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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A França abalada

        
Manifestação na Praça da República, em Paris

      Passadas mais de 24 horas do atentado terrorista na redação do Charlie Hebdo se os franceses continuam em um perfeito estado de união nacional, os partidos políticos, por sua vez, tentam canalizar o sentimento de comoção em ganhos eleitorais. Nada de assustador para um país que está, desde o primeiro semestre de 2014, precipitadamente mergulhado na campanha da eleição presidencial que ocorrerá somente em 2017. Os movimentos dos partidos franceses dizem muito sobre as estratégias que serão mise en place na próxima campanha presidencial: de um lado teremos a Frente Nacional (FN) que poderá encontrar na situação atual da França um contexto perfeito para avançar seu discurso anti-imigrante, islã ou União Europeia, a tríade preferida de Marine Le Pen e se papa Jean-Marie. De outro lado, temos tanto o Partido Socialista (PS) como a União por um Movimento Popular (UMP) que perceberam desde já que caberá a apenas um deles confrontar Le Pen no segundo turno da presidencial de 2017, a exemplo do que ocorreu em 2002 quando Chirac contou com o apoio dos socialistas eliminados no primeiro turno contra a FN, e, portanto, devem dar mostras de suas capacidades de falar em nome da união dos franceses republicanos.
           
            As explicações da precipitação dos franceses em uma campanha eleitoral que deveria começar apenas em dois anos se encontram na própria situação política local. De um lado, François Hollande é abertamente contestado, contudo, de outro lado, a oposição oficial ao poder socialista, representada pela UMP, não inspira nenhuma confiança junto ao eleitorado francês. Acredita-se que apesar da agravação da situação econômica e social sob a presidência de Hollande, Nicolas Sarkozy não faria melhor, tendo sido ele o criador de muitos dos impasses que assolam hoje a França. É preciso dizer igualmente que a UMP está completamente desestabilizada em função de graves problemas financeiros e da disputa interna pelo poder (longe de ter encontrado seu capítulo final na recente eleição de Sarkozy a presidência do partido). Nesse cenário de crise das famílias políticas que representam desde o advento da quinta República – a República Gaullista – em 1958 os polos de poder, percebemos uma reorganização do tabuleiro político com a FN se tornando o “primeiro partido francês”, slogan cunhado por Marine Le Pen após a vitória de seu partido nas eleições europeias de maio de 2014.

Para Marine Le Pen, sua Frente Nacional é o primeiro partido da França.
Os acontecimentos de quarta-feira podem ajudar a extrema-direita francesa?


              A França se já não suficientemente abalada pelas consequências da barbárie do ataque terrorista de quarta-feira vive uma grave crise político-institucional cujo sinal flagrante é a precipitação do debate em torno da sucessão presidencial. Na conjugação destes dois cenários percebemos as condições para que se opere o reordenamento deflagrado pelos sucessivos sucessos da Frente Nacional, de onde se explicaria a excitação dos partidos políticos franceses. Dentre as possibilidades que se oferecem aos franceses, destaca-se, aquela da FN tornar-se, de fato, o maior partido do país, colocando sua candidata no segundo turno da eleição presidencial com chances de vitória; e a instauração de uma frente republicana com a união da direita e da esquerda parlamentar no segundo turno da eleição presidencial de 2017 para conter a escalada da extrema-direita. A escolha dos franceses dirá muito sobre a reflexão em torno do ataque de ontem e da resposta a ser dada ao terrorismo. De um lado há a proposta de combate ao fundamentalismo com mais intolerância e, de outro, uma defesa dos valores fundamentais da França, como a laicidade, alvo dos terroristas.

            Patrick Besson, em sua coluna na revista Le Point de 12 de junho de 2014 afirmou que “certamente Hollande será reeleito daqui três anos”. O jornalista imagina um cenário com Marine Le Pen com 24% dos votos no primeiro turno, Hollande com 22% ou 23% e Nicolas Sarkozy com 14% ou 15%. É evidente que a estratégia traçada por Hollande em 2012 (Reformas – Gestão – Resultados) não tem encontrado sucesso: a amplitude das reformas é criticada à esquerda e à direita; a sua gestão foi abalada pela explosão de escândalos envolvendo, dentre outros, a vida privada de François Hollande; e, finalmente, os resultados dificilmente serão atingidos, o prometido déficit de 3% em 2015, notadamente, não poderá ser alcançado e os franceses deverão esperar mais para o equilíbrio orçamentário. Contudo, Hollande ainda pode esperar ser reeleito. Muito mais que a recente reconciliação com a base socialista, uma resposta adequada aos trágicos acontecimentos que abalam a França poderá lançar o presidente como único capaz de falar em nome de todos os franceses, um papel essencial para vencer sob o nome dos republicanos, a extrema-direita fascista em 2017. Como previu Besson, todos estarão com Hollande para salvar, uma vez mais, a República.

Oscar Berg,

08/01/2015

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Droit Devant

Sarkozy está de volta.

Nicolas Sarkozy, eleito presidente da UMP


                Existe uma música da banda quebequense Cowboys Fringants que diz o seguinte: « prépare toi petit garçon, elle sera longue l’expédition, et même si on n’en revient jamais vivant, Il faut marcher droit devant ». O nome da música é o mesmo deste post, ‘direto à frente’, e resume bem o que deve fazer o recém-eleito Presidente do partido União por um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy, em sua estratégia de (re)conquistar o coração dos franceses.

            Stratégie é uma boa palavra para descrever os movimentos do ex-presidente francês. Discursos, aparições públicas, fotos na imprensa, absolutamente nada, foi feito sem pensar ou passou em margem da estratégia. Nem mesmo a anunciada aposentadoria da vida política francesa. Tudo se inscreve em uma minuciosa estratégia que, ao menos, na cabeça de Sarkozy é coerente e capaz de livrá-lo do título de ex-presidente impopular para coroá-lo “salvador da pátria”. Há dois séculos, Napoleão Bonaparte deixou o exílio na Ilha de Elba para conquistar a França por uma segunda vez. Sarkozy acredita que pode (e deve) fazer o mesmo.

