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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A França abalada

        
Manifestação na Praça da República, em Paris

      Passadas mais de 24 horas do atentado terrorista na redação do Charlie Hebdo se os franceses continuam em um perfeito estado de união nacional, os partidos políticos, por sua vez, tentam canalizar o sentimento de comoção em ganhos eleitorais. Nada de assustador para um país que está, desde o primeiro semestre de 2014, precipitadamente mergulhado na campanha da eleição presidencial que ocorrerá somente em 2017. Os movimentos dos partidos franceses dizem muito sobre as estratégias que serão mise en place na próxima campanha presidencial: de um lado teremos a Frente Nacional (FN) que poderá encontrar na situação atual da França um contexto perfeito para avançar seu discurso anti-imigrante, islã ou União Europeia, a tríade preferida de Marine Le Pen e se papa Jean-Marie. De outro lado, temos tanto o Partido Socialista (PS) como a União por um Movimento Popular (UMP) que perceberam desde já que caberá a apenas um deles confrontar Le Pen no segundo turno da presidencial de 2017, a exemplo do que ocorreu em 2002 quando Chirac contou com o apoio dos socialistas eliminados no primeiro turno contra a FN, e, portanto, devem dar mostras de suas capacidades de falar em nome da união dos franceses republicanos.
           
            As explicações da precipitação dos franceses em uma campanha eleitoral que deveria começar apenas em dois anos se encontram na própria situação política local. De um lado, François Hollande é abertamente contestado, contudo, de outro lado, a oposição oficial ao poder socialista, representada pela UMP, não inspira nenhuma confiança junto ao eleitorado francês. Acredita-se que apesar da agravação da situação econômica e social sob a presidência de Hollande, Nicolas Sarkozy não faria melhor, tendo sido ele o criador de muitos dos impasses que assolam hoje a França. É preciso dizer igualmente que a UMP está completamente desestabilizada em função de graves problemas financeiros e da disputa interna pelo poder (longe de ter encontrado seu capítulo final na recente eleição de Sarkozy a presidência do partido). Nesse cenário de crise das famílias políticas que representam desde o advento da quinta República – a República Gaullista – em 1958 os polos de poder, percebemos uma reorganização do tabuleiro político com a FN se tornando o “primeiro partido francês”, slogan cunhado por Marine Le Pen após a vitória de seu partido nas eleições europeias de maio de 2014.

Para Marine Le Pen, sua Frente Nacional é o primeiro partido da França.
Os acontecimentos de quarta-feira podem ajudar a extrema-direita francesa?


              A França se já não suficientemente abalada pelas consequências da barbárie do ataque terrorista de quarta-feira vive uma grave crise político-institucional cujo sinal flagrante é a precipitação do debate em torno da sucessão presidencial. Na conjugação destes dois cenários percebemos as condições para que se opere o reordenamento deflagrado pelos sucessivos sucessos da Frente Nacional, de onde se explicaria a excitação dos partidos políticos franceses. Dentre as possibilidades que se oferecem aos franceses, destaca-se, aquela da FN tornar-se, de fato, o maior partido do país, colocando sua candidata no segundo turno da eleição presidencial com chances de vitória; e a instauração de uma frente republicana com a união da direita e da esquerda parlamentar no segundo turno da eleição presidencial de 2017 para conter a escalada da extrema-direita. A escolha dos franceses dirá muito sobre a reflexão em torno do ataque de ontem e da resposta a ser dada ao terrorismo. De um lado há a proposta de combate ao fundamentalismo com mais intolerância e, de outro, uma defesa dos valores fundamentais da França, como a laicidade, alvo dos terroristas.

            Patrick Besson, em sua coluna na revista Le Point de 12 de junho de 2014 afirmou que “certamente Hollande será reeleito daqui três anos”. O jornalista imagina um cenário com Marine Le Pen com 24% dos votos no primeiro turno, Hollande com 22% ou 23% e Nicolas Sarkozy com 14% ou 15%. É evidente que a estratégia traçada por Hollande em 2012 (Reformas – Gestão – Resultados) não tem encontrado sucesso: a amplitude das reformas é criticada à esquerda e à direita; a sua gestão foi abalada pela explosão de escândalos envolvendo, dentre outros, a vida privada de François Hollande; e, finalmente, os resultados dificilmente serão atingidos, o prometido déficit de 3% em 2015, notadamente, não poderá ser alcançado e os franceses deverão esperar mais para o equilíbrio orçamentário. Contudo, Hollande ainda pode esperar ser reeleito. Muito mais que a recente reconciliação com a base socialista, uma resposta adequada aos trágicos acontecimentos que abalam a França poderá lançar o presidente como único capaz de falar em nome de todos os franceses, um papel essencial para vencer sob o nome dos republicanos, a extrema-direita fascista em 2017. Como previu Besson, todos estarão com Hollande para salvar, uma vez mais, a República.

Oscar Berg,

08/01/2015

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Droit Devant

Sarkozy está de volta.

Nicolas Sarkozy, eleito presidente da UMP


                Existe uma música da banda quebequense Cowboys Fringants que diz o seguinte: « prépare toi petit garçon, elle sera longue l’expédition, et même si on n’en revient jamais vivant, Il faut marcher droit devant ». O nome da música é o mesmo deste post, ‘direto à frente’, e resume bem o que deve fazer o recém-eleito Presidente do partido União por um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy, em sua estratégia de (re)conquistar o coração dos franceses.

            Stratégie é uma boa palavra para descrever os movimentos do ex-presidente francês. Discursos, aparições públicas, fotos na imprensa, absolutamente nada, foi feito sem pensar ou passou em margem da estratégia. Nem mesmo a anunciada aposentadoria da vida política francesa. Tudo se inscreve em uma minuciosa estratégia que, ao menos, na cabeça de Sarkozy é coerente e capaz de livrá-lo do título de ex-presidente impopular para coroá-lo “salvador da pátria”. Há dois séculos, Napoleão Bonaparte deixou o exílio na Ilha de Elba para conquistar a França por uma segunda vez. Sarkozy acredita que pode (e deve) fazer o mesmo.

