FrancePo é um canal para a discussão da política francesa, de seus principais atores, suas tendências e sua história, escrito por um jovem internacionalista
O péssimo resultado dos socialistas nas eleições municiais levou o
Presidente François Hollande a demitir seu Primeiro Ministro Jean-Marc Ayrault
e nomear o desconhecido dos brasileiros Manuel Valls ao posto. Conheça o novo
premiê francês responsável a partir de agora de salvar os socialistas
franceses.
O prazo de validade de Jean-Marc
Ayrault a frente da chefia de governo já estava contado a muito tempo. No final
do ano passado os rumores já eram grandes. Na época circulava o nome do
ambicioso ministro do Interior (pasta de maior importância do governo, uma
espécie de Ministério da Segurança Pública brasileiro) Manuel Valls e da
prefeita de Lille, Martine Aubry. Ainda que eu apostasse já na época em uma
troca de chefia a razão estava com um amigo militante socialista de La Rochelle
que me confiou: “Jean-Marc Ayrault é muito fiel ao Presidente, é um bom cheval de bataille. Hollande está certo
em mantê-lo”. Jean-Marc Ayrault, contudo, não resistiu ao grande choque da
derrota do PS nas eleições municipais realizadas em 23 e 30 de março. Ao passo que
em 2008, os socialistas foram os grandes vencedores dessas eleições, quatro
anos mais tarde eles foram os grandes derrotados ao perderem cidades
importantes como Niort, Reims, Saint-Étienne e Toulouse (a
lista completa está no Le Monde) e, pior, em muitas cidades se tornaram a
terceira força política graças ao surpreendente resultado da extrema-direita.
Mesmo bastiões socialistas como no norte foram perdidos (ainda que Aubry tenha
sido reeleita em Lille). Falando em bastiões, os comunistas também estão em
choque com a derrota de Catherine Peyge (femme
politique que tive o prazer de conhecer e por quem nutri uma grande simpatia)
em Bobigny, cidade do subúrbio parisiense comandada pelos comunistas há um
século!
Em face desse grande fracasso,
François Hollande não teve outra escolha senão a de iniciar uma reformulação de
sua equipe de governo, a começar por seu Primeiro Ministro muitos analistas
políticos tendo indicado que a derrota socialista foi uma resposta à
impopularidade do Presidente Hollande e não necessariamente um voto de
desconfiança às administrações socialistas locais. De certa forma, a eleição
local tomou ares de disputa nacional.
À época, Valls foi descrito como o plaidoyeur de uma política realista.
Ainda que isso levasse os socialistas à se aproximarem dos centristas e mesmo
da centro-direita, algo que preocupou muito os militantes socialistas à época
mas, sejamos sinceros, após dois anos de presidência de François Hollande
percebemos que esse é o menor medo dos socialistas agora. Vale ressaltar que
Valls recebeu, em 2011, o apoio da influente publicação The Economist que o apresentou como o único portador dos valores da
esquerda moderna em detrimento aos ‘dinossauros do PS francês’ (leia-se
François Hollande e outros).
Expert do PS em questões de
segurança pública, Valls foi nomeado por François Hollande quando de sua
eleição ao Ministério do Interior em detrimento de ‘dinossauros do PS’ que
sonhavam com o posto, como François Rebsamen que poderá agora entrar no governo.
Em seu posto, Valls se envolveu em grandes polêmicas, mas se caracterizou como
o campeão da opinião pública, sendo um dos políticos mais populares da França,
algo raro em meio ao governo socialista acusado de não fazer nada para conter a
crise.