            Em linhas gerais, a estratégia de Sarkozy começou já no anúncio de aposentadoria. Evidentemente que o objetivo não era deixar a política, mas deixar sua família política órfã de liderança (a qual en toute évidence caberia a ele), de modo que os militantes implorassem por seu “retorno” a vida política, legitimando este salto. Em um primeiro momento, tudo funcionou bem. A direita francesa, limitada aos postes (piada pronta) Jean-François Copé e François Fillon, ficou rachada após as brigas entre ambos pela presidência da UMP em 2012. Contudo, o tempo virou: Sarkozy viu seu nome envolvido em grandes denúncias de corrupção, as contas de sua campanha apresentaram um enorme déficit (colocando em causa até mesmo a saúde financeira da UMP) e um verdadeiro competidor surgiu: o ex Primeiro Ministro e prefeito de Bordeaux, Alain Juppé, outrora nomeado pelo Presidente Jacques Chirac como “provavelmente o melhor dentre nós”.

            Dotado de incrível lábia, Sarkozy contornou os problemas relacionados às denúncias de corrupção. Ainda assim, Alain Juppé continua a ser uma pedra no seu sapato. A revista L’express lhe concedeu o título de “O homem que quer salvar a direita” e as pesquisas de intenção de voto, por sua vez, o colocam como único candidato da direita capaz de se impor tranquilamente sobre Marine Le Pen (hoje a real adversária) e François Hollande. A volta de Juppé fez com que a primeira fase da estratégia de Sarkozy falhasse, ou seja, o ex-presidente não é hoje o líder incontestável da direita que ele esperava ser, et ce apesar de sua recente eleição a presidência da UMP.

Revista L'Express revelou os planos do salvador da direita francesa. Bons tempos em que se tinha acesso a mídia francesa em Montréal.


            A vitória eleitoral é minorada por duas razões. Em primeiro lugar, Juppé ficou de fora da disputa se resguardando para a única disputa que importa: a presidência francesa, em 2017. Já amado e odiado pela opinião pública, o prefeito de Bordeaux sabe bem que precisa se resguardar para que chegue ao final da maratona com chances de vitória (Hollande é o único outro político a ter plena noção disso). Assim, o confronto decisivo ainda deverá ser travado para que Sarkozy seja de fato lançado candidato da UMP à presidência francesa, portanto, rien n’est joué d’avance. Em segundo lugar, Sarkozy não venceu a eleição com um score “soviético” (como colocado pelo Le Monde) e viu o jovem Bruno Le Maire (antigo aliado de primeira hora) conquistar 30% dos votos. A juventude é um ponto forte de Le Maire, pois Juppé, cuja idade já ultrapassa os 70, pode não ter saúde necessária para bancar uma campanha presidencial e, em um dado momento, supõe-se que a questão da renovação do partido surgirá.

            Concluímos que vencer a presidência da UMP foi apenas um primeiro degrau da estratégia de Sakorzy já que tanto sua aposentadoria, como seu retorno político foram atos falhos (há quem diga que o livro da ex primeira dama Valérie Trierweiller no qual ela afirma que seu ex-companheiro François Hollande odeia os pobres e os chama de banguelas tenha sido o grande événement da temporada política francesa, até porque House of Cards ainda não estreou no Hexágono). Sarkozy ainda deverá provar que tem gás para se desprender da imagem que esculpiu em cinco anos de presidência e mostrar que seu arrependimento era verdadeiro e não somente um componente de seu marketing pessoal. O que é difícil de acreditar, pois já na noite da vitória seu comboio “presidencial” foi flagrado andando em faixas reservadas aos ônibus para fugir do trânsito parisiense. Arrependido? Peut-être. Bling-bling? Toujours.

            Em um âmbito mais expandido devemos nos questionar acerca do efeito positivo da eleição de Sarkozy para a direita francesa. Será que essa família ainda pode se salvar, conforme L’express sugeriu que Juppé fosse capaz? Essa pergunta ainda carecerá de respostas. A meu ver Sarkoz, na verdade, cria mais problemas do que resolve. A estratégia de retorno à la Napoleão não deu certo. Por uma simples razão. Ao passo que o baixinho córsego de fato se ausentou da vida pública francesa, o baixinho dos bairros chiques de Paris sempre esteve [omni]presente (até mesmo quando ele pretendia estar ausente). Ninguém até hoje sentiu falta de Sarkozy e o seu retorno nada mais é que o retorno daquele que nunca foi. Paradoxalmente quem poderá desfrutar mais da eleição de Sarkozy à presidência da UMP são seus adversários. Marine Le Pen torce por esmagá-lo nas eleições de meio mandato (assim como já vez nas eleições para o Parlamento Europeu). Hollande por sua vez torcerá para que os franceses coloquem seu adversário de 2012 no escanteio e que no segundo turno de 2017 os votos da UMP venham para ele no combate direto contra a extrema-direita, assim como os socialistas votaram em Chirac em 2002 contra o papai Le Pen. Como diriam os Cowboys do Québec, a expedição será longa e nem sempre voltaremos vivos.

Sarkô e Juppé, inimigos declarados


Oscar Berg
3 de dezembro de 2014.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Quem é Manuel Valls, o novo Primeiro ministro francês?

O péssimo resultado dos socialistas nas eleições municiais levou o Presidente François Hollande a demitir seu Primeiro Ministro Jean-Marc Ayrault e nomear o desconhecido dos brasileiros Manuel Valls ao posto. Conheça o novo premiê francês responsável a partir de agora de salvar os socialistas franceses.