            Em linhas gerais, a estratégia de Sarkozy começou já no anúncio de aposentadoria. Evidentemente que o objetivo não era deixar a política, mas deixar sua família política órfã de liderança (a qual en toute évidence caberia a ele), de modo que os militantes implorassem por seu “retorno” a vida política, legitimando este salto. Em um primeiro momento, tudo funcionou bem. A direita francesa, limitada aos postes (piada pronta) Jean-François Copé e François Fillon, ficou rachada após as brigas entre ambos pela presidência da UMP em 2012. Contudo, o tempo virou: Sarkozy viu seu nome envolvido em grandes denúncias de corrupção, as contas de sua campanha apresentaram um enorme déficit (colocando em causa até mesmo a saúde financeira da UMP) e um verdadeiro competidor surgiu: o ex Primeiro Ministro e prefeito de Bordeaux, Alain Juppé, outrora nomeado pelo Presidente Jacques Chirac como “provavelmente o melhor dentre nós”.

            Dotado de incrível lábia, Sarkozy contornou os problemas relacionados às denúncias de corrupção. Ainda assim, Alain Juppé continua a ser uma pedra no seu sapato. A revista L’express lhe concedeu o título de “O homem que quer salvar a direita” e as pesquisas de intenção de voto, por sua vez, o colocam como único candidato da direita capaz de se impor tranquilamente sobre Marine Le Pen (hoje a real adversária) e François Hollande. A volta de Juppé fez com que a primeira fase da estratégia de Sarkozy falhasse, ou seja, o ex-presidente não é hoje o líder incontestável da direita que ele esperava ser, et ce apesar de sua recente eleição a presidência da UMP.

Revista L'Express revelou os planos do salvador da direita francesa. Bons tempos em que se tinha acesso a mídia francesa em Montréal.


            A vitória eleitoral é minorada por duas razões. Em primeiro lugar, Juppé ficou de fora da disputa se resguardando para a única disputa que importa: a presidência francesa, em 2017. Já amado e odiado pela opinião pública, o prefeito de Bordeaux sabe bem que precisa se resguardar para que chegue ao final da maratona com chances de vitória (Hollande é o único outro político a ter plena noção disso). Assim, o confronto decisivo ainda deverá ser travado para que Sarkozy seja de fato lançado candidato da UMP à presidência francesa, portanto, rien n’est joué d’avance. Em segundo lugar, Sarkozy não venceu a eleição com um score “soviético” (como colocado pelo Le Monde) e viu o jovem Bruno Le Maire (antigo aliado de primeira hora) conquistar 30% dos votos. A juventude é um ponto forte de Le Maire, pois Juppé, cuja idade já ultrapassa os 70, pode não ter saúde necessária para bancar uma campanha presidencial e, em um dado momento, supõe-se que a questão da renovação do partido surgirá.

            Concluímos que vencer a presidência da UMP foi apenas um primeiro degrau da estratégia de Sakorzy já que tanto sua aposentadoria, como seu retorno político foram atos falhos (há quem diga que o livro da ex primeira dama Valérie Trierweiller no qual ela afirma que seu ex-companheiro François Hollande odeia os pobres e os chama de banguelas tenha sido o grande événement da temporada política francesa, até porque House of Cards ainda não estreou no Hexágono). Sarkozy ainda deverá provar que tem gás para se desprender da imagem que esculpiu em cinco anos de presidência e mostrar que seu arrependimento era verdadeiro e não somente um componente de seu marketing pessoal. O que é difícil de acreditar, pois já na noite da vitória seu comboio “presidencial” foi flagrado andando em faixas reservadas aos ônibus para fugir do trânsito parisiense. Arrependido? Peut-être. Bling-bling? Toujours.

            Em um âmbito mais expandido devemos nos questionar acerca do efeito positivo da eleição de Sarkozy para a direita francesa. Será que essa família ainda pode se salvar, conforme L’express sugeriu que Juppé fosse capaz? Essa pergunta ainda carecerá de respostas. A meu ver Sarkoz, na verdade, cria mais problemas do que resolve. A estratégia de retorno à la Napoleão não deu certo. Por uma simples razão. Ao passo que o baixinho córsego de fato se ausentou da vida pública francesa, o baixinho dos bairros chiques de Paris sempre esteve [omni]presente (até mesmo quando ele pretendia estar ausente). Ninguém até hoje sentiu falta de Sarkozy e o seu retorno nada mais é que o retorno daquele que nunca foi. Paradoxalmente quem poderá desfrutar mais da eleição de Sarkozy à presidência da UMP são seus adversários. Marine Le Pen torce por esmagá-lo nas eleições de meio mandato (assim como já vez nas eleições para o Parlamento Europeu). Hollande por sua vez torcerá para que os franceses coloquem seu adversário de 2012 no escanteio e que no segundo turno de 2017 os votos da UMP venham para ele no combate direto contra a extrema-direita, assim como os socialistas votaram em Chirac em 2002 contra o papai Le Pen. Como diriam os Cowboys do Québec, a expedição será longa e nem sempre voltaremos vivos.

Sarkô e Juppé, inimigos declarados


Oscar Berg
3 de dezembro de 2014.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Quem é Manuel Valls, o novo Primeiro ministro francês?

O péssimo resultado dos socialistas nas eleições municiais levou o Presidente François Hollande a demitir seu Primeiro Ministro Jean-Marc Ayrault e nomear o desconhecido dos brasileiros Manuel Valls ao posto. Conheça o novo premiê francês responsável a partir de agora de salvar os socialistas franceses.



O prazo de validade de Jean-Marc Ayrault a frente da chefia de governo já estava contado a muito tempo. No final do ano passado os rumores já eram grandes. Na época circulava o nome do ambicioso ministro do Interior (pasta de maior importância do governo, uma espécie de Ministério da Segurança Pública brasileiro) Manuel Valls e da prefeita de Lille, Martine Aubry. Ainda que eu apostasse já na época em uma troca de chefia a razão estava com um amigo militante socialista de La Rochelle que me confiou: “Jean-Marc Ayrault é muito fiel ao Presidente, é um bom cheval de bataille. Hollande está certo em mantê-lo”. Jean-Marc Ayrault, contudo, não resistiu ao grande choque da derrota do PS nas eleições municipais realizadas em 23 e 30 de março. Ao passo que em 2008, os socialistas foram os grandes vencedores dessas eleições, quatro anos mais tarde eles foram os grandes derrotados ao perderem cidades importantes como Niort, Reims, Saint-Étienne e Toulouse (a lista completa está no Le Monde) e, pior, em muitas cidades se tornaram a terceira força política graças ao surpreendente resultado da extrema-direita. Mesmo bastiões socialistas como no norte foram perdidos (ainda que Aubry tenha sido reeleita em Lille). Falando em bastiões, os comunistas também estão em choque com a derrota de Catherine Peyge (femme politique que tive o prazer de conhecer e por quem nutri uma grande simpatia) em Bobigny, cidade do subúrbio parisiense comandada pelos comunistas há um século!

