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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A França abalada

        
Manifestação na Praça da República, em Paris

      Passadas mais de 24 horas do atentado terrorista na redação do Charlie Hebdo se os franceses continuam em um perfeito estado de união nacional, os partidos políticos, por sua vez, tentam canalizar o sentimento de comoção em ganhos eleitorais. Nada de assustador para um país que está, desde o primeiro semestre de 2014, precipitadamente mergulhado na campanha da eleição presidencial que ocorrerá somente em 2017. Os movimentos dos partidos franceses dizem muito sobre as estratégias que serão mise en place na próxima campanha presidencial: de um lado teremos a Frente Nacional (FN) que poderá encontrar na situação atual da França um contexto perfeito para avançar seu discurso anti-imigrante, islã ou União Europeia, a tríade preferida de Marine Le Pen e se papa Jean-Marie. De outro lado, temos tanto o Partido Socialista (PS) como a União por um Movimento Popular (UMP) que perceberam desde já que caberá a apenas um deles confrontar Le Pen no segundo turno da presidencial de 2017, a exemplo do que ocorreu em 2002 quando Chirac contou com o apoio dos socialistas eliminados no primeiro turno contra a FN, e, portanto, devem dar mostras de suas capacidades de falar em nome da união dos franceses republicanos.
           
            As explicações da precipitação dos franceses em uma campanha eleitoral que deveria começar apenas em dois anos se encontram na própria situação política local. De um lado, François Hollande é abertamente contestado, contudo, de outro lado, a oposição oficial ao poder socialista, representada pela UMP, não inspira nenhuma confiança junto ao eleitorado francês. Acredita-se que apesar da agravação da situação econômica e social sob a presidência de Hollande, Nicolas Sarkozy não faria melhor, tendo sido ele o criador de muitos dos impasses que assolam hoje a França. É preciso dizer igualmente que a UMP está completamente desestabilizada em função de graves problemas financeiros e da disputa interna pelo poder (longe de ter encontrado seu capítulo final na recente eleição de Sarkozy a presidência do partido). Nesse cenário de crise das famílias políticas que representam desde o advento da quinta República – a República Gaullista – em 1958 os polos de poder, percebemos uma reorganização do tabuleiro político com a FN se tornando o “primeiro partido francês”, slogan cunhado por Marine Le Pen após a vitória de seu partido nas eleições europeias de maio de 2014.

Para Marine Le Pen, sua Frente Nacional é o primeiro partido da França.
Os acontecimentos de quarta-feira podem ajudar a extrema-direita francesa?


              A França se já não suficientemente abalada pelas consequências da barbárie do ataque terrorista de quarta-feira vive uma grave crise político-institucional cujo sinal flagrante é a precipitação do debate em torno da sucessão presidencial. Na conjugação destes dois cenários percebemos as condições para que se opere o reordenamento deflagrado pelos sucessivos sucessos da Frente Nacional, de onde se explicaria a excitação dos partidos políticos franceses. Dentre as possibilidades que se oferecem aos franceses, destaca-se, aquela da FN tornar-se, de fato, o maior partido do país, colocando sua candidata no segundo turno da eleição presidencial com chances de vitória; e a instauração de uma frente republicana com a união da direita e da esquerda parlamentar no segundo turno da eleição presidencial de 2017 para conter a escalada da extrema-direita. A escolha dos franceses dirá muito sobre a reflexão em torno do ataque de ontem e da resposta a ser dada ao terrorismo. De um lado há a proposta de combate ao fundamentalismo com mais intolerância e, de outro, uma defesa dos valores fundamentais da França, como a laicidade, alvo dos terroristas.

            Patrick Besson, em sua coluna na revista Le Point de 12 de junho de 2014 afirmou que “certamente Hollande será reeleito daqui três anos”. O jornalista imagina um cenário com Marine Le Pen com 24% dos votos no primeiro turno, Hollande com 22% ou 23% e Nicolas Sarkozy com 14% ou 15%. É evidente que a estratégia traçada por Hollande em 2012 (Reformas – Gestão – Resultados) não tem encontrado sucesso: a amplitude das reformas é criticada à esquerda e à direita; a sua gestão foi abalada pela explosão de escândalos envolvendo, dentre outros, a vida privada de François Hollande; e, finalmente, os resultados dificilmente serão atingidos, o prometido déficit de 3% em 2015, notadamente, não poderá ser alcançado e os franceses deverão esperar mais para o equilíbrio orçamentário. Contudo, Hollande ainda pode esperar ser reeleito. Muito mais que a recente reconciliação com a base socialista, uma resposta adequada aos trágicos acontecimentos que abalam a França poderá lançar o presidente como único capaz de falar em nome de todos os franceses, um papel essencial para vencer sob o nome dos republicanos, a extrema-direita fascista em 2017. Como previu Besson, todos estarão com Hollande para salvar, uma vez mais, a República.

Oscar Berg,

08/01/2015

terça-feira, 30 de abril de 2013

FRANCO-FESTA: Comunidade francesa se reúne para festejar o 1º de maio






Pela primeira vez, quatro associações francesas (Associação de Franceses do Exterior/ADFE, Associação de Pais de Alunos do Liceu Pasteur/APE, São Paulo Accueil/SPA e União dos Franceses do Exterior/UFE) decidiram de se reunir para organizar um evento em comum: a Franco Festa. A intenção dessas associações é de poder reunir em um mesmo dia o maior número possível de franceses para um momento de confraternização e também para recolher fundos para associações caritativas francesas.
A Franco Festa será realizada no feriado de 1º de maio de 2013, no espaço Dom Pedro, entre o Jardim Botânico e o Parque Zoológico da cidade de São Paulo. Um local próprio para o convívio em família em meio ao parque ecológico e a Mata Atlântida que fará esquecer o concreto da cidade!
A Franco Festa promete ser um evento inesquecível. As diversas associações que participam do evento irão disponibilizar diversas opções de entretenimento, como música e prática de esportes e até mesmo circo! Tudo foi planejado para agradar à toda família, desde os pequenos aos adultos. Uma feira beneficente (quermesse) também será organizada.