O prazo de validade de Jean-Marc Ayrault a frente da chefia de governo já estava contado a muito tempo. No final do ano passado os rumores já eram grandes. Na época circulava o nome do ambicioso ministro do Interior (pasta de maior importância do governo, uma espécie de Ministério da Segurança Pública brasileiro) Manuel Valls e da prefeita de Lille, Martine Aubry. Ainda que eu apostasse já na época em uma troca de chefia a razão estava com um amigo militante socialista de La Rochelle que me confiou: “Jean-Marc Ayrault é muito fiel ao Presidente, é um bom cheval de bataille. Hollande está certo em mantê-lo”. Jean-Marc Ayrault, contudo, não resistiu ao grande choque da derrota do PS nas eleições municipais realizadas em 23 e 30 de março. Ao passo que em 2008, os socialistas foram os grandes vencedores dessas eleições, quatro anos mais tarde eles foram os grandes derrotados ao perderem cidades importantes como Niort, Reims, Saint-Étienne e Toulouse (a lista completa está no Le Monde) e, pior, em muitas cidades se tornaram a terceira força política graças ao surpreendente resultado da extrema-direita. Mesmo bastiões socialistas como no norte foram perdidos (ainda que Aubry tenha sido reeleita em Lille). Falando em bastiões, os comunistas também estão em choque com a derrota de Catherine Peyge (femme politique que tive o prazer de conhecer e por quem nutri uma grande simpatia) em Bobigny, cidade do subúrbio parisiense comandada pelos comunistas há um século!

Em face desse grande fracasso, François Hollande não teve outra escolha senão a de iniciar uma reformulação de sua equipe de governo, a começar por seu Primeiro Ministro muitos analistas políticos tendo indicado que a derrota socialista foi uma resposta à impopularidade do Presidente Hollande e não necessariamente um voto de desconfiança às administrações socialistas locais. De certa forma, a eleição local tomou ares de disputa nacional.

Quem é Manuel Valls?
Jovem, 51 anos, ministro do interior, deputado de Essone e prefeito de Évry e a partir de hoje Primeiro Ministro, Manuel Valls tem um bom currículo que o coloca em postos de sonhar com a presidência francesa já em 2017, o que preocupa muita gente a começar pelo Presidente em exercício François Hollande (ainda não se sabe se ele pretenderá brigar um segundo mandato). Manuel Valls já apareceu uma vez aqui no blog FrancePo quando das primárias do Partido Socialista nas quais ele terminou penúltimo colocado com 6% dos votos.

À época, Valls foi descrito como o plaidoyeur de uma política realista. Ainda que isso levasse os socialistas à se aproximarem dos centristas e mesmo da centro-direita, algo que preocupou muito os militantes socialistas à época mas, sejamos sinceros, após dois anos de presidência de François Hollande percebemos que esse é o menor medo dos socialistas agora. Vale ressaltar que Valls recebeu, em 2011, o apoio da influente publicação The Economist que o apresentou como o único portador dos valores da esquerda moderna em detrimento aos ‘dinossauros do PS francês’ (leia-se François Hollande e outros).

Expert do PS em questões de segurança pública, Valls foi nomeado por François Hollande quando de sua eleição ao Ministério do Interior em detrimento de ‘dinossauros do PS’ que sonhavam com o posto, como François Rebsamen que poderá agora entrar no governo. Em seu posto, Valls se envolveu em grandes polêmicas, mas se caracterizou como o campeão da opinião pública, sendo um dos políticos mais populares da França, algo raro em meio ao governo socialista acusado de não fazer nada para conter a crise.

É certo que Valls terá grandes desafios a sua frente e o primeiro deles será justamente negociar com o presidente os nomes de seus ministros. Personalidades socialistas batem a porta do governo como Ségolène Royal e Rebsamen, outros buscam mais espaço no governo como Stéphane Le Foll (agricultura), Pascal Lamy (cidade) e Najat Vallaud-Belkacem (direito das mulheres e porta voz do governo). Outros ainda lutam para manter seus postos, como Arnaud Montebourg (recuperação industrial) e Pierre Moscovici (economia e finanças). Valls e Hollande, agora juntos, terão que balancear as aspirações pessoais dos ministros com o recado das urnas. Algo nada fácil. Ainda, há algumas semanas os verdes declararam que não participariam de um governo com Valls em sua chefia. O bom resultado dos verdes nas eleições municipais (uma exceção na esquerda. Notável vitória em Grenoble contra os socialistas) aumentou ainda mais sua margem de manobra. É provável que Cecile Duflot (habitação) busque finalmente o ministério do meio ambiente. O atual ministro Philippe Martin, segundo o Nouvel Observateur, estaria preparado para deixar a pasta.

Para concluir, é possível que François Hollande tenha criado um belo problema para sua reeleição em 2017. Um desempenho positivo de Valls não recuperaria somente a pele do governo, mas também o lançaria como candidato natural à sucessão de Hollande ao passo que este estaria em condições de disputar um segundo mandato. O fato é que Hollande não teve outra escolha. Dentro os nomes à sucessão de Ayrault o de Valls era o que mais agradava: Hollande e Aubry não têm boas relações; Laurent Fabius (relações exteriores, político mais popular da França conforme recentes sondagens) já esteve no posto de Primeiro ministro na época de Mitterrand (1985-1986) e apresentou uma performance severamente criticada; Jean-Yves Le Drian (defesa) não encarna o espírito de mudança demandado pelos franceses; e Ayrault não teria nada de novo a oferecer. Prevaleceu a lógica e Manuel Valls foi nomeado para Matignon, o que pode decepcionar em especiais os militantes mais à esquerda do PS.

Oscar Berg
Montréal (Québec), 31/03/2014

sexta-feira, 15 de março de 2013

Habemus Austeritas


Milhares de manifestantes europeus se reúnem em Bruxelas para protestar contra a austeridade



Ontem, a declaração do cardeal francês Jean-Louis Tauran “habemus papum” fez a alegria de milhões de cristãos mundo afora e ecoou na lotada Praça de São Pedro.

Hoje, um pouco distante do Vaticano, mas ainda sob o mesmo continente, a expressão latina foi lembrada por milhares de manifestantes vindos dos 27 Estados Membros da União Europeia protestar no Parc du Centenaire em Bruxelas contra as políticas de austeridade implementadas pelos governos europeus. A secretária-geral da Federação Sindical belga FGTB anunciou “Habemus austeritas!” e ao longo de seu discurso anunciou o objetivo da manifestação pacífica que reuniu cerca de 15 000 manifestantes: “Nós estamos aqui para advertir o Conselho Europeu. Em cada Reunião de Cúpula, a situação dos trabalhadores é colocada em perigo.”