Em face desse grande fracasso, François Hollande não teve outra escolha senão a de iniciar uma reformulação de sua equipe de governo, a começar por seu Primeiro Ministro muitos analistas políticos tendo indicado que a derrota socialista foi uma resposta à impopularidade do Presidente Hollande e não necessariamente um voto de desconfiança às administrações socialistas locais. De certa forma, a eleição local tomou ares de disputa nacional.

Quem é Manuel Valls?
Jovem, 51 anos, ministro do interior, deputado de Essone e prefeito de Évry e a partir de hoje Primeiro Ministro, Manuel Valls tem um bom currículo que o coloca em postos de sonhar com a presidência francesa já em 2017, o que preocupa muita gente a começar pelo Presidente em exercício François Hollande (ainda não se sabe se ele pretenderá brigar um segundo mandato). Manuel Valls já apareceu uma vez aqui no blog FrancePo quando das primárias do Partido Socialista nas quais ele terminou penúltimo colocado com 6% dos votos.

À época, Valls foi descrito como o plaidoyeur de uma política realista. Ainda que isso levasse os socialistas à se aproximarem dos centristas e mesmo da centro-direita, algo que preocupou muito os militantes socialistas à época mas, sejamos sinceros, após dois anos de presidência de François Hollande percebemos que esse é o menor medo dos socialistas agora. Vale ressaltar que Valls recebeu, em 2011, o apoio da influente publicação The Economist que o apresentou como o único portador dos valores da esquerda moderna em detrimento aos ‘dinossauros do PS francês’ (leia-se François Hollande e outros).

Expert do PS em questões de segurança pública, Valls foi nomeado por François Hollande quando de sua eleição ao Ministério do Interior em detrimento de ‘dinossauros do PS’ que sonhavam com o posto, como François Rebsamen que poderá agora entrar no governo. Em seu posto, Valls se envolveu em grandes polêmicas, mas se caracterizou como o campeão da opinião pública, sendo um dos políticos mais populares da França, algo raro em meio ao governo socialista acusado de não fazer nada para conter a crise.

É certo que Valls terá grandes desafios a sua frente e o primeiro deles será justamente negociar com o presidente os nomes de seus ministros. Personalidades socialistas batem a porta do governo como Ségolène Royal e Rebsamen, outros buscam mais espaço no governo como Stéphane Le Foll (agricultura), Pascal Lamy (cidade) e Najat Vallaud-Belkacem (direito das mulheres e porta voz do governo). Outros ainda lutam para manter seus postos, como Arnaud Montebourg (recuperação industrial) e Pierre Moscovici (economia e finanças). Valls e Hollande, agora juntos, terão que balancear as aspirações pessoais dos ministros com o recado das urnas. Algo nada fácil. Ainda, há algumas semanas os verdes declararam que não participariam de um governo com Valls em sua chefia. O bom resultado dos verdes nas eleições municipais (uma exceção na esquerda. Notável vitória em Grenoble contra os socialistas) aumentou ainda mais sua margem de manobra. É provável que Cecile Duflot (habitação) busque finalmente o ministério do meio ambiente. O atual ministro Philippe Martin, segundo o Nouvel Observateur, estaria preparado para deixar a pasta.

Para concluir, é possível que François Hollande tenha criado um belo problema para sua reeleição em 2017. Um desempenho positivo de Valls não recuperaria somente a pele do governo, mas também o lançaria como candidato natural à sucessão de Hollande ao passo que este estaria em condições de disputar um segundo mandato. O fato é que Hollande não teve outra escolha. Dentro os nomes à sucessão de Ayrault o de Valls era o que mais agradava: Hollande e Aubry não têm boas relações; Laurent Fabius (relações exteriores, político mais popular da França conforme recentes sondagens) já esteve no posto de Primeiro ministro na época de Mitterrand (1985-1986) e apresentou uma performance severamente criticada; Jean-Yves Le Drian (defesa) não encarna o espírito de mudança demandado pelos franceses; e Ayrault não teria nada de novo a oferecer. Prevaleceu a lógica e Manuel Valls foi nomeado para Matignon, o que pode decepcionar em especiais os militantes mais à esquerda do PS.

Oscar Berg
Montréal (Québec), 31/03/2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

Eleições no Québec colocam a questão da independência no centro do debate

O debate dos chefes de partido e candidatos ao posto de Primeiro Ministro reforçou a impressão dos últimos dias de que a questão da independência da província está no centro da campanha, uma posição que necessariamente não ajuda os partidos independentistas. Detalhes.


Da esquerda à direita, candidatos: Pauline Maurois (PQ), Philippe Couillard (PLQ), François Legault (CAQ) e Françoise David (QS)

Desde o início o mandato de FrancePo é de discutir a política francesa, mas vou me permitir desta vez fazer um pequeno détour ao Québec, região de língua francesa da América do Norte que já foi conhecida outrora pelo nome de Nova França. Tanto por esse passado em comum com a França como do fato de que me encontro instalado nessa maravilhosa região convido vocês a leitura deste post de impressões sobre a campanha eleitoral no Québec.

O Québec é uma sociedade distinta dentro do Canadá devido à sua língua e cultura. Se no passado os quebequenses já se diziam, a julgar as palavras do deputado Henri Bourassa, como os verdadeiros canadenses em uma época que os canadenses de língua inglesa continuavam ligados ao Império Inglês, a partir dos anos 50 o Québec mergulhou em um profundo despertar de sua identidade québécoise. Esse processo levou os quebequenses às urnas por duas oportunidades (em 1980 e 1995) para decidir sobre sua independência do restante do Canadá. Mesmo com dois reveses (o segundo por menos de 55 mil votos) o projeto de independência do Québec continua a contar com apoio popular. Historicamente é o Partido Quebequense (PQ) o principal responsável por levar adiante a idéia.  O partido não detém, contudo, o monopólio deste projeto no cenário político local, outras formações como a Option Nationale e Québec Solidaire (QS) surgem como plataformas independentistas.

Após um longo reinado de 9 anos do Partido Liberal do Québec (PLQ), porta voz dos federalistas na província, o PQ venceu as eleições de 2012 e Pauline Marois assumiu o posto de Primeira Ministra do Québec. Não conseguindo obter a maioria na Assembleia Nacional e não dispondo de alianças com outros grupos parlamentares o PQ formou um governo minoritário. Em 18 meses de governo, Marois se dedicou, em especial, ao controverso projeto de Carta de Valores Quebequenses[i], que tem como principais pontos: (1) proibir o uso de símbolos religiosos ostensivos, (2) neutralidade do pessoal da função pública e (3) tornar obrigatório que funcionários públicos trabalhem com o rosto descoberto (o alvo aqui é bem claro: mulheres de confissão muçulmana).   
 
