que um avião vindo da Rússia fosse interditado de sobrevoar nosso território. Edward Snowden parece ser tratado como um verdadeiro terrorista, um Chefe de Estado sul-americano foi ofendido.

O Presidente da República Francesa, informado da presença de seu colega boliviano neste ano, teria mudado sua decisão de interdição do sobrevôo de nosso território. Contudo, o mal já estava feito. Não é necessário subestimar a amplitude de desgastes diplomáticos para as relações de nosso país com o continente latino-americano.

No dia seguinte, a Embaixada da França na Bolívia foi atacada por pedras arremessadas contra ela, bandeiras francesas foram queimadas e o Presidente do Equador e do Peru convocaram uma reunião da União das Nações Sul Americanas (UNASUL), atualmente presidida por Ollanta Humala, a fim de determinar uma resposta enérgica às humilhações cometidas pela França, Itália, Espanha e Portugal. O Presidente Boliviano evocou uma agressão aos países latino-americanos.

RECONSTRUIR A CONFIANÇA

A coragem de Edward Snowden deve ser saudada. Há um ano, o ministro das relações exteriores francês relançou as relações diplomáticas com o continente latino-americano. Desde a chegada ao poder da atual maioria, uma dezena de visitas diplomáticas foi organizada.

Os ministros se deslocaram várias vezes ao continente para reatar as relações com os governos locais. Mas o atlantismo que a França demonstrou nas últimas horas enfraquece os esforços do governo.

É necessário reconstruir a confiança com o continente latino-americano, perdida por este lamentável caso, e, sobretudo, tomar uma iniciativa de restituir a confiança das chancelarias dos países membros da UNASUL.

Sergio Coronado. Deputado dos franceses estabelecidos na América Latina e Caribe).

TRADUÇÃO DE OSCAR BERG


terça-feira, 2 de julho de 2013

François Hollande demite a Ministra da Ecologia

Delphine Batho, demitida nesta terça-feira do Ministério da Ecologia, Desenvolvimento Sustentável e Energia

            Após criticar o orçamento de seu ministério, Delphino Batho, então ministra da Ecologia, foi convocada ao Palácio de Matignon para uma reunião a portas fechadas de duas horas com o Primeiro-Ministro, Jean-Marc Ayrault, e viu suas funções serem encerradas pelo Presidente, François Hollande, através do seguinte comunicado do Eliseu:

            “Após proposta do Primeiro-Ministro, o Presidente da República pôs fim às funções de Delphino Batho e nomeou Philippe Martin, ministro da Ecologia, do Desenvolvimento Sustentável e da Energia”.

           Philippe Martin, que comemorará 60 anos em novembro, é deputado na Assembleia Nacional pelo departamento de Gers. Ele é membro do Partido Socialista (PS) e participa da Comissão de Desenvolvimento Sustentável e Ordenamento do Território da Assembleia.

           Delphine Batho foi demitida após criticar publicamente os cortes orçamentários de seu ministério para o ano de 2014 em uma emissão da rádio RTL: “Este é um péssimo orçamento”. Batho foi ainda além ao propor que as seguintes questões deveriam ser feitas: “A Ecologia é mesmo uma prioridade?” e; “Será que temos a capacidade de passar do discurso aos atos?”. Delphine Batho era próxima de Ségolène Royal, ex-candidata a presidência (2007) e Presidente do Conselho Regional de Poitou-Charentes, onde empreende grandes projetos de desenvolvimento sustentável.



           O Ministério da Ecologia é uma das pastas ministeriais que mais sofreu com o corte orçamentário que o governo pretende realizar no próximo ano, com queda de 7% de seus créditos. A ex-ministra lamentou o corte em um momento de “decepção com o governo”. A demissão da ministra foi comemorada em alguns círculos do PS que vêem no ocorrido uma recuperação da autoridade do Presidente François Hollande e do Primeiro Ministro Jean-Marc Ayrault nas decisões do governo. Os demais partidos de esquerda, contudo, lamentaram a decisão do Presidente e saudaram a coragem de Batho. Contudo, os verdes (EELV) decidiram, até este momento, continuar no governo. A direita aproveitou a situação para lembrar que Martin será o terceiro ministro da ecologia em quatorze meses de governo (Nicole Bricq cedeu lugar à Dephine Batho na reforma ministerial após as eleições legislativas de 2012. A Frente Nacional (extrema-direita) lamentou a “total desinteresse do governo nas questões ambientais”.