Nos dias 14 e 15, os 27 Estados Membros da UE se reúnem em Bruxelas para uma nova Cúpula do Conselho Europeu (Reunião dos chefes de Estado e de Governo dos membros da UE). Essa reunião é vista como crítica para os europeus, pois ela se insere em um contexto de impasse político na Itália após as últimas eleições legislativas, de agravamento da recessão nos países do sul e de início de campanha eleitoral na Alemanha que definirá o futuro político de Angela Merkel em setembro próximo.
Até a divulgação do resultado das eleições legislativas na Itália, que deram aos populistas Berlusconi e Grillo um número considerável de cadeiras no parlamento, a política de austeridade defendida pela chanceler alemã Angela Merkel foi implementada como receituário para a saída da crise. A passagem por um período de recessão seria inevitável para reequilibrar as finanças dos Estados e recuperar a competitividade de suas economias, o preço a pagar pelos excessos do passado. Contudo, esse receituário de A. Merkel começa a perder apoio em todo o continente, pois mesmo que seguido por países como Espanha, Grécia e Portugal ele não está os ajudando a enfrentar melhor a crise.

De acordo com resultados divulgados recentemente, a recessão em 2012 (queda de 3,2% do PIB) em Portugal é a pior desde 1975. Na Grécia, a queda do PIB nesse período foi ainda mais violenta - 6,2% - sendo o quinto ano consecutivo de recessão. A Espanha também se encontra em uma situação crítica, sobretudo, em função do forte desemprego no país, o que levou a classe dirigente espanhola a se afastar das obrigações fiscais acordadas junto aos parceiros europeus. De passagem por Bruxelas, segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Garcia-Margallo, advertiu os riscos de uma “austeridade excessiva” que “não vai contribuir na saída da recessão”.

Conforme podemos ver pela imagem abaixo, a situação europeia divide-se entre dois grupos: os bons e os maus alunos do receituário de A. Merkel, ou seja, aqueles que fazem esforços para reduzir o déficit fiscal e aqueles que não seguem a risca. Ainda assim, mesmo nos ditos “bons alunos”, como a Bélgica e até mesmo na própria Alemanha, a situação social não é muito superior em relação aos vizinhos europeus.

Previsão de Déficit Orçamentário para o ano 2013 nos países da Zona do Euro (em % do PIB)


Constata-se que a crise econômica europeia é também política, apesar de diversos manifestos como os realizados hoje em Bruxelas, não se impôs na Europa um receituário diferente daquele defendido por A. Merkel. Pelo contrário, os países europeus em pior situação fiscal recorrem a uma única ferramenta: a renegociação da data limite para reequilíbrio fiscal de 3% de déficit em relação do PIB. A esquerda europeia, oposição na maior parte dos países europeus atualmente, não convence os eleitores de sua capacidade de melhor solucionar a crise e a nova experiência socialista francesa, mesmo que não abrace a ideia da austeridade à moda de A. Merkel, falha em propor uma saída alternativa. Até o momento o principal recurso dos eleitores europeus, conforme a última eleição italiana, é o voto em políticos populistas que conspiram contra as instâncias comunitárias e propõe a saída da zona do euro como solução a crise, uma medida irresponsável mas que, em tempos de incapacidade da esquerda propor novas soluções e da direita tradicional defender com firmeza as ferramentas implementadas por ela, encontra um eleitorado cativo. Nesse cenário, nem mesmo uma possível derrota de A. Merkel para os Social-Democratas em setembro poderá provocar uma mudança importante na política europeia vis-à-vis do contencioso orçamentário.

Oscar Berg,
Le 14 mars 2013.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Qual exílio para franceses e belgas?

Entre fortunas e equipes de futebol, a fronteira belga-francesa esteve movimentada ao longo de 2012

As relações entre a França e a Bélgica deram o que falar neste ano. Não tanto pela recepção do novo presidente francês por Bruxelas, mas sobretudo por assuntos bem originais nas relações entre os dois vizinhos.

O star francês Gérard Depardieu partiu para a Bélgica para escapar dos altos impostos franceses...


Primeiramente, o ano foi marcado por ricaços franceses que cruzaram a fronteira em busca de vantagens fiscais. Em um primeiro momento, foi o executivo francês Bernard Arnault, o homem mais rico da França e também da União Europeia, cuja fortuna é estimada em 41 bilhões de dólares (fazendo dele o quarto homem mais rico do mundo em 2012 pelos dados da Forbes), que pedira ‘exílio fiscal’ na Bélgica para fugir dos altos (altíssimos) impostos de sucessão franceses (que se elevam à 40% contra 3% do lado belga). Após o executivo, foi o ator francês Gérard Depardieu que deu início ao processo de naturalização belga, tendo adquirido uma residência no país (próximo à fronteira com a francesa Lille) e entregado seu passaporte francês, buscando igualmente fugir de suas obrigações com o fisco francês.

Em face da polêmica, o ministro dos negócios estrangeiros belga, Didier Reynders, declarou que a Bélgica estaria pronta a estender a mão aos franceses que buscam o ‘exílio fiscal’, deixando claro que a França deveria “assumir as conseqüencias de um sistema fiscal que conduz seus cidadãos nacionais a deixarem o país”. O sistema fiscal belga é o mesmo desde 1830, ao passo, que o francês sofre constantes modificações de acordo com a mudança dos governantes e a alternância da direita e esquerda no poder. Procurando restabelecer a calma em um caso que suscitou inúmeras reações dos dois lados da fronteira (o primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault taxou a fuga fiscal de Depardieu de patética5), o ministro belga tratou de lembrar que seus concidadãos atravessam a fronteira para fazer compras na França devido ao imposto sobre o consumo (TVA – Taxa sobre o valor acrescentado) ser menor do lado gaulês. Vale lembrar que ainda que ambos os chefes de governo francês e belga sejam socialistas (Elio di Rupo, o atual primeiro-ministro belga desde dezembro de 2011, que esteve inclusive presente na campanha de François Hollande em janeiro deste ano), uma crise mediática não foi evitada no caso do ‘exílio fiscal’.