Piquenique

A proposta da Franco Festa é organizar um grande piquenique coletivo à francesa. A fórmula proposta é simples: cada um é responsável de trazer seu cesto. Será possível completar o piquenique com churrasco, bebidas, crepes e bolos que serão comercializados pelas associações.
O principal objetivo do evento, segundo seus organizadores, é apresentar o universo das associações francesas de São Paulo e dar-lhe apoio. Venha explorar os stands que permitirão apresentar e promover o trabalho feito por elas no cotidiano. Será igualmente uma bela ocasião para levantar fundos para essas organizações.
Diversos parceiros (Mercure, Ibis, Telhanorte, Novotel, BNP, Partage Seguros, Gorioux-Faro, APE, Windeio Green Future, os escritórios Goulène Advogados e Chenut Oliveira Santiago) decidiram apoiar essa iniciativa e tornam possível que a Franco Festa seja organizada nas melhores condições.
A Franco Festa é, desde já, um sucesso anunciado, pois mais de 500 pessoas já confirmaram sua presença. Há alguns dias do evento o entusiasmo é grande tanto do lado dos organizadores, como que da comunidade francesa.

Informações práticas:
Data: 1º de Maio de 2013
Horário: de 10h a 18h
Onde: Espaço Dom Pedro (Avenida Miguel Estéfano, 4241, Água Funda, São Paulo – SP CEP 04301-905)
Tarifa: R$ 25,00 (Gratuito para os menores de 10 anos e para os maiores de 75 anos). Não será possível comprar ingressos no dia do evento).

As informações são do Jornal Francófono ‘Le Petit Journal’.
http://www.lepetitjournal.com/sao-paulo/accueil-sao-paulo/actualite/149035-evenement-a-sao-paulo-place-a-la-premiere-franco-festa

domingo, 28 de outubro de 2012

Serra, seja Jospin!



21 de abril de 2002. O socialista francês Lionel Jospin reúne sua equipe de campanha e seus militantes para fazer seu discurso após o fracasso do PS na eleição presidencial francesa daquele ano na qual ele, pela segunda vez, representava os socialistas. Jospin não esconde seu desapontamento com os resultados, afinal ele era primeiro-ministro até então e ainda por cima bem avaliado, toma a responsabilidade pela derrota e por final, se retira da vida política francesa.

28 de outubro de 2012. O tucano José Serra reúne sua equipe de campanha e seus militantes para discursar após a terceira derrota em eleições majoritárias nesta década. Após ter sido duas vezes derrotado na corrida presidencial, Serra desta vez perde para o novato Fernando Haddad na disputa da prefeitura paulistana. Serra discursa em consonância ao seu pronunciamento de 2010 (na sequência da derrota à também novata Dilma Rousseff): não se responsabiliza pela derrota, nem a lamenta profundamente, pelo contrário. Asfixiado, disse que saíra da eleição com ainda mais energia, mas que sinceramente não sabia no que empregá-la. Engana a si mesmo, e só.

Esse texto procura ajudar Serra a encontrar um bom emprego para tanta energia: largar a toalha e abandonar a política, uma tarefa que aliás, requer tamanha energia e que já devia ter sido tomada.

Se a derrota une José Serra a Lionel Jospin, a reação face a ela, os separa. Um reage respeitando a decisão dos eleitores, afinal democrática; outro não a aceita. Retirando-se da política, este avança; Enganado-se na posição de líder, o outro afunda.

A saída de Lionel Jospin não levou automaticamente os socialistas de volta ao poder na França, levaram, ao contrário, 10 anos mais para isso acontecer. Em 10 anos, Jospin tendo saído da vida política francesa e aberto mão da liderança dos socialistas, o PS se reestruturou, adotou novas políticas e abriu espaço para novos nomes. Em 2007 não suficiente, ainda teve de engolir outra dura derrota na presidencial, mas em 2012 deu a volta por cima, e com François Hollande – um nome desligado da era Jospin – retomou o Eliseu.

A esperada (achei ‘provável’ uma palavra muito forte em se tratando de José Serra) saída de Serra também não fará do PSDB vitorioso nas próximas eleições. Muita coisa precisa ser reconstruída. Certamente ainda há Aécio Neves, mas desde FHC o PSDB não faz que queimar seus grandes nomes (Serra de outrora, Alckimin e Aécio), enquanto que sem grandes nomes o PT se fortalece. No entanto, a saída de Serra é necessária: só assim, questões obscuras como o apoio de Silas Malafaia poderá ser revisto e só assim igualmente o partido estará descansado de ter que encontrar um novo cargo para Serra após cada derrota premeditada. Até o povo tucano gostaria que Serra surpreendesse à la Jospin.

Desde 2002, quando deixou a vida política, Lionel Jospin tem se dedicado a outras tarefas: escreve, constantemente é convidado a se exprimir em cadeias de rádio e televisão nacionais, participa dos grandes congressos do PS. Recuperou o devido respeito que qualquer derrota coloca em risco. Após o desmoralizante governo Sarkozy, o novo presidente François Hollande chamou Lionel Jospin para liderar uma comissão responsável justamente por moralizar a vida política. Honra recuperada! Exemplo (apesar de eu desconhecer  José Serra escritor) a ser seguido, ex-tudo Serra!