É certo que Valls terá grandes
desafios a sua frente e o primeiro deles será justamente negociar com o
presidente os nomes de seus ministros. Personalidades socialistas batem a porta
do governo como Ségolène Royal e Rebsamen, outros buscam mais espaço no governo
como Stéphane Le Foll (agricultura), Pascal Lamy (cidade) e Najat
Vallaud-Belkacem (direito das mulheres e porta voz do governo). Outros ainda
lutam para manter seus postos, como Arnaud Montebourg (recuperação industrial)
e Pierre Moscovici (economia e finanças). Valls e Hollande, agora juntos, terão
que balancear as aspirações pessoais dos ministros com o recado das urnas. Algo
nada fácil. Ainda, há algumas semanas os verdes declararam que não
participariam de um governo com Valls em sua chefia. O bom resultado dos verdes
nas eleições municipais (uma exceção na esquerda. Notável vitória em Grenoble
contra os socialistas) aumentou ainda mais sua margem de manobra. É provável
que Cecile Duflot (habitação) busque finalmente o ministério do meio ambiente.
O atual ministro Philippe Martin, segundo o Nouvel
Observateur, estaria preparado para deixar a pasta.
Para concluir, é possível que
François Hollande tenha criado um belo problema para sua reeleição em 2017. Um
desempenho positivo de Valls não recuperaria somente a pele do governo, mas
também o lançaria como candidato natural à sucessão de Hollande ao passo que
este estaria em condições de disputar um segundo mandato. O fato é que Hollande
não teve outra escolha. Dentro os nomes à sucessão de Ayrault o de Valls era o
que mais agradava: Hollande e Aubry não têm boas relações; Laurent Fabius
(relações exteriores, político mais popular da França conforme recentes sondagens)
já esteve no posto de Primeiro ministro na época de Mitterrand (1985-1986) e
apresentou uma performance severamente criticada; Jean-Yves Le Drian (defesa)
não encarna o espírito de mudança demandado pelos franceses; e Ayrault não
teria nada de novo a oferecer. Prevaleceu a lógica e Manuel Valls foi nomeado
para Matignon, o que pode decepcionar em especiais os militantes mais à esquerda do PS.
Delphine Batho, demitida nesta terça-feira do Ministério da Ecologia, Desenvolvimento Sustentável e Energia
Após
criticar o orçamento de seu ministério, Delphino Batho, então ministra da
Ecologia, foi convocada ao Palácio de Matignon para uma reunião a portas
fechadas de duas horas com o Primeiro-Ministro, Jean-Marc Ayrault, e viu suas
funções serem encerradas pelo Presidente, François Hollande, através do
seguinte comunicado do Eliseu:
“Após
proposta do Primeiro-Ministro, o Presidente da República pôs fim às funções de
Delphino Batho e nomeou Philippe Martin, ministro da Ecologia, do
Desenvolvimento Sustentável e da Energia”.
Philippe
Martin, que comemorará 60 anos em novembro, é deputado na Assembleia Nacional
pelo departamento de Gers. Ele é membro do Partido Socialista (PS) e participa
da Comissão de Desenvolvimento Sustentável e Ordenamento do Território da
Assembleia.
Delphine
Batho foi demitida após criticar publicamente os cortes orçamentários de seu
ministério para o ano de 2014 em uma emissão da rádio RTL: “Este é um péssimo
orçamento”. Batho foi ainda além ao propor que as seguintes questões deveriam
ser feitas: “A Ecologia é mesmo uma prioridade?” e; “Será que temos a
capacidade de passar do discurso aos atos?”. Delphine Batho era próxima de
Ségolène Royal, ex-candidata a presidência (2007) e Presidente do Conselho
Regional de Poitou-Charentes, onde empreende grandes projetos de
desenvolvimento sustentável.
O
Ministério da Ecologia é uma das pastas ministeriais que mais sofreu com o
corte orçamentário que o governo pretende realizar no próximo ano, com queda de
7% de seus créditos. A ex-ministra lamentou o corte em um momento de “decepção
com o governo”. A demissão da ministra foi comemorada em alguns círculos do PS
que vêem no ocorrido uma recuperação da autoridade do Presidente François
Hollande e do Primeiro Ministro Jean-Marc Ayrault nas decisões do governo. Os
demais partidos de esquerda, contudo, lamentaram a decisão do Presidente e
saudaram a coragem de Batho. Contudo, os verdes (EELV) decidiram, até este
momento, continuar no governo. A direita aproveitou a situação para lembrar que
Martin será o terceiro ministro da ecologia em quatorze meses de governo
(Nicole Bricq cedeu lugar à Dephine Batho na reforma ministerial após as
eleições legislativas de 2012. A Frente Nacional (extrema-direita) lamentou a “total
desinteresse do governo nas questões ambientais”.