Mas nessa quarta-feira, o ‘exílio’  tomou a direção contrária. Ou seja, desta vez, são belgas cruzando a fronteira em busca de vantagens na França. Contudo, não se trata de nenhum grande executivo ou ator renomado belga que procura se instalar no Hexágono, e sim... uma equipe de futebol!

Assim, ainda que os impostos franceses não sejam bem vistos pelos belgas, pelo menos o futebol dos gauleses continua admirado do outro lado da fronteira, a ponto de uma grande equipe da primeira divisão belga – o Standard de Liège, uma das equipes mais ricas do país de Jacques Brel e Tintim – dar a entender que iria aderir à 1ª Divisão do Futebol Francês.

...enquanto o dirigente belga Roland Duchâtelet procura a França  para aumentar direitos de imagem de seu time.


Roland Duchâtelet, o presidente do clube de Liège – a quarta cidade da Bélgica – defende a criação de uma liga de futebol reunindo clubes belgas e holandeses – oito clubes belgas e doze holandeses, buscando respeitar um critério demográfico, explica logo o dirigente belga - a fim de evitar a morte natural do campeonato belga. A criação da Beneliga seria necessária para que os clubes belgas pudessem recuperar direitos televisivos que perderam para outros clubes europeus nos últimos anos. Segundo Duchâtelet «Há 15 anos, os clubes belgas tinham o monopólio do futebol na Bélgica, as transmissões televisivas apenas mostravam jogos belgas, mas, hoje em dia, estamos numa situação de forte concorrência com a Premier League, a Liga Espanhola ou a Bundesliga Alemã, é um problema existencial, não o reconhecer seria uma idiotice». 

Duchâtelet estabeleceu o prazo de dois anos para a criação do campeonato belga-holandês, o qual já teria o apoio dos maiores clubes das antigas Províncias Unidas, a saber: Anderlecht e Bruges (belgas) e Ajax e PSV Eindovhen (holandeses).

Caso o prazo não seja respeitado e o projeto não seja levado adiante, o Standard de Liège irá aderir a Liga francesa, o que segundo o presidente do clube, é legalmente possível, caso os franceses estiverem de acordo. Exílio ‘televisivo’, ‘mediático’?

Segundo Arnaud Rouger, diretor de atividades esportivas da Liga de Futebol Profissional (LFP) da França, a equipe belga não poderia participar da Liga Francesa apenas através de um pedido, pois tanto FIFA como UEFA – instâncias superiores do futebol internacional – não autorizam as federações, como a LFP, de englobar clubes que não pertençam ao seu território nacional. Além disso, seria necessário que a equipe belga fosse uma sociedade de direito francesa. Ainda segundo Arnaud Rouger, a equipe de Liège já havia se informado junto à LFP da possibilidade de integrar a Liga Francesa há 6-7 anos, mas nenhum pedido oficial foi requisitado.

Não fechando a porta totalmente aos belgas, Rouger declarou que “a questão poderia ser estudada, mas há inúmeros obstáculos para conseguir-se alguma coisa”.

Realmente parece que não são apenas as grandes fortunas francesas que sofrem da falta de ‘solidariedade’ dos responsáveis nacionais, mas os clubes de futebol estrangeiros que buscam exílio ‘televisivo’ na França também!

Leituras complementares e fontes

[1] Sudpresse (Jornal francófono belga): « Roland Duchâtelet ameaça : é preciso a Beneliga dentro de 2 anos ou o Standard vai jogar ... na França ».  Disponível em: http://www.sudinfo.be/630594/article/sports/foot-belge/standard/2012-12-26/roland-duchatelet-menace-il-faut-la-beneliga-dans-2-ans-ou-le-standard-ira-

[2] Dernière Heure (Jornal francófono Belga): «Impossível de ver o Standard jogar na Liga 1». Disponível em : http://www.dhnet.be/sports/standard/article/419369/impossible-de-voir-le-standard-jouer-en-ligue-1.html

[3] Le Monde (Jornal francês): « A Bélgica se diz pronta para acolher os exilados fiscais franceses » Disponível em: http://www.lemonde.fr/economie/article/2012/12/18/la-belgique-se-dit-prete-a-accueillir-les-exiles-fiscaux-francais_1807679_3234.html

[4] Sobre a participação de Elio di Rupo na campanha de François Hollande, ver: RTL Info (Site de notícias belga): « Por que Elio di Rupo irá aplaudir François Hollande ». Disponível em : http://blogs.rtl.be/carnetpolitique/pourquoi-elio-di-rupo-ira-applaudir-francois-hollande/

[5] Declaração do Primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault sobre o exílio de Depardieu. Disponível em: http://www.dailymotion.com/video/xvuf3j_ayrault-le-depart-de-gerard-depardieu-est-minable_news#.UNvRUOT7LSs

Oscar Berg,
Brésil, 26/12/2012

domingo, 28 de outubro de 2012

Serra, seja Jospin!



21 de abril de 2002. O socialista francês Lionel Jospin reúne sua equipe de campanha e seus militantes para fazer seu discurso após o fracasso do PS na eleição presidencial francesa daquele ano na qual ele, pela segunda vez, representava os socialistas. Jospin não esconde seu desapontamento com os resultados, afinal ele era primeiro-ministro até então e ainda por cima bem avaliado, toma a responsabilidade pela derrota e por final, se retira da vida política francesa.

28 de outubro de 2012. O tucano José Serra reúne sua equipe de campanha e seus militantes para discursar após a terceira derrota em eleições majoritárias nesta década. Após ter sido duas vezes derrotado na corrida presidencial, Serra desta vez perde para o novato Fernando Haddad na disputa da prefeitura paulistana. Serra discursa em consonância ao seu pronunciamento de 2010 (na sequência da derrota à também novata Dilma Rousseff): não se responsabiliza pela derrota, nem a lamenta profundamente, pelo contrário. Asfixiado, disse que saíra da eleição com ainda mais energia, mas que sinceramente não sabia no que empregá-la. Engana a si mesmo, e só.

Esse texto procura ajudar Serra a encontrar um bom emprego para tanta energia: largar a toalha e abandonar a política, uma tarefa que aliás, requer tamanha energia e que já devia ter sido tomada.