Em 2010, Serra disse que chegou ao final da campanha – que trouxera mais uma derrota – com a mesma energia com a qual a começara. Em 2012, repetiu – praticamente de forma idêntica – a frase. Errou e repetiu no erro. O PSDB afunda.

O PSDB afunda, resistirá por mais tempo que se esperava provavelmente (ainda tem cartas a queimar e eventualmente dá sorte em ressuscitar um tipo como Artur Virgílio ou ACM Neto). Mas, certamente desaparecerá. A derrota em São Paulo agrava ainda mais a situação e o PSDB começa o projeto 2014 não disputando com Dilma Rousseff o Palácio do Planalto, mas com Eduardo Campos a preferência dos analistas como maior desafiante ao poder petista.

Se o PSDB está nesta situação, muito se deve a Serra: duas derrotas presidenciais não podem ser relativizadas. E se Serra errou, é porque não quis ser Jospin: colocou sempre sua fixação em entrar para história como presidente acima do interesse de seu partido, de “seu povo”, e não desistiu; sequer mudou e apenas seguiu irresponsavelmente em frente. Cego, não olhou para o lado e não percebeu que pode-se entrar na história por vários motivos, como fez Jospin, que renunciou ao sonho e abriu espaço para o novo. Serra sufocou o PSDB, ao não dar espaço para o novo. Serra sufocou a democracia, ao se alinhar com as ideias mais conservadoras e reacionárias deste país transferidas pelo discurso fundamentalista evangélico. Serra sufocou a análise crítica, ao não reconhecer sua responsabilidade pela derrota. Serra sufocou a si mesmo. E morreu. No discurso da morte acenou com um “até logo” (2010), quando todos gritavam: Serra, seja Lionel Jospin!

Eu gostaria de ver José Serra ter a coragem de Lionel Jospin.
Ódio a Serra? Não, simplesmente muito carinho pela nossa frágil democracia, que tanto terá uma oposição fracassada, tanto terá um governo irresponsável. Serra, seja Jospin!
Amor a Serra? Tampouco, se aviso é porque simplesmente penso que Serra ainda não tenha tomado conta que a hora de se retirar da política passou. Prezo pela integridade da política: Serra, seja Jospin!

Serra, seja Jospin! Dê Adeus!


Links discursos relacionados:


Pronunciamento Jospin 2002 – Abandono da vida política (em francês) http://www.youtube.com/watch?v=Ux11q2LX4Ms


Oscar Berg,
Brésil, le 28 Octobre 2012


terça-feira, 26 de junho de 2012

Evento FrancePo




Na próxima quarta-feira (27/06) FrancePo convida todos seus companheiros a participar da Palestra "Le Rêve Français - Qui est François Hollande - le nouveau Président français, et quelles sont ses idées pour la France et pour le Monde?" ("O sonho francês - Quem é François Hollande - novo presidente francês, e quais são suas idéias para a France e para o Mundo?") que será realizada com o apoio do Unidiomas nas dependências do Unilasalle Canoas - Centro Universitário La Salle Canoas.

Na palestra serão abordadas as seguintes questões:

* Quem é François Hollande, o novo presidente eleito?

* Qual foi o caminho percorrido por ele até chegar ao Palácio do Eliseu?

* Quais são as principais ideias de François Hollande para a França e para o mundo?

* Quais estão sendo os primeiros passos dados por François Hollande e sua equipe?

*Quais desafios para o novo presidente?

Para abordar o tema de uma forma diferente, a palestra será realizada inteiramente em francês e contará com os alunos do curso de língua francesa do Unidiomas para realizar a interpretação e tradução, possibilitando que interessados no assunto que não dominem a língua do país do Hexágono possam participar também!

Conto com a presença de todos,
para mim será muito importante!

Saudações,
Oscar A Berg

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Reação de FrancePo à publicação de VEJA - O Dilema de Hollande



     Na sua última edição (n° 2254, ano 35, n°5, dia 1° de fevereiro de 2012), a revista VEJA, revista semanal de maior circulação e repercussão do Brasil, agitou seus tambores e produziu sua primeira reportagem sobre a eleição presidencial francesa, há menos de 3 meses do primeiro turno. Face a afirmações imprecisas e incorretas, e a manipulação para que o leitor chegue a uma conclusão não-óbvia (e falsa), FrancePo torna público seu descontentamento com a falta de imparcialidade da principal publicação do país; acompanhe abaixo item a item o que VEJA publicou e o que é a verdade:

A) Uma imagem vale por mil palavras: Preste atenção nas fotos, a primeira mostra o candidato socialista (PS) François Hollande (que pelo cenário provavelmente tenha sido tirado durante o comício de Bourget - subúrbio parisiense - que reuniu 25 simpatizantes do candidato do Partido Socialista e do Partido Radical da Esquerda), a outra mostra o presidente francês Nicolas Sarkozym da direitista UMP (União por um movimento popular), provavelmente em mais um encontre de cúpula da UE, que não chega a propor soluções a crise da zona do euro.