A
expectativa é de que o novo ministro da Ecologia, Philippe Martin, possa
realizar um trabalho mais engajado, pois as questões ambientais interessam cada
vez mais os franceses e o Presidente Hollande é acusado de não dar atenção
suficiente a essa agenda.
Ségolène Royal: O medo Sarkozy evita um belo sonho
Após a divulgação dos resultados, Ségolène não consegue
evitar as lágrimas ao deixar seu QG
Foram 17
milhões de votos no segundo turno da eleição presidência de 2007, a maior
votação recolhida por um socialista desde 1995. São centenas de blogs, milhares de militantes ortodoxamente
engajados em seus ideais nas principais redes sociais mundiais, o website político mais influente da
França nos últimos anos. É extremamente calorosa sua recepção na França do
Além-Mar, nos distritos, subúrbios e municipalidades mais sensíveis. No
entanto, Ségolène Royal, apesar de todos os fatores acima jogando a seu favor,
não ultrapassou a marca de 10% de 2,5 milhões de votos nas Primaires Citoyennes, uma imensurável decepção.
Todo
esse fracasso não representa sob nenhuma hipótese ma diminuição da popularidade
de Ségolène Royal ou uma má avaliação de suas políticas voltadas a virada
ecológica da sua região de Poitou-Charentes, mas um medo crescentedos franceses em reviverem o fracasso de
2007, de terem que por mais 5 anos viverem o superpresidencialismo de Nicolas
Sarkozy, o qual muitas franceses elencam Ségolène Royal como grande
responsável.
É
claro que não cabe apenas a Ségolène Royal a derrota de 2007, mas seu discurso
nas primárias – que pouco mudou e incorporou uma quantidade insuficiente de novas
ideias em relação ao de 2007 – aproximaram a esquerda deste pensamento errôneo.
Ségolène em um encontro do MJS, seu
prestígio entre os militantes socialistas deve se manter intocável
O
fator decisivo portanto, para a tão gritante quanto surpreendente derrota de
Ségolène foi a sua postura ainda muito ligada a 2007, um passado recente que os
socialistas franceses desejam esquecer e superar com uma grande vitória em
2012, e essa vitória, conforme claramente mostraram os franceses, não estaria a
altura de Ségolène Royal. Seu acerto é de não repetir aquilo que Lionel Jospin
fez há dez anos atrás na sequência da sua maior derrota (a do primeiro turno
das presidências de 2002 face a Jean-Marie Le Pen), de desistir de sua careira
política. O sucesso da administração de sua região, sua enorme admiração nos
bairros populares são apenas dois exemplos do porquê ela deve continuar ativa
no PS, pois como ensinou o mestre Mitterrand, as belas derrotas são aquelas que
preparam as próximas vitórias.
Quando o primeiro-secretário interino do Partido Socialista, Harlem Désir, convocou a mídia para dar algumas cifras dos resultados das Primaires Citoyennes, as primárias organizadas por seu partido conjuntamente ao Partido Radical de Esquerda, elas já representavam um grande sucesso, mas nada comparável ao que ainda viria no mesmo dia: aquela altura, com menos da metade do tempo de votação passado, mais de 700 000 simpatizantes da esquerda já tinham votado, exatamente 2/3 do esperado para todo o dia.
Ao final do memorável 9 de Outubro, mais de 2,5 milhões de simpatizantes da esquerda passariam pelos colégios eleitoras que foram organizados, superando em muito a expectativa de pouco mais de 1 milhão de votantes, causando, inclusive, problemas na recepção dos eleitores em alguns deles.