           A expectativa é de que o novo ministro da Ecologia, Philippe Martin, possa realizar um trabalho mais engajado, pois as questões ambientais interessam cada vez mais os franceses e o Presidente Hollande é acusado de não dar atenção suficiente a essa agenda.

Oscar Berg,

2 de julho de 2013.

terça-feira, 23 de abril de 2013

França adota casamento para todos




            O projeto de lei da ministra da Justiça Christiane Taubira que possibilita aos casais do mesmo sexo de se casarem e adotarem foi finalmente adotado pela Assembleia Nacional Francesa hoje à tarde.
            Do total de 566 deputados, 556 votos foram expressos. A maioria absoluta que o projeto necessitava para ser aprovada era de 279 votos a favor, ao final, o projeto de lei Taubira conquistou 331 votos a favor e 225 votos contrários.
Após a divulgação dos resultados, os deputados comemoram aos gritos de “C’est gagné!”

            Conforme a análise publicada na sequência da divulgação do resultado pela Assembleia Nacional, os principais apoiadores do projeto de lei foram os grupos Socialista (Groupe Socialiste, républicain et citoyen. 292 membros, 281 votos favoráveis, 4 contrários, 4 abstenções e um membro não-votante, o presidente da casa, Claude Bartolone), Ecologista (Groupe Écologiste. 17 membros e 17 votos favoráveis) e dos radicais-progressistas (Groupe radical, républicain, démocrate et progressiste. 16 membros. 13 votos favoráveis e 2 contrários). A esquerda radical (Groupe de la gauche démocrate et républicaine. 15 membros. 9 votos favoráveis, 4 votos contrários e 1 abstenção), por sua vez, ficou dividida. Marie-George Buffet, ex-candidata à presidência e membro do grupo votou a favor do projeto de lei.
            Os votos contrários ao projeto de lei Taubira vieram, sobretudo, da oposição conservadora. O partido do ex-presidente Nicolas Sarkozy, UMP, votou massivamente contra a proposta do casamento para todos (Groupe de l’union pour un mouvement populaire. 196 membros. 6 votos favoráveis, 183 votos contrários, 5 abstenções). Os centristas e radicais de direita (Groupe de l’union des démocrates et indépendents. 30 membros. 5 votos favoráveis e 25 votos contrários) e os não-inscritos (em sua maioria deputados de extrema-direita que não obtiveram o número mínimo de cadeiras para formar um grupo na Assembleia. 7 votos contrários, nenhum a favor) endossaram a lista oposicionista.
            O deputado dos franceses da América Latina e Caribe, Sr. Sergio Coronado, do grupo ecologista votou a favor do projeto de lei Taubira, recentemente, ele havia subido à tribuna do hemiciclo para defender o casamento para todos. O franco-brasileiro Eduardo Rihan Cypel, do grupo socialista, votou a favor. Os antigos pretendentes à presidência francesa Jean-Louis Borloo (União dos democratas e independentes. Centrista), Noël Mamère (Ecologistas) e Marie-George Buffet (Esquerda democrata e republicana) votaram à favor, enquanto que o soberanista de extrema-direita, Nicolas Dupont-Aignan (Não-inscritos) votou contra.
            Chamou a atenção, contudo, o voto favorável ao projeto de lei dos deputados UMP, Henri Guaino e Luc Chantel que fizeram forte oposição ao casamento para todos. Eles declararam terem errado o botão durante a votação, ao total seriam cinco deputados que votaram errado. Além dos dois, Alain Chrétien, Marcel Bonnot e Marianne Dubois, todos da UMP, também erraram o botão. O erro, contudo, não mudou o resultado de uma disputa que consumiu “136 horas e 56 minutos” de debate da Assembleia, conforme o pronunciamento do presidente da casa, Claude Bartolone. Ainda assim, os deputados UMP Benoist Apparu e Franck Riester que votaram a favor do casamento para todos não se pronunciaram endossando rumores que eles apoiaram a proposta do governo socialista.