Agora, analise a foto escolhida por VEJA para mostrar pela primeira vez ao Brasil o candidato socialista: a foto dá a impressão de ele estar sendo bombardeado por jornalistas com perguntas sobre a crise da zona do euro, dado ao aparente nervosismo de Hollande que a foto conseguiu captar; suas mãos abertas e a testa enrugada dão mostras que ele não está conseguindo convencer ninguém e nem a ele mesmo, tanto as mãos como a testa evidenciam também a incerteza, o vazio, a desconfiança. Os olhos arregalados não indicam que François tenha certeza daquilo que está falando, e que nem ele veja uma saída para a crise. As narinas mais abertas que o normal evidenciam que falta ar à François para continuar no debate, não conseguindo nem ele respirar face a inúmeras perguntas sobre a crise, a perda do triplo A, desemprego em massa, etc. A boca desta forma, aparece como uma cereja no bolo, dando a entender o tanto atrapalhado que ele está, contando mais mentiras sobre a situação da França. Segunda parte do exercício, como uma imagem vale por mil palavras, veja o vídeo abaixo do encerramento do discurso de François em Bourget e tire suas próprias conclusões. Provavelmente você perceberá que o que não falta ali é determinação, esperança, confiança e certeza. 



_________________

     Agora, vamos a segunda foto: e que surpresa, ela mostra um presidente forte, conciso. Seus punhos fechados mostram a força com a qual a França vem enfrentando a crise, as pálpebras milimetricamente arregaladas evidenciam a determinação do Presidente em lutas pelo melhor dos franceses. Os olhos, mirando um lugar fixo, são uma prova da determinação e perspicaz de Sarkozy, o lugar que ele mira é a saída da Europa da crise, que ele e Angela Merkel juntos alcançarão. Mais uma vez vamos para a segunda parte do exercício, veja na imagem abaixo alguns dados do quinquenato de Nicolas Sarkozy.




Destaques:
*612 bilhões de euros em dívidas suplementares desde o início do mandato;
*Menos 750 mil empregos na indústria em 10 anos de governo da direita;
*1 milhão de novos desempregados em cinco anos;
*330 mil novos pobres em cinco anos;
*Nenhum excedente comercial em 10 anos de governo de direita;
*Déficit comercial de 75 bilhões de euros em 2011, recorde absoluto;
*Aumento de 107% do preço dos imóveis;
*80 mil postos de empregos suprimidos na Educação pública;
*24 novas taxas e 75 bilhões de euros em nichos fiscais.

Conclusão: VEJA utilizou-se do recurso da imagem para passar uma imagem falsa, e até invertida, dos dois candidatos. Procurou descreditar o determinado socialista e atenuar o fracasso da direita há dez anos no poder e de Sarkozy há cinco anos no Élysée.

B) Texto: VEJA x Realidade

"François Hollande era tido como o picolé de chuchu da disputa pela presidência da França"
Eu acompanho a mídia francesa (de Figaro a Libération, Le Parisien a Nouvel Observateur) e não vi em nenhum lugar alguém acusar Hollande de picolé de chuchu, nem mesmo nas páginas do L'Humanité, o jornal mantido pelo Partido Comunista. Aliás, o único lugar onde eu vi Hollande ser chamado de chuchu foi nas páginas de VEJA em 27/07/2011. A única crítica que havia em relação a Hollande era que ele não estava suficientemente à esquerda (uma crítica interna no PS), que caiu por terra com o comício de Bourget (levado à alma da esquerda).

"Ele só se tornou candidato do Partido Socialista depois que o preferido, o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) Dominique Strauss-Kahn, foi preso"
Um pouco de respeito e meritocracia à François Hollande caberia bem para a VEJA. François Hollande anunciou sua candidatura às Primárias Socialistas em 31/03/2011: "[...]j'ai décidé de présenter ma candidature à l'élection présidentielle à travers la primaire du Parti Socialiste"1 ("Eu decidi apresentar minha candidatura à eleição presidencial através as primárias do PS"), antes disso ainda, François já havia falado de sua vontade de concorrer em 2010 para a rádio RTL2 e em 23/03/2011  em entrevista ao jornal Échos que se ele se candidatasse às primárias seria para vencê-las. Sobre o mérito à vitória de Hollande, gostaria de ressaltar um outro ponto: após DSK sair da disputa, a candidata favorita era Martine Aubry, primeira-secretária do PS, que havia acordado com DSK que na impossibilidade de um concorrer o outro concorreria, disto concluímos que Hollande correu sempre por fora na disputa, uma vez que não é ligado a corrente dominante do PS. Outro fato que merece ser esclarecido: Dominique Strauss-Kahn já havia concorrido às primárias do PS em outra ocasião (2007) na qual perdeu a indicação para Ségolène Royal.Portanto, o que garantia que desta vez o chefão do FMI ganharia?

"[...] Nicolas Sarkozy, que tentará a reeleição no próximo dia 22 de abril" 
Por mais óbvia que possa parecer a informação, ela está errada: Nicolas Sarkozy ainda não anunciou sua candidatura, e há setores de sua UMP que defendem que seu candidato seja o ministro de relações exteriores e assuntos europeus, Alain Juppé (ligado ao ex-presidente Jacques Chirrac, do qual Nicolas Sarkozy é desafeto) ou ainda o atual Primeiro Ministro, François Fillon, ambos têm índices de aprovação mais positivos que Sarkozy. Jean-François Copé, número 1 da UMP é um nome que corre por fora.