Dado o enorme sucesso do comparecimento nas primárias, os primeiros resultados tardaram a serem divulgados, esperados para as 19hs chegaram apenas as 20hs durante os tradicionais jornais dominicais franceses (uma espécie de Fantástico). Tive a oportunidade de acompanhar o Journal de 20 heures da France2, no qual seu apresentador, o popstar Laurent Delahousse, conseguiu os primeiros resultados diretamente de Solférino, a sede dos socialistas. Àquela altura os resultados de 160 000 votos mostravam uma tendência que se seguiria: François Hollande, à ocasião, muito a frente dos outros candidatos com mais de 40% dos votos, Martine Aubry em segundo lugar com 30%, um surpreendente Arnaud Montebourg batendo a casa dos 20%, uma decepcionante Ségolène Royal seguida de perto por Manuel Valls e, como previsto, Jean-Michel Baylet em último lugar com os 1% de votos que manteria até o final da contagem de votos.
Os últimos resultados disponíveis no site oficial das Primaires Citoyennes (atualizados às 24hs de Paris) revelavam, com 94% das urnas apuradas, os resultados praticamente definitivos:
Candidato
% dos votos apurados
Total de votos (milhares)
François HOLLANDE
39
996
Martine AUBRY
31
778
Arnaud MONTEBOURG
17
440
Ségolène ROYAL
7
174
Manuel VALLS
6
144
Jean-Michel
BAYLET
1
16
Os resultados acima apontam algumas definições claras: François Hollande e Martine Aubry disputarão o segundo turno, e com uma eleição ainda aberta, já que FH não conseguiu se distanciar conforme o esperado; Arnaud Montebourg fez uma excepcional votação e será o árbitro deste segundo turno; Ségolène Royal obteve um resultado abaixo do esperado e muito abaixo de sua capacidade; Manuel Valls na sua estréia nas grandes disputas do PS marcou pontos para o futuro e Jean-Michel Baylet veio ao que se propôs: tornar as primárias não apenas socialistas, mas cidadãs e reivindicar um passado radicalista de esquerda.
Até o momento pudemos desenvolver bastante o que são as Primaires Citoyennes e também como elas estão sendo organizadas, no entanto ainda não tivemos tempo de conhecermos cada um dos aspirantes a ser o candidato socialista para a eleição presidencial de 2012, sendo assim este post se dedica a esse objetivo:
Martine Aubry, a candidata da união dos socialistas
Candidata natural dos socialistas a eleição presidencial Martine Aubry é Primeira-secretária do PS desde 2008, quando foi eleita através de uma conturbada eleição no Congresso de Reims face a Ségolène Royal com 50,04% dos votos.
Quando Aubry assumiu o PS ela teve de enfrentar um partido extremamente dividido e desacredito, o PS vinha de três eleições consecutivas nas quais não havia conseguido eleger o presidente francês, em face a tantos problemas Aubry conseguiu reverter o PS aos bons ventos: vitória nas Eleições Cantonais de 2008 e 2011, Eleições ao Parlamento Europeu de 2009, Eleições Senatoriais em 2011 (a primeira vitória socialista na Vª República), etc.
Frente a estes excepcionais resultados, ainda maiores frente ao clima de divisão pós-Reims, Aubry é a candidata natural dos socialistas em 2012, nas Primárias, Aubry tem se feito conhecer como uma candidata mais à esquerda do PS: defende a criação de um banco regional de investimento, taxação das transações financeiras, supressão de nichos fiscais e criação de 300.000 empregos do futuro aos jovens no setor público francês, etc.
As pesquisas de intenção de voto apontam Martine Aubry sempre em segundo lugar nas Primárias Socialistas, atrás de François Hollande, em uma hipotética disputa presidencial, Martine Aubry teria 29% das intenções de votos (Sarkozy teria 22%) segundo a consultação IPSPS – Le Monde de 4 de Outubro. Provavelmente a frase que marcará a campanha de Aubry foi a sua investida sobre FH no último debate de 3 de Outubro: “Não se bate uma direita forte com uma esquerda fraca” (disponível no trecho abaixo)
François Hollande, o candidato normal
François Hollande (FH) decidiu apresentar sua candidatura às Primárias do PS em meio a toda conturbação que sacudiu a França durante o caso Strauss-Kahn e as eleições cantonais na qual ele manteve-se como conselheiro geral da Corrèze. Na ocasião Hollande declarou que não havia se candidato para negociar ou figurar, mas para vencer a disputa. A um dia do primeiro turno das primárias, a declaração de FH parece prestes a se tornar verdade.