Para os oposicionistas, a luta continua

            Henri Guaino, que foi conselheiro do ex-presidente Nicolas Sarkozy, declarou que continuará a manifestar sua oposição ao projeto de casamento e adoção para todos e demandará ao presidente François Hollande realizar um referendo sobre a adoção da lei.
            Os opositores ao projeto de lei do casamento e adoção para todos que se reuniram em torno de grandes manifestações – manifs pour tous (manifestações para todos) prometem não baixar os braços apesar do voto favorável da Assembleia Nacional. Uma parte dos manifestantes contrários ainda que aceite o casamento gay se manifesta contra o projeto de lei, pois ele permite a adoção para os casais do mesmo sexo. Para eles esse é o grande problema do projeto, o ex-militar Philippe que participava de uma manifestação na cidade de Tours, declarou ao jornal Le Monde: “Na verdade, o que nos incomoda na lei Taubira não é o casamento, mas a adoção. Isso quer dizer que a criança adotada por um casal homossexual será inscrita no registro civil como filha de dois pais homo, sem nenhuma menção aos nomes da mãe e pai genéticos, como se fosse filha de um casal que, no entanto, não pode reproduzir. Elimina-se uma referência fundamental na criação da identidade da criança”.

Complicações políticas   

            A França foi tomada de manifestações tanto favoráveis como contrárias ao projeto de casamento para todos, o que dominou toda a discussão política nacional desde janeiro. Alguns líderes do manif pour tous começam a tratar as manifestações como affaire político e se coligaram aos conservadores UMP e FN. Uma das líderes das manifestações, Frigide Barjot apareceu recentemente ao lado de um eleito do partido de extrema-direita FN, uma posição que não agradou à grande parte dos manifestantes.
            Após a votação favorável na Assembleia Nacional, onde a esquerda possui uma maioria esmagadora, a oposição irá consultar o Conselho Constitucional em relação a constitucionalidade do projeto de lei, o que deverá retardar em mais um mês a outorga da lei por parte do Presidente François Hollande. Os primeiros casamentos de casais do mesmo sexo deverão ocorrer somente a partir da metade do mês de junho.
            Caso a outorga da lei se estenda e as manifestações contrárias a lei aumentem poderá criar-se mais um problema político para o presidente François Hollande e para o governo socialista. O grande trunfo que contam os manifestantes contrários e a direita francesa é a pressão sobre os eleitos locais em função das eleições municipais do próximo ano. Uma eleição que se anuncia desde já difícil à maioria presidencial socialista em função da crise econômica na França e da impopularidade do presidente Hollande.
            A implicação de François Hollande é direta, pois ainda candidato, o socialista decidiu abraçar a proposta do casamento e adoção para casais do mesmo sexo, inscrevendo-a em suas propostas de campanha:

            Sob a ótica eleitoral, para o eleitorado progressista que já havia confiado seu voto em Hollande em maio de 2012 a adoção da lei significa o cumprimento de mais uma proposta de campanha, contudo, é difícil identificar o quanto, atualmente, a aprovação da lei poderá conquistar novos eleitores aos socialistas na perspectiva das próximas eleições. O fato é que a lei representa um grande avanço social na França. Os socialistas franceses, mais uma vez, se colocam como os responsáveis pelas grandes mudanças societárias, da mesma forma como nos anos 80 durante a presidência de François Mitterrand, o ministro da justiça Robert Badinter pediu a Assembleia Nacional a abolição da pena de morte, apoiada pela maioria socialista da Assembleia Nacional. Para aqueles que conseguiram manter uma posição indiferente em relação à lei Taubira, sua aprovação e futura promulgação pelo Presidente Hollande significa mudar o foco do debate político para outros domínios, visto que o casamento para todos ocupou a atenção dos franceses desde janeiro desse ano. Até mesmo para o Presidente Hollande o final do grande debate sobre o casamento para todos poderá ser uma boa notícia, pois garante seu lugar na história como chefe de Estado responsável pela promulgação do casamento de pessoas do mesmo sexo no 14º país do mundo – 9º país europeu – e também permite que o governo volte a apresentar para um público mais significativo suas proposições para vencer a crise econômica internacional, recuperando o prestígio da opinião pública francesa. Quem sabe a distância do tempo permita à François Hollande cantar seu primeiro ano de presidente ao som de Non, je ne regrette rien!
A França deverá ser o 14º país a adotar o casamento homossexual no mundo


Para uma lista completa dos deputados que votaram contra e a favor do projeto de lei, acesse o link da Assembleia Nacional Francesa:

Oscar Augusto Berg
Brésil, le 23 avril 2013.
Fotos retiradas do motor de pesquisa do Google.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um início de campanha complicado à François Hollande

Semana conturbada ao socialista François Hollande premia Sarkozy com uma clivagem nas sondagens.
Nicolas Sarkozy, mesmo desmoralizado, sobe nas pesquisas. É o efeito Zapatero ao contrário
As pesquisas de intenção de voto ainda apontam o candidato socialista François Hollande como vencedor com uma larga vantagem em relação a Nicolas Sarkozy, no entanto o chefe de Estado francês foi premiado com uma elevação das intenções de voto nele, em uma semana conturbada a Hollande e ao Partido Socialista, que acaba de fechar um acordo com a EELV (Europe Écologie Les Verts), o Partido Verde francês.

FH, duramente criticado por sua esquerda
Para Jean-Luc Mélenchon (Front de Gauche) : Hollande, um capitão de pedalinho
A declaração que dominou as principais páginas dos jornais franceses e a à La une de seus sites foi a declaração do candidato esquerdista à presidência Jean Luc Mélenchon (Front de Gauche, da qual faz parte o Partido de Esquerda, criado por Mélenchon, e o Partido Comunista Francês) deu a imprensa: “François Hollande é um capitão de pedalinho em meio a tempestade”
Esta semana, muito importante ao deputado da Corrèze por ele finalmente ter apresentado sua equipe de campanha, reservou ainda mais críticas. Jean Luc Mélenchon, mais uma vez, acusou Hollande de adotar uma linha centrista e manter uma obstinação social-liberal. A equipe de Hollande também foi duramente criticada, muitos franceses enxergam Hollande cada vez mais ligados à uma linha centrista e à direita do PS, ao adotar nomes como Manuel Valls, Pierre Moscovici e Julien Dray. A posição de Hollande em relação ao nuclear também ajudou-o a receber críticas, desta vez pela parte dos verdes (EELV) e do comitê central do PS que continuava a época em negociação com os verdes (os quais cobravam dos socialistas uma posição mais clara sobre a saída do nuclear), o deputado da Corrèze defende claramente (desde as primárias) uma saída do nuclear de 75% para 50% até 2025 (os verdes querem mais, ou seja, total).

Acordo PS-EELV: mais um nicho para críticas ao programa socialista?
As últimas notícias nos dizem que o acordo entre o Partido Socialista (PS) e o partido Verde (EELV) vinha sendo tratado há um bom tempo, especialmente desde que foram montados grupos de trabalho entre representantes do PS e da EELV sobre diversos assuntos. As negociações que se entenderam “oficialmente” por diversas semanas iam bem até o chegar da discussão de um assunto muito importante aos verdes: o nuclear.
Defensores da saída total do nuclear (como a Alemanha de Merkel anunciou que fará até 2022), os verdes encontraram muitos convergentes à política desejada pelos socialistas para o abandono da tecnologia nuclear, pois diferentemente dos verdes, o Projeto Socialista para 2012 (Le Changement, disponível no site do PS) não fixa um porcentagem da dependência nuclear que deverá ser deixada de lado, apenas que novas energias renováveis deverão ser melhor exploradas a fim de realizarmos a transição nuclear, pois ainda conforme o Projeto, abandonar o nuclear, não é apenas deixar de lado a geração deste tipo de energia, mas também toda a sua indústria (Areva, etc.) e todo o savoir-faire (know-how à francesa) adquirido desde os anos 70, quando o nuclear passou a ser o centro da matriz energética francesa, e isto, em última análise, seria aumentar ainda mais a desindustrialização da francesa e milhares de trabalhadores abandonados ao desemprego.

Nos anos 70 a França optou pelo Nuclear, e nele entrou de cabeça, 42% da produção européia é francesa, mesmo com o esforço francês a quantidade não tende a diminuir, já que em todo o continente o setor nuclear é de pouco em pouco abandonado.
Nesta semana, no entanto o PS chegou a um acordo com a EELV, no qual – entre diversas outras ações políticas – decidiu-se por diminuir a dependência francesa em relação ao nuclear de 75% a 50% até 2025 (mesma proposta que François Hollande defende desde sua campanha nas Primaires Citoyennes) e o fechamento de 24 reatores. Todas as propostas deste acordo podem ser encontradas no link fornecido no final desta postagem.