"segundo uma sondagem do instituto francês CSA, 31% dos eleitores pretendem votar no socialista, e 25% no presidente (na pesquisa anterior, Hollande ganhava por 29% contra 26%). Assustado com o avanço do adversário, dois dias depois Sarkozy apelou para a tática do tudo ou nada"
Mais que o leitor de VEJA, o leitor de FrancePo vem acompanhando as sondagens desde o processo de primárias do Partido Socialista, as Primaires Citoyennes, e sabe que François Hollande já esteve muito acima da casa dos 30% e conheceu nos últimos meses uma ligeira queda, a recente alta de Hollande deu-se com o retorno a pleno vapor da campanha (comício de Bourget), ou seja, a recente alta foi um retorno a um padrão que vinha sendo repetido nos últimos meses, o socialista acima dos 30%. Acompanhe na tabela abaixo, as últimas pesquisas do instituto CSA:



 2011
 2012
 Jun
Jul 
 Ago
 Set
 Out*
 Nov
 Dez
 Jan
 Jan**
 F. Hollande
 27
 26
 27
 28
 35
 34
 32
 29
 31
 N. Sarkozy
 23
 26
 26
 24
 25
 27
 26
 26
 25

* Primárias do Partido Socialista/Partido Radical de Esquerda
**Sondagem após o Comício de Bourget

Assustado, é a última coisa que Sarkozy está, ele sabe muito bem que com 25% dos votos no primeiro turno pode muito bem sair vitorioso no segundo, isto depende de duas coisas articuladas uma à outra:

1) Uma pequena quantidade de votos das outras candidaturas de esquerda no primeiro turno (Jean-Luc Mélenchon, Partido da Esquerda/Partido Comunista; Eva Joly, Partido Verde; outras candidaturas menores: trotkistas, altermondistas, e outros) não daria um grande impulso a candidatura socialista no segundo turno, correndo o risco de repetir a eleição de 1995 na qual o socialista Lionel Jospin venceu o primeiro turno mas sem a força de outras candidaturas de esquerda perdeu o segundo turno para Jacques Chirac que ganhou o apoio do terceiro colocado, o centrista Édouard Balladur.

2) Votação expressiva das diversas candidaturas de direita, Dominique de Villepin, Christine Boutin, Frédéric Nihous, Nicolas Dupon-Aignan e Hervé Morin (creditadas entre 0,5 e 1,0% cada, o que pode render 5% à Sarkozy), do candidato do centro, François Bayrou (MoDem - 11% na última pesquisa CSA) e de extrema-direita Marine le Pen (FN - 17% na última pesquisa CSA) que tendem a ceder mais votos a Sarkozy que a Hollande no segundo turno.

Neste sentido, a declaração de Sarkozy de que se ele não ganhasse as eleições em maio ele abandonaria a vida política foi um golpe eleitoral. Baixo, diga-se de passagem.

C) Revendo conceitos

"O dilema Hollande"
Dilema: Situação embaraçosa com duas saídas difíceis ou penosas.
Respeitando o significado acima, trazido do dicionário, consigo me lembrar do Dilema do Prisioneiro, do Dilema de Segurança (das aulas de Introdução às Relações Internacionais) ou ainda do Dilema de Tecnologia (das aulas de teoria). Não consigo enxergar nenhum dilema por trás de candidatar-se, apresentar um projeto e debatê-lo. Em tempo, o título deve ser um resumo do conteúdo, assim não encontrei em nenhum lugar do texto que explique o que seria "o Dilema Hollande".

"O favorito à Presidência Francesa quer taxar os ricos para reduzir a dívida pública, mas só populismo não resolve"
VEJA precisa rever urgentemente seu conceito de populismo.

CONCLUSÃO

     Ter um engajamento internacionalista, o que diferente de apenas ser um internacionalista - profissional de Relações Internacionais - significa lutar para que a solidariedade, democracia, liberdades e justiça sejam desfrutadas a nível mundial. Hoje, identifico que para alcançarmos isto, somado a igualdade em escala internacional, precisamos de políticos e políticas engajados nestas lutas, por isto do meu carinho e engajamento pela Internacional Socialista, pelo Partido Socialista Francês e sobretudo a François Hollande. Por mais bela que possa parecer esta ideia de igualdade a nível internacional, tenho plena convicção que existem muitos dispositivos com o objetivo de impedi-la e um deles é a mídia e seu poder de manipulação e condução da conscientização que ela exerce.
     Antes que qualquer um possa lembrar que temos liberdade de expressão, que a mídia (felizmente) tem liberdade para falar sobre o que quiser, e que nós, leitores, temos plena liberdade de escolhermos o que queremos ler, e nesse sentido, VEJA dispõe de liberdade para publicar o que bem entender, procuro lembrar que a liberdade para a mídia, não é um fim, apenas um começo. Esta liberdade deve sr sempre seguida de imparcialidade, justiça e verdade, pois estes sim são meios-fim. Assim, lamento o exercício de manipulação que VEJA fez com a reportagem "O dilema de Hollande" ao passar uma imagem falsa e imprecisa da situação que a França vive hoje. Gostaria de ressaltar a gravidade disto, uma vez que a reportagem que trouxe muito mais uma opinião do que uma informação, ocorre exatamente na primeira reportagem da publicação mais importante do Brasil dedicada às eleições francesas, ou seja, bem no momento em que milhões de brasileiros tem o primeiro contato com François Hollande. Tudo isto é lamentável.

_______

Bônus

     Pelo menos a cada 5 ou 7 anos, VEJA agita seus tambores para passar uma imagem imprecisa do Socialismo Francês, que já foi inclusive objeto de admiração e análise de nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em "América Latina e o Novo Socialismo Francês (1982). Vamos rever abaixo algumas reportagens de VEJA sobre o PS:  

*2011 - Primárias Socialistas: Ao invés de ressaltar o caráter democrático e inovador das primárias do PS, VEJA preferiu continuar acusando DSK de estupro e seguir a linha do jornalismo de revista de fofocas. Na única reportagem dedicada às primárias, VEJA chamou o então candidato François Hollande de chuchu. Para uma revista que defendeu Aécio Neves em sua capa em semana eleitoral, chamar François Hollande de insosso é falta de espelho nos escritórios do editorial.