É nesse cenário que a Primeira Ministra Pauline Marois dissolveu a Assembleia Nacional em 5 de março e decretou a realização de eleições gerais no dia 7 de abril.

Dentre os argumentos que Pauline Marois dispunha para respaldar sua decisão estava a recuperação da popularidade de seu governo após uma bem sucedida exposição midiática no trágico acidente de trem em Lac-Mégantic, que deixou 47 mortos. Ainda, sondagens publicadas entre os meses de janeiro e fevereiro colocavam o PQ em primeira posição nas intenções de voto, com possibilidade de obter a maioria necessária na Assembleia Nacional. O argumento final foi que a oposição bloqueava as ações do governo e votaria contra o orçamento que seria apresentado pelo governo do PQ.

Aparentemente a eleição caminhava em direção ao domínio das questões econômicas. Porém, praticamente 20 anos depois da realização do último referendo (dos quais, 10 anos com governos do PQ) a questão nacional foi trazida de volta ao centro do debate.
Já em sua declaração de candidatura, em 5 de março, o liberal Philippe Couillard, do qual diz se tratar de um dos mais fervorosos federalistas do Québec, declarou ir à luta contra um governo que odeia e que promoverá um novo referendo. As cartas já estavam postas. De lá até ontem, pouco adiantava se tentássemos discutir de economia, da exploração de petróleo na ilha de Anticosti ou de qualquer outro assunto, a questão da independência sempre surgia.

O debate

A apresentação dos candidatos no debate de ontem a noite deu o tom das discussões. Todos se referiram ao referendo. François Legault (CAQ, direita), que abriu as apresentações, criticou liberais e pequistas por trazerem este assunto à campanha. Couillard, afirmou que Marois promoverá um novo referendo se eleita enquanto que ele se ocuparia dos verdadeiros problemas do Québec, a saber: emprego, saúde e educação. Marois, por sua vez, afirmou que a eleição não se trata da questão referendária. Françoise David (QS, esquerda), que concluiu as apresentações, prometeu fazer do Québec um país para todos e se lança como opção ao domínio PQ x PLQ.

Ainda que a Rádio Canadá tenha reservado o último dos quatro blocos de trinta minutos para a questão nacional e identitária, não foi preciso esperar o final do debate para a independência do Québec ser abordada. Logo no primeiro bloco de perguntas, Couillard acusou o governo Marois de promover a divisão dos quebequenses com a Carta de Valores, de se engajar a realizar um novo referendo assim que eleita e se recusar de tratar dos verdadeiros problemas do Québec. Há semanas esse é o discurso de Couillard e de maneira geral ele está colando bem: ¾ dos quebequenses acreditam que se Marois for reeleita ela promoverá um novo referendo. A mesma proporção de quebequenses é contrária a realização de um referendo.

Neste cenário, não é surpresa que os liberais insistam tanto sobre a questão nacional. A idéia geral do partido é vender a idéia de que uma vitória do PQ levará a realização de um terceiro referendo. O bem sucedido slogan da campanha liberal diz muito sobre isso: “Juntos, tratamos dos verdadeiros problemas”. Ele dá conta de que os liberais querem que o Québec permaneça no Canadá e que as principais agendas do PQ, seja a Carta de Valores, seja o projeto de independência, não constituem reais necessidades do Québec no momento e que tratando disso o partido negligencia a economia e a criação de empregos.

Problemas do lado do PQ

O magnata da mídia, Pierre-Karl Péladeau candidato do PQ em Sain-Jérôme
Os pequistas estão em uma sinuca de bico. Quanto maior o espaço que a questão nacional ocupa no debate, menores se tornam as intenções de voto em Pauline Marois (que perdeu a liderança para os liberais nesta semana). Em todo caso, Marois não pode fugir deste debate, pois a julgar o artigo 1° do estatuto do partido, a independência do Québec é sua razão de ser. A independência do Québec não passa apenas por um referendo vitorioso, mas a construção de condições favoráveis para isso. Mas um discurso nessa linha realmente não seria capaz de motivar a base pequista, pois, fazendo uma analogia imperfeita, alguém já viu um partido socialista ganhar eleições ao promover antes da ruptura com a capitalismo a construção apenas das condições favoráveis?

Restringida por essas dificuldades, Marois adotou um discurso ni-ni quando de sua declaração de campanha. Nem se comprometia a realizar um referendo, nem afastava qualquer possibilidade. Não tendo funcionado bem, Marois adotou uma nova retórica no debate ontem à noite (ainda que obedecendo à mesma lógica do ­ni-ni). Questionada por Legault ela declarou: “Não realizarei o referendo [e nesse momento ela fez uma pausa, deixando todo o Québec inquieto] enquanto os quebequenses não estiverem preparados”. Ainda que sucessivamente atacada por seus rivais de direita, Couillard e Legault, analistas da Rádio-Canadá pouparam a líder pequista de críticas e afirmaram que esta é a via possível que ela adote. De um lado, procura-se tranqüilizar o Québec (e, não menos importante, o governo federal de Ottawa) de que a realização do referendo não é a prioridade, ainda que ele será realizado algum dia e, de outro lado, não desmotiva a base militante ao não esvaziar suas expectativas de realizar a independência do Québec. Em recente entrevista à Radio-Canadá, o ministro das Relações Internacionais do Québec, Jean-François Lisée, reafirmou que o partido pretende realizar  um novo referendo, sem estabelecer contudo um prazo.

Nos dias que precederam ao debate de ontem à noite, diversas pesquisas de intenção de voto foram divulgadas. Os números divergem, mas a tendência é a mesma: os liberais passaram a frente do PQ nas intenções de voto. É nítido que os liberais estão sendo bem sucedidos em sua tática eleitoral, o PQ por sua vez enfrenta dificuldades em lidar com o debate do referendo. Em uma pesquisa publicada no Journal de Montréal no primeiro dia de campanha, 34% dos quebequenses votariam pelo sim em um referendo sobre a independência da província. Esse número pode servir de limite aos votos que o PQ poderá obter no próximo dia 7 e, sem surpresa, as intenções de voto no PQ têm orbitado em torno desse porcentual. O sucesso dos liberais, contudo, se deve, sobretudo, a queda da coalizão de François Legault.