A França de hoje enfrenta o problema do superpresidencialismo, um defeito da Vª República concebida em um espírito completamente gaullista: Nicolas Sarkozy, o atual presidente francês, abusa de seu poder político para colocar os franceses contra si, ele joga os trabalhadores contra os desempregos, os funcionários públicos contra os assalariados, os imigrantes contra os franceses, os jovens contra os mais velhos e assim por diante. Frente a este problema de falta de limites para a figura pública do presidente a França precisa urgentemente de um presidente normal, e não do presidente bling-bling. François Hollande entendeu o recado. Em uma de suas primeiras declarações o conselheiro geral da Corrèze se apresentou como o candidato normal (argumento igualmente importante na sua briga interna com Dominique Srauss-Kahn e Ségolène Royal, tidos como muito mediáticos).
François Hollande elencou desde o início de sua candidatura às primárias uma prioridade: a juventude. Para FH o principal problema da França de hoje é a ameaça a qualidade de vida da juventude amanhã. No que ele chamou de Rêve Français, FH diz que o “sonho francês” (tradução livre) não é um sonho de crescimento econômico, mas um sonho de permitir que uma geração possa viver melhor do que a sua predecessora.
Juntamente a juventude, FH tem baseado sua campanha principalmente na fiscalidade e impostos, na educação, na integração européia e no progresso ecológico. Ainda que na tenha sido o mais notável Primeiro-secretário do PS, François Hollande conquistou belas vitórias em seu mandato apesar da grande derrota nas eleições presidenciais de 2001 e 2007. Seu discurso, que está longe de ser de uma esquerda mole (une gauche molle) como atacou Martine Aubry, é o que mais anima os franceses de todos os espectros políticos a sonharem com a alternância em 2012 pois está suficientemente distanciado de uma esquerda ultrapassada e pragmática como são tachadas Aubry e Royal, de uma esquerda irrealizável como a de Arnaud Montebourg e mesmo assim não caiu em um discurso não-socialista pseudo sarkozysta de Manuel Valls ou ao discurso radical perdido no tempo de Jean-Michel Baylet.
François Hollande é hoje o candidato da esquerda pluralista, que vai desde o social-democrata Pierre Moscovici ao ex-candidato comunista à presidência Robert Hue, mas é também o principal candidato dos centristas, que creditam aos socialistas a missão da alternância em 2012 face a falta de conteúdo de seus candidatos naturais (o desistente Jean-Louis Borloo e o enfraquecido François Bayrou), e dos desacreditados do sarkozysmo. Como disse o deputado presidente do grupo socialista na Assembléia Nacional: “François Hollande, esta é a minha convicção, é o presidente que a França precisa”´[1]
[1] Carta de Jean-Marc Ayrault aos franceses, disponível em seu blog:
Arnaud Montebourg, globalizar a cultura, desglobalizar a finança
No Brasil, quando falamos em socialismo a primeira coisa que nos recorre é a extinta União Soviética e seus líderes que tanto fizeram e continuam a fazer a cabeça dos brasileiros, ou a Cuba, que ainda incita grande admiração por seus serviços públicos. Para grande parte dos brasileiros, socialismo e democracia são duas coisas insociáveis, propriedade privada então nem se o diga, por isso temos até hoje um grande problema ao discutir a política francesa, é corrente ganharmos olhares cruzados ao falar no Partido Socialista Francês, como se estivéssemos defendo a Ditadura do Proletariado de Lenin, a Revolução Cubana ou a stalinização da economia. Pura falta de conhecimento.