Se a derrota une José Serra a Lionel Jospin, a reação face a ela, os separa. Um reage respeitando a decisão dos eleitores, afinal democrática; outro não a aceita. Retirando-se da política, este avança; Enganado-se na posição de líder, o outro afunda.

A saída de Lionel Jospin não levou automaticamente os socialistas de volta ao poder na França, levaram, ao contrário, 10 anos mais para isso acontecer. Em 10 anos, Jospin tendo saído da vida política francesa e aberto mão da liderança dos socialistas, o PS se reestruturou, adotou novas políticas e abriu espaço para novos nomes. Em 2007 não suficiente, ainda teve de engolir outra dura derrota na presidencial, mas em 2012 deu a volta por cima, e com François Hollande – um nome desligado da era Jospin – retomou o Eliseu.

A esperada (achei ‘provável’ uma palavra muito forte em se tratando de José Serra) saída de Serra também não fará do PSDB vitorioso nas próximas eleições. Muita coisa precisa ser reconstruída. Certamente ainda há Aécio Neves, mas desde FHC o PSDB não faz que queimar seus grandes nomes (Serra de outrora, Alckimin e Aécio), enquanto que sem grandes nomes o PT se fortalece. No entanto, a saída de Serra é necessária: só assim, questões obscuras como o apoio de Silas Malafaia poderá ser revisto e só assim igualmente o partido estará descansado de ter que encontrar um novo cargo para Serra após cada derrota premeditada. Até o povo tucano gostaria que Serra surpreendesse à la Jospin.

Desde 2002, quando deixou a vida política, Lionel Jospin tem se dedicado a outras tarefas: escreve, constantemente é convidado a se exprimir em cadeias de rádio e televisão nacionais, participa dos grandes congressos do PS. Recuperou o devido respeito que qualquer derrota coloca em risco. Após o desmoralizante governo Sarkozy, o novo presidente François Hollande chamou Lionel Jospin para liderar uma comissão responsável justamente por moralizar a vida política. Honra recuperada! Exemplo (apesar de eu desconhecer  José Serra escritor) a ser seguido, ex-tudo Serra!

Em 2010, Serra disse que chegou ao final da campanha – que trouxera mais uma derrota – com a mesma energia com a qual a começara. Em 2012, repetiu – praticamente de forma idêntica – a frase. Errou e repetiu no erro. O PSDB afunda.

O PSDB afunda, resistirá por mais tempo que se esperava provavelmente (ainda tem cartas a queimar e eventualmente dá sorte em ressuscitar um tipo como Artur Virgílio ou ACM Neto). Mas, certamente desaparecerá. A derrota em São Paulo agrava ainda mais a situação e o PSDB começa o projeto 2014 não disputando com Dilma Rousseff o Palácio do Planalto, mas com Eduardo Campos a preferência dos analistas como maior desafiante ao poder petista.

Se o PSDB está nesta situação, muito se deve a Serra: duas derrotas presidenciais não podem ser relativizadas. E se Serra errou, é porque não quis ser Jospin: colocou sempre sua fixação em entrar para história como presidente acima do interesse de seu partido, de “seu povo”, e não desistiu; sequer mudou e apenas seguiu irresponsavelmente em frente. Cego, não olhou para o lado e não percebeu que pode-se entrar na história por vários motivos, como fez Jospin, que renunciou ao sonho e abriu espaço para o novo. Serra sufocou o PSDB, ao não dar espaço para o novo. Serra sufocou a democracia, ao se alinhar com as ideias mais conservadoras e reacionárias deste país transferidas pelo discurso fundamentalista evangélico. Serra sufocou a análise crítica, ao não reconhecer sua responsabilidade pela derrota. Serra sufocou a si mesmo. E morreu. No discurso da morte acenou com um “até logo” (2010), quando todos gritavam: Serra, seja Lionel Jospin!

Eu gostaria de ver José Serra ter a coragem de Lionel Jospin.
Ódio a Serra? Não, simplesmente muito carinho pela nossa frágil democracia, que tanto terá uma oposição fracassada, tanto terá um governo irresponsável. Serra, seja Jospin!
Amor a Serra? Tampouco, se aviso é porque simplesmente penso que Serra ainda não tenha tomado conta que a hora de se retirar da política passou. Prezo pela integridade da política: Serra, seja Jospin!

Serra, seja Jospin! Dê Adeus!


Links discursos relacionados:


Pronunciamento Jospin 2002 – Abandono da vida política (em francês) http://www.youtube.com/watch?v=Ux11q2LX4Ms


Oscar Berg,
Brésil, le 28 Octobre 2012


terça-feira, 15 de maio de 2012

A França vira a página Sarkozy


Depois de 17 anos, um socialista volta ao Palácio do Élysée


Da noite de festa do 6 de maio a manhã de 7 de maio, a França amanheceu um novo país, na passagem destes dois dias a França não apenas escolheu um novo presidente, mas um novo destino. O que esteve em jogo na eleição presidencial de 2012 dividida em dois turnos equilibrados e muito disputados foi muito maior que a vaga ao qual destinava-se o pleito. Esteve em jogo, mais do que nunca, o futuro da França, sua escolha entre conformismo ou desafio; divisão ou conciliação e - em momentos de crise da dívida, algo que faz muito sentido - austeridade ou crescimento. No momento em que François Hollande ascende ao topo do Estado Francês, a definição dos desafios acima torna a transição do conservador Sarkozy ao socialista Hollande não apenas uma simples alternância de poder mas uma verdadeira mudança, pois como nos dizia o slogan de François Hollande « A mudança é agora ».

Eu recebo os resultados da eleição presidencial francesa de 2012 mais como um grito de esperança que um grito de desconfiança no presidente Sarkozy. François Hollande conseguiu ao longo do período entre sua candidatura às primárias socialistas e ia vitória no último domingo aquilo que nenhum outro socialista francês havia conseguido desde Mitterrand em 1988: Suscitar a esperança. Certamente a crítica ao saldo do governo Sarkozy-Fillon passou pelo discurso de Hollande, mas não foi a desconfiança dos franceses em relação ao agora ex-presidente que fez o socialista vencer, no entanto, foi a capacidade de suscitar em seu eleitorado aquilo que ele mesmo chamou de « Rêve Français », ou seja, o ideal republicano em que é tornado possível a uma geração viver melhor que a sua predecessora.