Os caquistas, como são chamados os partidários de Legault, foram a grande surpresa da eleição de 2012. Ao elegerem 19 deputados, foram em grande parte responsáveis da vitória do PQ, pois a maior parte dos deputados caquistas foram eleitos em antigas regiões detidas pelos liberais, que perderam 16 deputados na última eleição, abrindo a porta para um governo minoritário pequista. Atualmente, contudo a formação de François Legault encontra graves dificuldades e recebe apenas pouco mais de 10% das intenções de voto, dificilmente o partido elegerá mais de 10 deputados e devido sua proximidade ideológica a maior parte dos votos do CAQ tende a ir ao PLQ, o que explica a vantagem que este criou em relação ao PQ.

Qual futuro para o PQ?

Pauline Marois em campanha: dificuldades para balancear o projeto independentista com os desejos da opinião pública

Em 5 de março quando dissolveu a Assembleia Geral, Pauline Marois tomava como ponto de partida que seu partido se manteria no governo e teria ainda grandes chances de formar um governo majoritário. Tudo parecido ter sido joué d’avance e a filiação do magnata da mídia Pierre-Karl Péladeau ao PQ parecia ser a cereja no bolo. Mais que a primeira ministra Marois, foi Péladeau que incentivou o retorno do debate independentista entre os pequistas. 

A jogada parecia ótima: não apenas os pequistas obteriam a maioria que buscavam como ainda reascenderiam a flama independentista entre os quebequenses. Contudo, ela se revelou um grande passo em falso. 

Ao responder às provocações de Couillard, Péladeau não somente reascendeu o espírito independentista como também fez ressurgir a suspeita de que o PQ chamaria os quebequenses à um terceiro referendo. Como lembrou ontem o jornalista do Devoir, Michel David: uma derrota do PQ em abril terá as mesmas conseqüências dramáticas das derrotas dos referendos de 1980 e 1995. 

A chegada de Péladeau ao PQ também não pode ser relativizada. Uma eventual derrota do PQ daria lugar a eleições internas para substituir Pauline Marois e neste caso, Péladeau surgiria como um dos principais nomes à sucessão. O candidato vedete que no passado já proferiu pesadas críticas ao movimento sindicalista representaria uma profunda ruptura com a tradição social-democrata do PQ, a saída de muitos pequistas ao partido soberanista de esquerda Québec Solidaire surge como uma hipótese razoável. Com isso, mesmo que sobreviva a uma derrota em abril próximo, a ruptura será tão profunda que o PQ deixará de existir como tal.

Para reverter a tendência, Pauline Marois deverá segurar o vigor de alguns de seus partidários, como Péladeau, em discutir a questão nacional quebequense de forma a tranqüilizar os quebequenses. Deverá também explorar pontos fracos dos liberais, como a luta contra a corrupção, e mostrar que é a candidata melhor preparada para relançar a economia quebequense e estabelecer boas relações com o governo federal. O debate parece ter sido uma oportunidade perdida, pois a mídia estava de acordo hoje que nenhum candidato se destacou ontem à noite.

21 de março de 2014.
Montréal, Québec.
Oscar Augusto Berg

Abaixo, fotos das capas e reportagens sobre o debate dos dois jornais distribuídos gratuitamente na rede de transporte público de Montréal.

Capa do jornal Métro Montréal que destaca “Não haverá referendo”

Reportagem do Métro Montréal: “Referendo rouba a cena no debate”

Capa do jornal Montréal 24 heures: “Discussões acaloradas”

Reportagem do jornal Montréal 24 heures: “Pauline Marois mantém a dúvida sobre um referendo”






[i] Para quem se interessar pela Carta nada melhor que escutar Bernard Drainville, ministro responsável pelo projeto, explicá-la e tentar vender seu peixe nos seguintes endereços:  http://www.youtube.com/watch?v=vHn_KvnIb9g#t=75 e http://www.youtube.com/watch?v=_WhMF6VdRrU


sexta-feira, 15 de março de 2013

Habemus Austeritas


Milhares de manifestantes europeus se reúnem em Bruxelas para protestar contra a austeridade



Ontem, a declaração do cardeal francês Jean-Louis Tauran “habemus papum” fez a alegria de milhões de cristãos mundo afora e ecoou na lotada Praça de São Pedro.

Hoje, um pouco distante do Vaticano, mas ainda sob o mesmo continente, a expressão latina foi lembrada por milhares de manifestantes vindos dos 27 Estados Membros da União Europeia protestar no Parc du Centenaire em Bruxelas contra as políticas de austeridade implementadas pelos governos europeus. A secretária-geral da Federação Sindical belga FGTB anunciou “Habemus austeritas!” e ao longo de seu discurso anunciou o objetivo da manifestação pacífica que reuniu cerca de 15 000 manifestantes: “Nós estamos aqui para advertir o Conselho Europeu. Em cada Reunião de Cúpula, a situação dos trabalhadores é colocada em perigo.”

Nos dias 14 e 15, os 27 Estados Membros da UE se reúnem em Bruxelas para uma nova Cúpula do Conselho Europeu (Reunião dos chefes de Estado e de Governo dos membros da UE). Essa reunião é vista como crítica para os europeus, pois ela se insere em um contexto de impasse político na Itália após as últimas eleições legislativas, de agravamento da recessão nos países do sul e de início de campanha eleitoral na Alemanha que definirá o futuro político de Angela Merkel em setembro próximo.
Até a divulgação do resultado das eleições legislativas na Itália, que deram aos populistas Berlusconi e Grillo um número considerável de cadeiras no parlamento, a política de austeridade defendida pela chanceler alemã Angela Merkel foi implementada como receituário para a saída da crise. A passagem por um período de recessão seria inevitável para reequilibrar as finanças dos Estados e recuperar a competitividade de suas economias, o preço a pagar pelos excessos do passado. Contudo, esse receituário de A. Merkel começa a perder apoio em todo o continente, pois mesmo que seguido por países como Espanha, Grécia e Portugal ele não está os ajudando a enfrentar melhor a crise.

De acordo com resultados divulgados recentemente, a recessão em 2012 (queda de 3,2% do PIB) em Portugal é a pior desde 1975. Na Grécia, a queda do PIB nesse período foi ainda mais violenta - 6,2% - sendo o quinto ano consecutivo de recessão. A Espanha também se encontra em uma situação crítica, sobretudo, em função do forte desemprego no país, o que levou a classe dirigente espanhola a se afastar das obrigações fiscais acordadas junto aos parceiros europeus. De passagem por Bruxelas, segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Garcia-Margallo, advertiu os riscos de uma “austeridade excessiva” que “não vai contribuir na saída da recessão”.