Como se diz chuchu com sotaque de Minas? Insosso quem? Hollande em quem VEJA bate, ou o sem graça Aécio Neves, menina dos olhos de VEJA.



*2007 - O assunto principal da eleição era a imigração e a estagnação que a França se encontrava com um Presidente de direita desde 1995 no poder, mas VEJA preferiu focar no 'asistencialismo' de Ségolène Royal. VEJA e a maioria dos franceses aceitou a ideia de trabalhar mais para ganhar mais de Sarkozy, hoje com o desemprego nas alturas, trabalhar se tornou uma grande dificuldade.








*1978 - Para o alívio de VEJA, o realismo-socialista triunfante nas letras e nas artes não ocorreu, demoraria mais 3 anos até a vitória de Mitterrand. Com isso graças a sabedoria da direita triunfante, nem Pierre Cardin, nem Yvez Saint-Laurent foram enviados para campos de reeducação. Apenas para lembrar: nada disto ocorreu com a vitória dos socialista em maio de 1981 e mais: foram os socialistas que aboliram a pena de morte na França neste mesmo ano.



Da próxima vez que VEJA se manifestar sobre as eleições franceses fique atento ;)


Brasil, 31/01/2012
Oscar Berg





quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O que significa ser socialista?

Não é gratuitamente que escrevo este artigo, mas para começar 2012 – ano de provável vitória socialista na França – acredito que devo tornar público este pequeno esclarecimento, não espero fazer aqui nada no sentido de um novo Manifesto, apenas reforçar algumas posições que estão sendo esquecidas e merecem ser retomadas. Sem mais papo, afinal, o que é ser socialista?




Muita gente não entende. Muita gente critica. Poucos procuram entender. Sou Socialista. Como socialista? Afinal, andaria eu em um Lada, teria eu uma bandeira soviética no meu quarto, um pingente com a face de Stálin nas minhas roupas, ou uma estrelinha do PT? Participaria eu de atentados a bancos, a lojas do McDonalds, será que eu queimo bandeiras dos EUA? Não nada disso, primeiro, pois nada disso é Socialismo ou ajudaria a me tornar Socialista. A própria União Soviética não era Socialista, o PT não está nos levando ao Socialismo e o Lada não é um dos meus carros preferidos (e está longe disso). Mas o que é ser Socialista?

Primeiro, tire a URSS da cabeça. Respire. Tire Cuba também. Respire. Foice e martelo cruzado? Isso é comunismo, ok? Antes de chegarmos ao ponto nevrálgico, pegue uma folha. De ofício ou caderno (tanto faz, mas se for daquelas recicladas eu agradeço!) e comece a escrever: primeiro, vamos começar com uma frase determinante: Liberdade, igualdade e fraternidade (Revolução Francesa sim, ou você achou que nossas referências eram marxistas? E detalhe, de onde você acha que os marxistas-leninistas se inspiraram?) adicione, democracia, laicidade e República. A base está pronta, vamos desenvolver!

Liberdade ou igualdade? Que debate! Aliás, debate? Para nós, socialistas, liberdade e igualdade não formam um debate, mas compõe uma diretriz básica do Socialismo: liberdade e igualdade são inseparáveis, uma nunca será alcançada sem a outra, qual a igualdade possível sem liberdade e qual o valor da liberdade sozinha? Quando esta vem sozinha o único valor que carrega é aquele que Rosa Luxemburgo descreveu na seguinte situação: uma raposa livre em um galinheiro livre, como nos lembra François Mitterrand em seu livro “Aqui e Agora”(1980). A igualdade desejada pelos socialistas não é aquele que muitos de seus opositores vendem como igualdade socialista: a nossa igualdade está na igualdade de oportunidades, oportunidades seja de estudar, trabalhar, contribuir, evoluir (o famoso conjunto dito, vencer na vida, expressão perigosa, diga-se), a igualdade da qual os Socialistas falam é ao final, nosso conceito de justiça, ela mesmo um símbolo do alcance da igualdade. Por final, liberdade e igualdade conjuram juntas um terceiro valor socialista: a fraternidade. Ser fraternal é amar ao próximo, a rosa vermelha – grande símbolo do Socialismo – é uma imagem de fraternidade, de amor. Fraternidade é entender ao final, que por vivermos juntos, devemos nos preocupar com nossos próximos (daí a expressão camarada) e ao auxiliarmo-nos estaremos auxiliando ao todo, a sociedade (o contraponto de fazer tudo individualmente e alcançar o bem-estar comum, como diria Adam Smith e sua mão-invisível). Fraternidade é viver entre camaradas. Liberdade, Igualdade e Fraternidade, eis a Sociedade Socialista. E em uma sociedade fraternal, qual valor outro que a democracia é capaz de se propagar? absolutamente nenhum!

A Democracia é tanto um valor como um objetivo do Socialismo. A democracia não pára no poder de voto, em decidirmos nossos governantes. A democracia é uma escolha de vida, um destino! Tantas empresas, instituições, sindicatos, associações, clubes e partidos a democratizar! A valorização da democracia é capaz também de afastar todos os fantasmas do passado que ligavam algumas práticas tidas – erroneamente - como Socialistas, caso do autoritarismo, da perseguição e da violência, valores que  o Socialismo não só não prega, como engaja-se à lutar contra. A democracia, quando levada a fundo, logo transforma-se em justiça, respondendo a dois objetivos do Socialismo, a justiça e a emancipação do homem.