Eu recebo o resultado da eleição presidencial francesa de 2012 como uma chance para a Europa. A crise européia atual é vista como uma crise da dívida pública, no entanto, antes disso, a crise européia é uma crise social e política ambas resguardando relações de causa consequência entre si. Social, pois a Europa vive a crise do modelo que criou e defendeu, aquele do bem-estar social. Política, pois esta crise é uma consequência do marasmo da social-democracia européia, que há anos não consegue traduzir as transformações do Sistema Internacional em reformas que continuem a deixar competitivo o sistema produtivo europeu e que deem continuidade ao welfare state como organização estatal de excelência de igualdade e justiça. A combinação das duas crises acima é o desemprego em massa das populações europeias e a desindustrialização contínua  do continente, o que por final emerge um novo risco à democracia e integridade do bloco da UE: o crescimento da extrema-direita.

Eleito em 06 de maio de 2012, com 51,7% dos votos, François Hollande, do Partido Socialista terá a sua frente grandes desafios a corresponder e promessas a cumprir. Sabemos de antemão que caso Hollande venha a falhar em algum dos dois pontos acima, a social-democracia européia terá perdido a chance que lhe foi conferida no último domingo de reerguer-se, e o voto contestatório da extrema-direita baterá a porta dos progressistas. O papel de Hollande na história portanto, transcende a eleição do último domingo e as fronteiras do Hexágono francês e apresenta-se – como ele mesmo declarou em seu discurso da vitória em seu reduto eleitoral, a pequena Tulle – como um alívio, uma esperança à Europa, um ponto final a ideia de que a austeridade é uma fatalidade.






quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Reação de FrancePo à publicação de VEJA - O Dilema de Hollande



     Na sua última edição (n° 2254, ano 35, n°5, dia 1° de fevereiro de 2012), a revista VEJA, revista semanal de maior circulação e repercussão do Brasil, agitou seus tambores e produziu sua primeira reportagem sobre a eleição presidencial francesa, há menos de 3 meses do primeiro turno. Face a afirmações imprecisas e incorretas, e a manipulação para que o leitor chegue a uma conclusão não-óbvia (e falsa), FrancePo torna público seu descontentamento com a falta de imparcialidade da principal publicação do país; acompanhe abaixo item a item o que VEJA publicou e o que é a verdade:

A) Uma imagem vale por mil palavras: Preste atenção nas fotos, a primeira mostra o candidato socialista (PS) François Hollande (que pelo cenário provavelmente tenha sido tirado durante o comício de Bourget - subúrbio parisiense - que reuniu 25 simpatizantes do candidato do Partido Socialista e do Partido Radical da Esquerda), a outra mostra o presidente francês Nicolas Sarkozym da direitista UMP (União por um movimento popular), provavelmente em mais um encontre de cúpula da UE, que não chega a propor soluções a crise da zona do euro.

Agora, analise a foto escolhida por VEJA para mostrar pela primeira vez ao Brasil o candidato socialista: a foto dá a impressão de ele estar sendo bombardeado por jornalistas com perguntas sobre a crise da zona do euro, dado ao aparente nervosismo de Hollande que a foto conseguiu captar; suas mãos abertas e a testa enrugada dão mostras que ele não está conseguindo convencer ninguém e nem a ele mesmo, tanto as mãos como a testa evidenciam também a incerteza, o vazio, a desconfiança. Os olhos arregalados não indicam que François tenha certeza daquilo que está falando, e que nem ele veja uma saída para a crise. As narinas mais abertas que o normal evidenciam que falta ar à François para continuar no debate, não conseguindo nem ele respirar face a inúmeras perguntas sobre a crise, a perda do triplo A, desemprego em massa, etc. A boca desta forma, aparece como uma cereja no bolo, dando a entender o tanto atrapalhado que ele está, contando mais mentiras sobre a situação da França. Segunda parte do exercício, como uma imagem vale por mil palavras, veja o vídeo abaixo do encerramento do discurso de François em Bourget e tire suas próprias conclusões. Provavelmente você perceberá que o que não falta ali é determinação, esperança, confiança e certeza. 



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     Agora, vamos a segunda foto: e que surpresa, ela mostra um presidente forte, conciso. Seus punhos fechados mostram a força com a qual a França vem enfrentando a crise, as pálpebras milimetricamente arregaladas evidenciam a determinação do Presidente em lutas pelo melhor dos franceses. Os olhos, mirando um lugar fixo, são uma prova da determinação e perspicaz de Sarkozy, o lugar que ele mira é a saída da Europa da crise, que ele e Angela Merkel juntos alcançarão. Mais uma vez vamos para a segunda parte do exercício, veja na imagem abaixo alguns dados do quinquenato de Nicolas Sarkozy.




Destaques:
*612 bilhões de euros em dívidas suplementares desde o início do mandato;
*Menos 750 mil empregos na indústria em 10 anos de governo da direita;
*1 milhão de novos desempregados em cinco anos;
*330 mil novos pobres em cinco anos;
*Nenhum excedente comercial em 10 anos de governo de direita;
*Déficit comercial de 75 bilhões de euros em 2011, recorde absoluto;
*Aumento de 107% do preço dos imóveis;
*80 mil postos de empregos suprimidos na Educação pública;
*24 novas taxas e 75 bilhões de euros em nichos fiscais.

Conclusão: VEJA utilizou-se do recurso da imagem para passar uma imagem falsa, e até invertida, dos dois candidatos. Procurou descreditar o determinado socialista e atenuar o fracasso da direita há dez anos no poder e de Sarkozy há cinco anos no Élysée.