Conforme podemos ver pela imagem abaixo, a situação europeia divide-se entre dois grupos: os bons e os maus alunos do receituário de A. Merkel, ou seja, aqueles que fazem esforços para reduzir o déficit fiscal e aqueles que não seguem a risca. Ainda assim, mesmo nos ditos “bons alunos”, como a Bélgica e até mesmo na própria Alemanha, a situação social não é muito superior em relação aos vizinhos europeus.

Previsão de Déficit Orçamentário para o ano 2013 nos países da Zona do Euro (em % do PIB)


Constata-se que a crise econômica europeia é também política, apesar de diversos manifestos como os realizados hoje em Bruxelas, não se impôs na Europa um receituário diferente daquele defendido por A. Merkel. Pelo contrário, os países europeus em pior situação fiscal recorrem a uma única ferramenta: a renegociação da data limite para reequilíbrio fiscal de 3% de déficit em relação do PIB. A esquerda europeia, oposição na maior parte dos países europeus atualmente, não convence os eleitores de sua capacidade de melhor solucionar a crise e a nova experiência socialista francesa, mesmo que não abrace a ideia da austeridade à moda de A. Merkel, falha em propor uma saída alternativa. Até o momento o principal recurso dos eleitores europeus, conforme a última eleição italiana, é o voto em políticos populistas que conspiram contra as instâncias comunitárias e propõe a saída da zona do euro como solução a crise, uma medida irresponsável mas que, em tempos de incapacidade da esquerda propor novas soluções e da direita tradicional defender com firmeza as ferramentas implementadas por ela, encontra um eleitorado cativo. Nesse cenário, nem mesmo uma possível derrota de A. Merkel para os Social-Democratas em setembro poderá provocar uma mudança importante na política europeia vis-à-vis do contencioso orçamentário.

Oscar Berg,
Le 14 mars 2013.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A França vira a página Sarkozy


Depois de 17 anos, um socialista volta ao Palácio do Élysée


Da noite de festa do 6 de maio a manhã de 7 de maio, a França amanheceu um novo país, na passagem destes dois dias a França não apenas escolheu um novo presidente, mas um novo destino. O que esteve em jogo na eleição presidencial de 2012 dividida em dois turnos equilibrados e muito disputados foi muito maior que a vaga ao qual destinava-se o pleito. Esteve em jogo, mais do que nunca, o futuro da França, sua escolha entre conformismo ou desafio; divisão ou conciliação e - em momentos de crise da dívida, algo que faz muito sentido - austeridade ou crescimento. No momento em que François Hollande ascende ao topo do Estado Francês, a definição dos desafios acima torna a transição do conservador Sarkozy ao socialista Hollande não apenas uma simples alternância de poder mas uma verdadeira mudança, pois como nos dizia o slogan de François Hollande « A mudança é agora ».

Eu recebo os resultados da eleição presidencial francesa de 2012 mais como um grito de esperança que um grito de desconfiança no presidente Sarkozy. François Hollande conseguiu ao longo do período entre sua candidatura às primárias socialistas e ia vitória no último domingo aquilo que nenhum outro socialista francês havia conseguido desde Mitterrand em 1988: Suscitar a esperança. Certamente a crítica ao saldo do governo Sarkozy-Fillon passou pelo discurso de Hollande, mas não foi a desconfiança dos franceses em relação ao agora ex-presidente que fez o socialista vencer, no entanto, foi a capacidade de suscitar em seu eleitorado aquilo que ele mesmo chamou de « Rêve Français », ou seja, o ideal republicano em que é tornado possível a uma geração viver melhor que a sua predecessora.

Eu recebo o resultado da eleição presidencial francesa de 2012 como uma chance para a Europa. A crise européia atual é vista como uma crise da dívida pública, no entanto, antes disso, a crise européia é uma crise social e política ambas resguardando relações de causa consequência entre si. Social, pois a Europa vive a crise do modelo que criou e defendeu, aquele do bem-estar social. Política, pois esta crise é uma consequência do marasmo da social-democracia européia, que há anos não consegue traduzir as transformações do Sistema Internacional em reformas que continuem a deixar competitivo o sistema produtivo europeu e que deem continuidade ao welfare state como organização estatal de excelência de igualdade e justiça. A combinação das duas crises acima é o desemprego em massa das populações europeias e a desindustrialização contínua  do continente, o que por final emerge um novo risco à democracia e integridade do bloco da UE: o crescimento da extrema-direita.

Eleito em 06 de maio de 2012, com 51,7% dos votos, François Hollande, do Partido Socialista terá a sua frente grandes desafios a corresponder e promessas a cumprir. Sabemos de antemão que caso Hollande venha a falhar em algum dos dois pontos acima, a social-democracia européia terá perdido a chance que lhe foi conferida no último domingo de reerguer-se, e o voto contestatório da extrema-direita baterá a porta dos progressistas. O papel de Hollande na história portanto, transcende a eleição do último domingo e as fronteiras do Hexágono francês e apresenta-se – como ele mesmo declarou em seu discurso da vitória em seu reduto eleitoral, a pequena Tulle – como um alívio, uma esperança à Europa, um ponto final a ideia de que a austeridade é uma fatalidade.






quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Reação de FrancePo à publicação de VEJA - O Dilema de Hollande



     Na sua última edição (n° 2254, ano 35, n°5, dia 1° de fevereiro de 2012), a revista VEJA, revista semanal de maior circulação e repercussão do Brasil, agitou seus tambores e produziu sua primeira reportagem sobre a eleição presidencial francesa, há menos de 3 meses do primeiro turno. Face a afirmações imprecisas e incorretas, e a manipulação para que o leitor chegue a uma conclusão não-óbvia (e falsa), FrancePo torna público seu descontentamento com a falta de imparcialidade da principal publicação do país; acompanhe abaixo item a item o que VEJA publicou e o que é a verdade:

A) Uma imagem vale por mil palavras: Preste atenção nas fotos, a primeira mostra o candidato socialista (PS) François Hollande (que pelo cenário provavelmente tenha sido tirado durante o comício de Bourget - subúrbio parisiense - que reuniu 25 simpatizantes do candidato do Partido Socialista e do Partido Radical da Esquerda), a outra mostra o presidente francês Nicolas Sarkozym da direitista UMP (União por um movimento popular), provavelmente em mais um encontre de cúpula da UE, que não chega a propor soluções a crise da zona do euro.