Soa mais estranho ainda a um brasileiro a declaração a seguir: “Arnaud Montebourg é o único candidato antiliberal da Primária Socialista”[2] conforme disse o filósofo ateísta Michel Onfray. Ou seja, segundo Onfray: Aubry, Royal, Baylet, Hollande e Valls não seriam antiliberais, mas seriam o que então?
O Partido Socialista de hoje não é mais o mesmo de 1981, que quando da vitória de François Mitterrand fez os franceses conservadores temerem uma troca radical de sistema. Desde então, face ao fracasso do programa de Mitterrand de ruptura com o capitalismo, as privatizações e a austeridade do governo Chirac durante a primeira coabitação levaram os socialistas franceses a não aspirarem mais do que a regulamentar o sistema capitalista. Ainda que a afirmação antes de Michel Onfray não represente a verdade, apenas o eufemismo de um eleitor da Front de Gauche que votará nas Primaires Citoyennes, na eleição atual percebe-se claramente que apenas Arnaud Montebourg está engajado na mudança do sistema econômico, ao passo que Martine Aubry e Ségolène Royal defendem uma forte regulamentação do mercado financeiro, François Hollande fica em um meio termo, Jean-Michel Baylet não torna este um de seus principais desafios políticos e Manuel Valls se distancia muito do socialismo ao não deixar clara nem sua posição em torno dos nichos fiscais.
Voltando a Arnaud Montebourg, é interessante acompanharmos as suas ideias em relação a mudança de sistema: Montebourg defende uma desglobalização (la démondialisation)da finança internacional e uma troca de sistema em direção ao capitalismo cooperativo. Em relação a desglobalização, Arnaud Montebourg segue as ideias do cientista político filipino Walden Bello, em entrevista ao jornal francês Monde, o socialista declarou: “Economicamente e ecologicamente a globalização é um desastre pois ela sobrevaloriza as exportações. É necesário desta forma assumirmos um certo protecionismo como ferramenta para o desenvolvimento, tanto no norte como no sul”[3] Montebourg deseja primeiramente acabar com um grande número de práticas especulativas e a criação de uma taxa global para as atividades financeiras, ao contrário de seus colegas socialistas do pós-Mitterrand, Montebourg declara francamente que suas propostas em relação as finanças não são regulamentadoras, “são leis de segurança pública”[3]
Dentre outras ideias, Arnaud Montebourg defende a entrada de assalariados nos conselhos de administração de empresas cotadas na bolsa de valores, constituindo um terço desses conselhos, a fim de realizar um contra peso ao poder excessivo dos acionários[4], a reforma das agências de notação e o desenvolvimento de crédito de auxílio ao sistema cooperativo.
Estando ou não de acordo com as ideias de Arnaud Montebourg é necessário estarmos atentos a elas e termos a convicção de que o jovem deputado da região da Saône-et-Loire tem muita energia e pode estar escrevendo desde agora as diretrizes do novo sistema que há de substituir o atual, assim não podemos desejar nada menos à Arnaud do que sinceros votos de boa sorte neste seu engajamento pela mudança.
[2] Veja o texto original no blog de Michel Onfray
Jean-Michel Baylet, um radical de esquerda em meio aos socialistas
A esquerda francesa passou por um longo período de transformação até os socialistas serem a sua primeira força a partir dos anos 80, antes deles já tinham sido os comunistas, a frente popular e os radicais-socialistas. Jean-Michel Baylet, o único não socialista na disputa das primárias, é um claro herdeiro do movimento radical de esquerda.
Jean-Michel foi um dos fundadores do MRG (Mouvement de Radicaux de Gauche), movimento que surgiu após a cisão do Partido Radical (que investia tanto em uniões com os socialistas como junto aos conservadores) em 1972 devido a ala esquerda deste partido decidir apoiar o Projeto Comum (possibilidade refutada pela ala direita do partido), que reuniria comunistas, socialistas e radicais de esquerda para a candidatura de François Mitterrand às eleições presidenciais de 1974. Desde 1996 Baylet é presidente do Parti Radical de Gauche, predecessor natural do MRG.