O Nuclear é onipresente na França hoje : 75% da matriz energética e 58 reatores. Segundo o acordo PS-EELV, a dependência irá diminuir para 50% e 24 reatores serão fechados.
 Como se esperava, o acordo PS-EELV abriu espaço para muitas críticas da direita pela política adotada pelo PS. Como já dizia François Mitterrand em sua obra Ici et Maintenant (1980) (No Brasil chamado de “Aqui e Agora” e facilmente encontrável em um sebo ou no Mercado Livre) o PS enfrenta uma dupla concorrência sobre o nuclear: seja o tudo da direita ou o nada dos ecologistas. Incrivelmente, mais de 30 anos depois o debate e as posições restam as mesmas, mas desta vez, parece o PS ter cedido demais aos verdes, tendo alguma parte do eleitorado socialista temer que os verdes possam em um futuro próximo fazer o mesmo que ops próprios socialistas fizeram com os comunistas nos anos 70 e 80 através de diversos acordos, como o Programa Comum, de 1972.

Hollande ainda na frente, mais com uma vantagem menor.
Não suficiente dura, a semana de François Hollande foi “premiada” com uma queda considerável nas pesquisas de intenção de voto. Conforme mostrado aqui em 20/10/2011, o candidato socialista dispunha de 35% das intenções de voto contra atuais 34%, seu provável adversário Nicolas Sarkozy, ficaria com 27% dos votos, 2 suplementares em relação a última pesquisa, conforme uma pesquisa da CSA realizada entre 14-15 Novembro tendo consultado 1001 pessoas. Ainda mais preocupante que a sondagem da CSA, foi a sondagem da LH2 que mostrou, como bem sublinhou a mídia francesa, um Hollande em queda e um Sarkozy subindo nas pesquisas:

“Nicolas Sarkozy continua sua subida e encosta em um Hollande que perde seu fôlego” (TF1.fr)

“Nicolas Sarkozy confirma seu retorno às sondagens face à um François Hollande em evidente queda” (France Soir)

“O Presidente da República estaria nos calcanhares de François Hollande (30%, -9pts.) somando 29% das sondagens” (Le Parisien)

“Hollande e Sarkozy disputam cotovelo a cotovelo o 1° turno” (Libération)

Segundo a LH2, Hollande não teria mais que 30% dos votos, ao passo que o presidente Sarkozy encostaria nele com 29% das intenções, no entanto, no 2° turno os socialistas ainda venceriam, com 58% dos votos contra 42%, mantendo o score que vinha fazendo nas últimas pesquisas. A pesquisa de LH2 foi menor, realizada com cerca de 600 pessoas (environ 600, conforme a ficha técnica da pesquisa). Veja uma tabela resumindo as pesquisas da CSA e da LH2 da última semana:



Candidato
1  Turno
2° Turno
Pesquisa
Intenção (%)
Relação out/2011
Intenção (%)
Relação out/2011
François Hollande (PS)
CSA
34*
(-1)      ↓
59
(-3)  ↓
LH2
30*
(-9)      ↓
58
(-2)  ↓
Nicolas Sarkozy (UMP)
CSA
27*
(+2)     ↑
41
(+3) ↑
LH2
29*
(+5)     ↑
42
(+2) ↑
Marine Le Pen (FN)
CSA
16
(±0)       -

LH2
15
(+1)     ↑

François Bayrou (MoDem)
CSA
7
(-2)      ↓

LH2
7
(-1.5)  ↓

Jean-Luc Mélenchon
(Front de Gauche:PG/PCF)
CSA
5
(±0)      - 

LH2
7
(+0.5) ↑

Eva Joly (EELV – Verts)
CSA
4
(+1)     ↑

LH2
6
(+1)     ↑

Outros
(Jean-Pierre Chevènement, Dominique de Villepin, Nathalie Artahud, Hervé Morin, etc.)
CSA
7
(-1)      ↓

LH2
6
(+3)     ↑





Sondagem CSA (14-15/Novembro 2011)






Sondagem LH2 (20/Novembro 2011)



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Pesquisas de Intenção de Voto CSA Novembro/2011
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Pesquisa de Intenção de Voto LH2 20/11/2011
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Principais pontos do Acordo PS-EELV

Oscar Berg,
Brésil, le 21 Novembre 2011