Agora, analise a foto escolhida por VEJA para mostrar pela primeira vez ao Brasil o candidato socialista: a foto dá a impressão de ele estar sendo bombardeado por jornalistas com perguntas sobre a crise da zona do euro, dado ao aparente nervosismo de Hollande que a foto conseguiu captar; suas mãos abertas e a testa enrugada dão mostras que ele não está conseguindo convencer ninguém e nem a ele mesmo, tanto as mãos como a testa evidenciam também a incerteza, o vazio, a desconfiança. Os olhos arregalados não indicam que François tenha certeza daquilo que está falando, e que nem ele veja uma saída para a crise. As narinas mais abertas que o normal evidenciam que falta ar à François para continuar no debate, não conseguindo nem ele respirar face a inúmeras perguntas sobre a crise, a perda do triplo A, desemprego em massa, etc. A boca desta forma, aparece como uma cereja no bolo, dando a entender o tanto atrapalhado que ele está, contando mais mentiras sobre a situação da França. Segunda parte do exercício, como uma imagem vale por mil palavras, veja o vídeo abaixo do encerramento do discurso de François em Bourget e tire suas próprias conclusões. Provavelmente você perceberá que o que não falta ali é determinação, esperança, confiança e certeza. 



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     Agora, vamos a segunda foto: e que surpresa, ela mostra um presidente forte, conciso. Seus punhos fechados mostram a força com a qual a França vem enfrentando a crise, as pálpebras milimetricamente arregaladas evidenciam a determinação do Presidente em lutas pelo melhor dos franceses. Os olhos, mirando um lugar fixo, são uma prova da determinação e perspicaz de Sarkozy, o lugar que ele mira é a saída da Europa da crise, que ele e Angela Merkel juntos alcançarão. Mais uma vez vamos para a segunda parte do exercício, veja na imagem abaixo alguns dados do quinquenato de Nicolas Sarkozy.




Destaques:
*612 bilhões de euros em dívidas suplementares desde o início do mandato;
*Menos 750 mil empregos na indústria em 10 anos de governo da direita;
*1 milhão de novos desempregados em cinco anos;
*330 mil novos pobres em cinco anos;
*Nenhum excedente comercial em 10 anos de governo de direita;
*Déficit comercial de 75 bilhões de euros em 2011, recorde absoluto;
*Aumento de 107% do preço dos imóveis;
*80 mil postos de empregos suprimidos na Educação pública;
*24 novas taxas e 75 bilhões de euros em nichos fiscais.

Conclusão: VEJA utilizou-se do recurso da imagem para passar uma imagem falsa, e até invertida, dos dois candidatos. Procurou descreditar o determinado socialista e atenuar o fracasso da direita há dez anos no poder e de Sarkozy há cinco anos no Élysée.

B) Texto: VEJA x Realidade

"François Hollande era tido como o picolé de chuchu da disputa pela presidência da França"
Eu acompanho a mídia francesa (de Figaro a Libération, Le Parisien a Nouvel Observateur) e não vi em nenhum lugar alguém acusar Hollande de picolé de chuchu, nem mesmo nas páginas do L'Humanité, o jornal mantido pelo Partido Comunista. Aliás, o único lugar onde eu vi Hollande ser chamado de chuchu foi nas páginas de VEJA em 27/07/2011. A única crítica que havia em relação a Hollande era que ele não estava suficientemente à esquerda (uma crítica interna no PS), que caiu por terra com o comício de Bourget (levado à alma da esquerda).

"Ele só se tornou candidato do Partido Socialista depois que o preferido, o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) Dominique Strauss-Kahn, foi preso"
Um pouco de respeito e meritocracia à François Hollande caberia bem para a VEJA. François Hollande anunciou sua candidatura às Primárias Socialistas em 31/03/2011: "[...]j'ai décidé de présenter ma candidature à l'élection présidentielle à travers la primaire du Parti Socialiste"1 ("Eu decidi apresentar minha candidatura à eleição presidencial através as primárias do PS"), antes disso ainda, François já havia falado de sua vontade de concorrer em 2010 para a rádio RTL2 e em 23/03/2011  em entrevista ao jornal Échos que se ele se candidatasse às primárias seria para vencê-las. Sobre o mérito à vitória de Hollande, gostaria de ressaltar um outro ponto: após DSK sair da disputa, a candidata favorita era Martine Aubry, primeira-secretária do PS, que havia acordado com DSK que na impossibilidade de um concorrer o outro concorreria, disto concluímos que Hollande correu sempre por fora na disputa, uma vez que não é ligado a corrente dominante do PS. Outro fato que merece ser esclarecido: Dominique Strauss-Kahn já havia concorrido às primárias do PS em outra ocasião (2007) na qual perdeu a indicação para Ségolène Royal.Portanto, o que garantia que desta vez o chefão do FMI ganharia?

"[...] Nicolas Sarkozy, que tentará a reeleição no próximo dia 22 de abril" 
Por mais óbvia que possa parecer a informação, ela está errada: Nicolas Sarkozy ainda não anunciou sua candidatura, e há setores de sua UMP que defendem que seu candidato seja o ministro de relações exteriores e assuntos europeus, Alain Juppé (ligado ao ex-presidente Jacques Chirrac, do qual Nicolas Sarkozy é desafeto) ou ainda o atual Primeiro Ministro, François Fillon, ambos têm índices de aprovação mais positivos que Sarkozy. Jean-François Copé, número 1 da UMP é um nome que corre por fora.