A principal proposta de Jean-Michel Baylet para a designação do candidato do PS é em relação à União Européia, ele defende um federalismo europeu, único meio, em sua opinião, de salvar o euro e possibilitar a inédita governança européia. Quanto as demais propostas de Baylet, podemos encontrá-las em se livro L’Audace à gauche (A audácia da esquerda) (disponível gratuitamente online em seu site)[5]e também nos valores do Partido Radical de Esquerda[6], os quais julgamos interessantes de serem listados abaixo em uma tradução livre:
“- Laicidade:
Os radicais de esquerda crêem na virtude da laicidade, que constitui na verdade a pedra fundamental da filosofia radical. Os radicais defendem a neutralidade das instituições públicas – entre elas a escola – com relação as influências sociais, filosóficas ou de religiões, permitindo à cada um conservar suas próprias opiniões.
- Solidariedade:
A solidariedade ilumina a ação de todos os radicais. De uma ação social eles a constituem uma exigência moral. Ela deve ser adquirida pela livre associação e não por uma exigência. Para reforçar as ligações que devem existir entre a sociedade e o indivíduo, a política deve se inspirar na solidariedade como uma realidade intangível, inviolável e necessária.
- Humanismo:
O homem é a determinação, a finalidade e a justificativa de toda ação pública. O livre desenvolvimento de todas as suas possibilidades que dá um sentido ao progresso e justifica o esforço de uma reivindicação social deve guiar a ação pública.
- Tolerância:
O discurso de ação dos radicais se determina pela razão e pela tolerância. No centro do projeto radical floresce a ideia da reconciliação, sendo a reunião, a união, a missão dos radicais.
- Universalismo:
Os radicais possuem uma concepção subjetiva da nacionalidade, fundamentada na vontade livremente expressa em um futuro comum e não em critérios de língua, de religião ou de origens étnicas ou geográficas.
Talvez Ségolène Royal seja a candidata mais conhecida dos brasileiros que está disputando as Primaires Citoyennes, ela foi a candidata do PS em 2007, na última eleição presidencial, a da vitória de Nicolas Sarkozy.
Apesar da derrota em escala nacional (a terceira seguida dos socialistas face à UMP, sucessora do RPR de Jacques Chirac), Ségolène Royal soube aproveitar a experiência de 2007 para se lançar como uma candidata preparada para uma nova investida presidencial, nestes cinco anos Ségolène obteve uma boa votação no Congresso de Reims (2008) para a presidência do partido (a qual perdeu para Martine Aubry por uma diferença de 102 votos em mais de 100 mil registrados) e através do seu site Désirs d’Avenir manteve contato com os franceses, na rede social Facebook, Ségolène mantém uma ampla vantagem sobre os outros adversários socialistas: possui 33 mil seguidores de sua página ao passo que François Hollande (até então segundo colocado nesta “disputa”) praticamente alcança a marca de 15 mil.
Seus frutos, além dos acima descritos se encontram também em um excepcional mandato no governo da Região de Poitou-Charentes, ao qual foi reeleita em 2010 com 60% dos votos, voltadam principalmente a uma política ecologista, em sua região foi construída a primeira escola com energia auto-sustentável, em parceria com uma empresa local foi desenvolvido um automóvel elétrico, dentre outras iniciativas inovadoras.
No atual debate Ségolène é considerada como mais a esquerda do PS, ainda que declare que as coligações do Partido Socialista não devem compreender apenas os ecologistas ou a extrema esquerda, como também o centro humanista e a direita gaulista, “pois uma certa parte da direita perdeu esta tradição gaulista”´[7]. No ano em que a vitoria presidencial de François Mitterrand completou 30 anos, Ségolène Royal rapidamente procurou se mostrar como sucessora da política mitterrandista ao citar diversos ensinamentos dele em um encontro de campanha dois dias antes das comemorações oficiais do trigésimo aniversário do 10 Mai (dia da vitória de Mitterrand)[8]. Outra grande preocupação de Ségolène é em relação aos estrangeiros e aos povos dos territórios franceses, ela continua a ser uma fervorosa defensora do voto dos imigrantes nas eleições (em detrimento a outros candidatos mas rudes à proposta como Valls, Hollande e Aubry, que por vezes questionam tal proposta do Projeto Socialista defendendo por vezes o voto apenas de imigrantes da comunidade européia), em uma de suas últimas interações em seu site oficial, Ségolène Royal divulga uma carta aos franceses do Além-Mar[9], dos quais ela diz possuir uma ligação forte, pois viveu uma grande parte de sua juventude em um desses territórios (Ségolène é nascida em Dakar, Senegal, à época colônia francesa) e sempre esteve ao seu lado na luta pela diminuição do custo de vida.