O que seria a emancipação do homem? Emancipar o homem é colocá-lo a frente das coisas, certamente a frente das finanças e da economia, mas também a frente do Estado. Neste momento de crise mundial, mas também crise da identidade Socialista, temos o momento ideal de reforçarmos ainda mais uma grande convicção: já experimentamos dois modelos de organização economia dentro da ordem capitalista, em um deles as finanças estiveram a frente do homem, no outro o Estado precedeu ao homem. Ambos são organizações falidas, eis a hora de experimentarmos o modelo Socialista: emanciparmos o homem para o colocarmos a frente da economia! Mas qual modelo econômico para o Socialismo?

Como bem definiu François Hollande1, futuro presidente socialista da França, em seu livro-candidatura Le Rêve Français, “o [partido] socialista reconhece a economia de mercado, mas é contra a liberalização da economia, pois devem prevalecer os valores de solidariedade, igualdade e reciprocidade sobre os critérios de rentabilidade”. Humanizar a economia não é de longe um objetivo da luta Socialista, uma vez que temos a convicção que não pode-se humanizar aquilo que não é humano. O objetivo do Socialismo neste campo é humanizar o mundo do  trabalho. Faz-se isso ao colocar o homem a frente do trabalho, e portanto da economia. Para colocá-lo a sua frente, há uma gloriosa fórmula: dominar o desenvolvimento, dominar a ciência, tornar as máquinas e equipamentos auxiliares do homem no exercício de seu trabalho e não formas de fazer prevalecer a exploração sobre o homem. A valorização do trabalhador também compõe a fórmula da humanização do mundo do trabalho, faz-se isso ao alcançarmos o dito “Estado do bem-estar social” (ou sua variante francesa État Providence), aumentar-se-á o valor do trabalhador articulado a uma diminuição das horas semanais de trabalho e a plena disposição das liberdades sindicais para associações de trabalhadores. O Socialismo não é no entanto inimigo do empreendimento privado. A força e o dinamismo da economia encontra-se, dentro setor privado, nas pequenas e médias empresas. Seu desenvolvimento será estimulado. O Socialismo não pode no entanto, se afastar de suas lutas históricas e uma delas responde ao fortalecimento das cooperativas de trabalhadores, forma de explorar a economia de mercado e não os trabalhadores, transformados em co-proprietários da empresa. A cooperativa é o último estágio da transformação Socialista do mundo do trabalho, fortalecendo neste meio a democracia e a fraternidade (liberdade para empreender, igualdade para trabalhar).

Qual a organização do Estado Socialista? Por ideal, o Socialista defende que tudo aquilo que seja público prevalece ao privado, em primeira instância isso quer dizer: devemos valorizar os bens comuns, públicos, que a todos pertencem e que todos deveriam poder usufruir. E quais bens o Socialismo identifica? A escola, a universidade, o hospital, a segurança, as estatais, o direito de ir e vir (rodovias e ferrovias, aeroportos e portos, etc), a cidade, a economia, os sindicatos. O uso e a responsabilidade destes bens a todas pertencem: a escola pública, o sistema de saúde público e o monopólio estatal são uma condição não apenas de alavancar o desenvolvimento, mas de dominá-lo. É uma condição não apenas de desenvolvimento social, mas de igualdade. Valorizar o que é público não interfere no direito da posse, da propriedade. O Socialismo Democrático não irá extinguir a propriedade privada, mas encerrar seu monopólio na sociedade onde todos sofrem conseqüências de atos individuais. Reformar para reorganizar a sociedade, libertar a sociedade e o Homem das engrenagens totalitárias do mercado e da finança que aprisionam sua criatividade, sua evolução, seu bem-estar. Neste cenário, não há outro modelo que o Republicano. O Estado Centralizado é também inimigo do Socialismo e a descentralização um meio para combatê-lo. Uma Federação por si só, contudo não corresponde à descentralização, em nada adianta criarmos estruturas federativas se os Estados e regiões pratiquem, eles mesmos, a centralização. Descentralizar é fazer a República presente em qualquer lugar que seja, do mais remoto cantão, ao mais perigoso subúrbio.

Ser socialista ao final é não abrir mão da liberdade para alcançar-se a igualdade nem o contrário. Viver como socialista é compreender a importância de vivermos entre camaradas, numa sociedade democrática e fraternal. Pensar como socialista é compreender o tanto que a guerra já nos afetou, é reconhecer seus estragos para construir uma grande comunidade integrada e pacífica. Trabalhar como Socialista é tomar conhecimento de que a economia está ao nosso serviço e não o contrário; ao pertencermos a uma empresa, um sindicato, uma instituição, temos o dever de levar a democracia a todas as entranhas desta organização e não aceitar nenhuma ameaça a justiça no meio de trabalho. Organizar o Estado Socialista é adotar o modelo Republicano, é valorizar os bens comuns, ditos públicos, este Estado não poderá ter outra organização que não a democrática, o Socialista a nada teme, e vislumbra-se na sociedade, pois de fato pertence a ela, por que temê-la? Adotar uma economia socialista é defender a iniciativa de pequenas e médias empresas, em articulação a um setor público forte, saudável e democrático; antes disso, no entanto, ter uma economia socialista é ter uma economia que responda ao desenvolvimento social, afinal além desta qual seria sua função? Por final, creer no ideal Socialista, é creer no futuro, no progresso, na justiça, no domínio do desenvolvimento e no dever imperativo de emancipar o homem. Acreditar no Socialismo é acreditar na promessa republicana e de justiça, de humanidade e de justiça, de emancipação e de laicidade, de paz e fraternidade! Viva o Socialismo!