"segundo uma sondagem do instituto francês CSA, 31% dos eleitores pretendem votar no socialista, e 25% no presidente (na pesquisa anterior, Hollande ganhava por 29% contra 26%). Assustado com o avanço do adversário, dois dias depois Sarkozy apelou para a tática do tudo ou nada"
Mais que o leitor de VEJA, o leitor de FrancePo vem acompanhando as sondagens desde o processo de primárias do Partido Socialista, as Primaires Citoyennes, e sabe que François Hollande já esteve muito acima da casa dos 30% e conheceu nos últimos meses uma ligeira queda, a recente alta de Hollande deu-se com o retorno a pleno vapor da campanha (comício de Bourget), ou seja, a recente alta foi um retorno a um padrão que vinha sendo repetido nos últimos meses, o socialista acima dos 30%. Acompanhe na tabela abaixo, as últimas pesquisas do instituto CSA:



 2011
 2012
 Jun
Jul 
 Ago
 Set
 Out*
 Nov
 Dez
 Jan
 Jan**
 F. Hollande
 27
 26
 27
 28
 35
 34
 32
 29
 31
 N. Sarkozy
 23
 26
 26
 24
 25
 27
 26
 26
 25

* Primárias do Partido Socialista/Partido Radical de Esquerda
**Sondagem após o Comício de Bourget

Assustado, é a última coisa que Sarkozy está, ele sabe muito bem que com 25% dos votos no primeiro turno pode muito bem sair vitorioso no segundo, isto depende de duas coisas articuladas uma à outra:

1) Uma pequena quantidade de votos das outras candidaturas de esquerda no primeiro turno (Jean-Luc Mélenchon, Partido da Esquerda/Partido Comunista; Eva Joly, Partido Verde; outras candidaturas menores: trotkistas, altermondistas, e outros) não daria um grande impulso a candidatura socialista no segundo turno, correndo o risco de repetir a eleição de 1995 na qual o socialista Lionel Jospin venceu o primeiro turno mas sem a força de outras candidaturas de esquerda perdeu o segundo turno para Jacques Chirac que ganhou o apoio do terceiro colocado, o centrista Édouard Balladur.

2) Votação expressiva das diversas candidaturas de direita, Dominique de Villepin, Christine Boutin, Frédéric Nihous, Nicolas Dupon-Aignan e Hervé Morin (creditadas entre 0,5 e 1,0% cada, o que pode render 5% à Sarkozy), do candidato do centro, François Bayrou (MoDem - 11% na última pesquisa CSA) e de extrema-direita Marine le Pen (FN - 17% na última pesquisa CSA) que tendem a ceder mais votos a Sarkozy que a Hollande no segundo turno.

Neste sentido, a declaração de Sarkozy de que se ele não ganhasse as eleições em maio ele abandonaria a vida política foi um golpe eleitoral. Baixo, diga-se de passagem.

C) Revendo conceitos

"O dilema Hollande"
Dilema: Situação embaraçosa com duas saídas difíceis ou penosas.
Respeitando o significado acima, trazido do dicionário, consigo me lembrar do Dilema do Prisioneiro, do Dilema de Segurança (das aulas de Introdução às Relações Internacionais) ou ainda do Dilema de Tecnologia (das aulas de teoria). Não consigo enxergar nenhum dilema por trás de candidatar-se, apresentar um projeto e debatê-lo. Em tempo, o título deve ser um resumo do conteúdo, assim não encontrei em nenhum lugar do texto que explique o que seria "o Dilema Hollande".

"O favorito à Presidência Francesa quer taxar os ricos para reduzir a dívida pública, mas só populismo não resolve"
VEJA precisa rever urgentemente seu conceito de populismo.

CONCLUSÃO

     Ter um engajamento internacionalista, o que diferente de apenas ser um internacionalista - profissional de Relações Internacionais - significa lutar para que a solidariedade, democracia, liberdades e justiça sejam desfrutadas a nível mundial. Hoje, identifico que para alcançarmos isto, somado a igualdade em escala internacional, precisamos de políticos e políticas engajados nestas lutas, por isto do meu carinho e engajamento pela Internacional Socialista, pelo Partido Socialista Francês e sobretudo a François Hollande. Por mais bela que possa parecer esta ideia de igualdade a nível internacional, tenho plena convicção que existem muitos dispositivos com o objetivo de impedi-la e um deles é a mídia e seu poder de manipulação e condução da conscientização que ela exerce.
     Antes que qualquer um possa lembrar que temos liberdade de expressão, que a mídia (felizmente) tem liberdade para falar sobre o que quiser, e que nós, leitores, temos plena liberdade de escolhermos o que queremos ler, e nesse sentido, VEJA dispõe de liberdade para publicar o que bem entender, procuro lembrar que a liberdade para a mídia, não é um fim, apenas um começo. Esta liberdade deve sr sempre seguida de imparcialidade, justiça e verdade, pois estes sim são meios-fim. Assim, lamento o exercício de manipulação que VEJA fez com a reportagem "O dilema de Hollande" ao passar uma imagem falsa e imprecisa da situação que a França vive hoje. Gostaria de ressaltar a gravidade disto, uma vez que a reportagem que trouxe muito mais uma opinião do que uma informação, ocorre exatamente na primeira reportagem da publicação mais importante do Brasil dedicada às eleições francesas, ou seja, bem no momento em que milhões de brasileiros tem o primeiro contato com François Hollande. Tudo isto é lamentável.

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Bônus

     Pelo menos a cada 5 ou 7 anos, VEJA agita seus tambores para passar uma imagem imprecisa do Socialismo Francês, que já foi inclusive objeto de admiração e análise de nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em "América Latina e o Novo Socialismo Francês (1982). Vamos rever abaixo algumas reportagens de VEJA sobre o PS:  

*2011 - Primárias Socialistas: Ao invés de ressaltar o caráter democrático e inovador das primárias do PS, VEJA preferiu continuar acusando DSK de estupro e seguir a linha do jornalismo de revista de fofocas. Na única reportagem dedicada às primárias, VEJA chamou o então candidato François Hollande de chuchu. Para uma revista que defendeu Aécio Neves em sua capa em semana eleitoral, chamar François Hollande de insosso é falta de espelho nos escritórios do editorial.


Como se diz chuchu com sotaque de Minas? Insosso quem? Hollande em quem VEJA bate, ou o sem graça Aécio Neves, menina dos olhos de VEJA.



*2007 - O assunto principal da eleição era a imigração e a estagnação que a França se encontrava com um Presidente de direita desde 1995 no poder, mas VEJA preferiu focar no 'asistencialismo' de Ségolène Royal. VEJA e a maioria dos franceses aceitou a ideia de trabalhar mais para ganhar mais de Sarkozy, hoje com o desemprego nas alturas, trabalhar se tornou uma grande dificuldade.








*1978 - Para o alívio de VEJA, o realismo-socialista triunfante nas letras e nas artes não ocorreu, demoraria mais 3 anos até a vitória de Mitterrand. Com isso graças a sabedoria da direita triunfante, nem Pierre Cardin, nem Yvez Saint-Laurent foram enviados para campos de reeducação. Apenas para lembrar: nada disto ocorreu com a vitória dos socialista em maio de 1981 e mais: foram os socialistas que aboliram a pena de morte na França neste mesmo ano.



Da próxima vez que VEJA se manifestar sobre as eleições franceses fique atento ;)


Brasil, 31/01/2012
Oscar Berg