Nas pesquisas, no entanto, Ségolène patina, aparece sempre na terceira posição, sem nenhuma condição de fazer sombra a François Hollande ou Martine Aubry, ficando na média de 10% das intenções tendo Arnaud Montebourg como adversário capaz de tirar o terceiro posto da ex-candidata à presidência. Em uma hipotética disputa presidencial, a situação de Ségolène é ainda pior, ela seria a única candidata socialista consultada que perderia a eleição para Nicolas Sarkozy e deixaria de fazer presença no segundo turno, ao passo que Hollande e Aubry, os outros candidatos pesquisados, aparecem sempre a frente e ganhariam a eleição (FH teria uma margem maior que a primeira-secretária do PS). Ainda assim, Ségolène Royal não é uma candidata a ser desconsiderada, ela possui uma capacidade de surpreender muito forte e sua grande rede de apoio na internet farão certamente ela deixar para trás a marca de 10% dos votos.
Manuel Valls, pela esquerda que diz a verdade aos franceses
Se há uma boa surpresa advinda das Primárias PS, ela é personificada por Manuel Valls: o jovem deputado, prefeito e presidente de aglomeração de 49 anos, que foi o primeiro candidato a declarar sua candidatura às primárias do PS, está conseguindo chamar muita atenção em torno de seu discurso realista, de uma esquerda que faz o possível e não mente aos franceses.
O sucesso do discurso de Valls é tamanho que depois do primeiro debate das Primaires CItoyennes, realizado em 14/09/2011, ele viu as intenções de votos nele subiram alcançaram a margem de 7%, apenas dois a menos que a ex-candidata à presidência, Ségolène Royal alcançou nesta mesma sondagem[10]. O jornal inglês The Economist declarou seu apoio ao candidato da Éssone por se ele o único que porta os valores da esquerda moderna em detrimento aos ‘dinossauros do PS francês’ (leia-se François Hollande, Martine Aubry e Ségolène Royal que ainda mantém vivos a tradição mitterandista) [11]. Em seu último artigo sobre os socialistas franceses, o jornal mais uma vez apóia o jovem candidato, defendendo seu discurso de que os franceses devem acordar para a realidade, parar de reclamar dos outros e se empenhar na aplicação de um esforço comparável ao que foi feito no pós-guerra.
O programa de governo de Manuel Valls foi resumido em seu livro “L’énergie du changement – L’abécédaire optimiste” que apresenta cada letra do alfabeto como uma proposta, conforme podemos conferir abaixo em seu site oficial e se canal oficial no Dailymotion
Manuel Valls se apresentou como um candidato jovem capaz, de refrescar os militantes socialistas com sua política realista e suas propostas plenamente realizáveis, no entanto falta a Valls um discurso que saia apenas do tangível, mas que atinja também aquilo que parece intangível, exatamente o que fez François Mitterrand na eleição que o conduziu ao Élysée em 1981. Ou seja, a sua aproximação com a direita e o centro, que está lhe fazendo ser conhecido pode ser a mesma que irá lhe distanciar de uma maior condição de disputar o Élysée, seja agora ou daqui cinco anos.Finalizo com as palavras do The Economist que, na mesma reportagem citada anteriormente diz que “Valls se tornou muito popular entre os franceses, mais nas primárias ele tende a ganhar pouco mais de 5% dos votos”[12].
[10] Veja artigo do Jornal 20 Minutes, publicado em 20/09/2011