[1] "Le Parti Socialiste reconnaît l'économie de marché, mais est un antilibéralisme économique, puisqu'il fait prévaloir les valeurs de solidarité, d'égalité, de réciprocité sur les critères de rentabilité, d'immédiateté ou de rareté." HOLLANDE, François. Le Rêve Français. Éditions Privat: Toulouse, 2011. Édition Numérique (E-book)


Brasil, 20/01/2012
Oscar Berg

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Ex-presidente Chirac é condenado à prisão por envolvimento em corrupção




A França foi sacudida por duas tempestades nesta semana, a primeira – inevitável e difícil de prever – foram ficaram conhecidas por Joaquim que com seus fortíssimos ventos, que atravessaram a França de Leste a Oeste, deixaram centenas de milhares de residências sem energia elétrica. A segunda tempestade que atormentou a França nesta semana correu em sentido contrário e nos tribunais parisienses. Esta segunda tormenta teria sido, caso a ética tivesse sido feita presente, perfeitamente evitável, mas por sua falta, como já prevíamos há uma dezena de anos, aconteceu. A segunda tempestade também responde por um nome masculino, e muito mais afrancesado que Joaquim: Jacques Chirac.

Para quem ainda se lembra dos antigos Mitterrand e de Gaulle, Chirac está fresquinho na memória, ele foi presidente francês entre 1995-2007 (o último do sistema presidencialista, pois deste então a SarkoFrança adotou o superpresidencialismo, o sistema no qual um super-herói é dono dos poderes judiciário, legislativo e executivo) e inclusive já se fez presente aqui no blog na Resenha sobre o filme Mort d’un Président (aqui: http://francepo.blogspot.com/2011/11/dica-de-filme-mort-dun-president.html) . No entanto, as acusações sobre Chirac não recaem sobre seu período como presidente e sim no período que o precedeu, no qual ele foi prefeito de Paris (cargo devidamente ocupado hoje pelo socialista Bertrand Delanoë). Tido como a figura política preferida dos franceses, em pesquisas em meados de abril 2011, o querido ex-presidente e ex-prefeito fantasminha (você já vai entender), envolvido em diversos escândalos de corrupção, foi condenado nesta semana a dois anos de prisão com sursis (uma artemanha do direito penal para que o camarada mesmo preso não se sujeite a execução de pena privativa de liberdade). Mas o que terá feito o simpático gaullista?

Os tempos mudam: Do homem de palavra dos anos 80 restou uma condenação à dois anos de prisão por corrupção


Quando esteve à frente da administração da capital francesa, a partir do belo Hôtel de Ville de Paris, de estilo renascentista, Jacques Chirac (UMP) é acusado de ter sido a peça central de um sistema de criação de empregos fantasmas na prefeitura, de abuso de poder, desvio de recursos públicos e ingerência. Chirac foi acusado de ter usado a máquina pública e ter desviado dinheiro da administração local para o financiamento de sua campanha presidencial de 1995 (cuja eleição ele venceu face ao socialista Lionel Jospin). O caso, no entanto, remonta a 15 anos atrás, tempo suficiente (no Brasil seria assim) para se perdoar o que foi feito, até porque se trata de um ex-presidente da República, mas a inédita resposta do judiciário francês não foi esta: não houve blindagem que deu certo (e a UMP tratou de encontrar muitas), doença que impossibilitasse ou poder político que impedisse o veredicto: Jacques Chirac é condenado à prisão com sursis por dois anos.


O inglês The Economist acusava a impunidade
de Jacques Chirac (2001)
Eu sempre procuro dizer que política francesa e brasileira não são muito fáceis de serem comparadas: ser socialista na França não é igual a ser socialista no Brasil (eu quem o diga), a esquerda francesa é – no máximo – a centro-esquerda brasileira, o sistema deles é diferente, eles têm um primeiro-ministro (além de ter o Sarkozy, ainda que nós tínhamos o Lula, e aqui, os egos são equivalentes), etc. Mas não é que chegamos a uma coisa em comum entre Brasil e França: a corrupção, uma velha conhecida dos nacionais da terra do Sarney, da qual temos propriedade em falar, ou como diriam os franceses, temos o savoir-faire. E como. Ainda que tenhamos enormes diferenças em relação aos franceses, corrupção cá e lá, parece (e é) a mesma coisa de sempre, e está aí Jacques Chirac e seus empregadores fantasminhas para nos mostrarem.

Por as acusações que levaram à condenação de Jacques Chirac remontarem a 15 anos no retrovisor não poderia ser, portanto apenas uma simples revanche ao ex-presidente? Ainda que possa ter sido, a chance é mínima. Sobre a condenação de Jacques Chirac é importante ter em mente que a sua importância não se dá em função de sua figura política de símbolo do gaullismo e da direita francesa, mas sim da condenação de um ex-presidente que se aproveitava de sua impunidade penal para escapar do rendez-vous que ele devia aos juízes franceses. A condenação de Chirac tardou 15 anos a chegar em função de diversos dispositivos armados por seu partido, a direitista UMP, seu estado crítico de saúde e sobretudo a impunidade penal que gozam os presidentes, deflagrando ainda a reforma necessária do estatuto penal do presidente (reforma na qual François Hollande, candidato socialista, deverá se engajar) e sua impunidade (no mais amplo sentido da palavra). Para concluir, com a independência do poder judiciário (e do legislativo) a justiça, ainda que demore, é feita. Mesmo que para um brasileiro isto soe a utopia, porque não tomar o caso Chirac como um norte para que a nossa justiça julgue (e se verificada a acusação condene) estes monarcas que condenam nosso país à corrupção e à miséria? É de se pensar.



Oscar Berg,
Brésil, le 20 Décembre 2011