B) Texto: VEJA x Realidade

"François Hollande era tido como o picolé de chuchu da disputa pela presidência da França"
Eu acompanho a mídia francesa (de Figaro a Libération, Le Parisien a Nouvel Observateur) e não vi em nenhum lugar alguém acusar Hollande de picolé de chuchu, nem mesmo nas páginas do L'Humanité, o jornal mantido pelo Partido Comunista. Aliás, o único lugar onde eu vi Hollande ser chamado de chuchu foi nas páginas de VEJA em 27/07/2011. A única crítica que havia em relação a Hollande era que ele não estava suficientemente à esquerda (uma crítica interna no PS), que caiu por terra com o comício de Bourget (levado à alma da esquerda).

"Ele só se tornou candidato do Partido Socialista depois que o preferido, o ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) Dominique Strauss-Kahn, foi preso"
Um pouco de respeito e meritocracia à François Hollande caberia bem para a VEJA. François Hollande anunciou sua candidatura às Primárias Socialistas em 31/03/2011: "[...]j'ai décidé de présenter ma candidature à l'élection présidentielle à travers la primaire du Parti Socialiste"1 ("Eu decidi apresentar minha candidatura à eleição presidencial através as primárias do PS"), antes disso ainda, François já havia falado de sua vontade de concorrer em 2010 para a rádio RTL2 e em 23/03/2011  em entrevista ao jornal Échos que se ele se candidatasse às primárias seria para vencê-las. Sobre o mérito à vitória de Hollande, gostaria de ressaltar um outro ponto: após DSK sair da disputa, a candidata favorita era Martine Aubry, primeira-secretária do PS, que havia acordado com DSK que na impossibilidade de um concorrer o outro concorreria, disto concluímos que Hollande correu sempre por fora na disputa, uma vez que não é ligado a corrente dominante do PS. Outro fato que merece ser esclarecido: Dominique Strauss-Kahn já havia concorrido às primárias do PS em outra ocasião (2007) na qual perdeu a indicação para Ségolène Royal.Portanto, o que garantia que desta vez o chefão do FMI ganharia?

"[...] Nicolas Sarkozy, que tentará a reeleição no próximo dia 22 de abril" 
Por mais óbvia que possa parecer a informação, ela está errada: Nicolas Sarkozy ainda não anunciou sua candidatura, e há setores de sua UMP que defendem que seu candidato seja o ministro de relações exteriores e assuntos europeus, Alain Juppé (ligado ao ex-presidente Jacques Chirrac, do qual Nicolas Sarkozy é desafeto) ou ainda o atual Primeiro Ministro, François Fillon, ambos têm índices de aprovação mais positivos que Sarkozy. Jean-François Copé, número 1 da UMP é um nome que corre por fora.

"segundo uma sondagem do instituto francês CSA, 31% dos eleitores pretendem votar no socialista, e 25% no presidente (na pesquisa anterior, Hollande ganhava por 29% contra 26%). Assustado com o avanço do adversário, dois dias depois Sarkozy apelou para a tática do tudo ou nada"
Mais que o leitor de VEJA, o leitor de FrancePo vem acompanhando as sondagens desde o processo de primárias do Partido Socialista, as Primaires Citoyennes, e sabe que François Hollande já esteve muito acima da casa dos 30% e conheceu nos últimos meses uma ligeira queda, a recente alta de Hollande deu-se com o retorno a pleno vapor da campanha (comício de Bourget), ou seja, a recente alta foi um retorno a um padrão que vinha sendo repetido nos últimos meses, o socialista acima dos 30%. Acompanhe na tabela abaixo, as últimas pesquisas do instituto CSA:



 2011
 2012
 Jun
Jul 
 Ago
 Set
 Out*
 Nov
 Dez
 Jan
 Jan**
 F. Hollande
 27
 26
 27
 28
 35
 34
 32
 29
 31
 N. Sarkozy
 23
 26
 26
 24
 25
 27
 26
 26
 25

* Primárias do Partido Socialista/Partido Radical de Esquerda
**Sondagem após o Comício de Bourget

Assustado, é a última coisa que Sarkozy está, ele sabe muito bem que com 25% dos votos no primeiro turno pode muito bem sair vitorioso no segundo, isto depende de duas coisas articuladas uma à outra:

1) Uma pequena quantidade de votos das outras candidaturas de esquerda no primeiro turno (Jean-Luc Mélenchon, Partido da Esquerda/Partido Comunista; Eva Joly, Partido Verde; outras candidaturas menores: trotkistas, altermondistas, e outros) não daria um grande impulso a candidatura socialista no segundo turno, correndo o risco de repetir a eleição de 1995 na qual o socialista Lionel Jospin venceu o primeiro turno mas sem a força de outras candidaturas de esquerda perdeu o segundo turno para Jacques Chirac que ganhou o apoio do terceiro colocado, o centrista Édouard Balladur.

2) Votação expressiva das diversas candidaturas de direita, Dominique de Villepin, Christine Boutin, Frédéric Nihous, Nicolas Dupon-Aignan e Hervé Morin (creditadas entre 0,5 e 1,0% cada, o que pode render 5% à Sarkozy), do candidato do centro, François Bayrou (MoDem - 11% na última pesquisa CSA) e de extrema-direita Marine le Pen (FN - 17% na última pesquisa CSA) que tendem a ceder mais votos a Sarkozy que a Hollande no segundo turno.

Neste sentido, a declaração de Sarkozy de que se ele não ganhasse as eleições em maio ele abandonaria a vida política foi um golpe eleitoral. Baixo, diga-se de passagem.

C) Revendo conceitos

"O dilema Hollande"
Dilema: Situação embaraçosa com duas saídas difíceis ou penosas.
Respeitando o significado acima, trazido do dicionário, consigo me lembrar do Dilema do Prisioneiro, do Dilema de Segurança (das aulas de Introdução às Relações Internacionais) ou ainda do Dilema de Tecnologia (das aulas de teoria). Não consigo enxergar nenhum dilema por trás de candidatar-se, apresentar um projeto e debatê-lo. Em tempo, o título deve ser um resumo do conteúdo, assim não encontrei em nenhum lugar do texto que explique o que seria "o Dilema Hollande".

"O favorito à Presidência Francesa quer taxar os ricos para reduzir a dívida pública, mas só populismo não resolve"
VEJA precisa rever urgentemente seu conceito de populismo.

CONCLUSÃO

     Ter um engajamento internacionalista, o que diferente de apenas ser um internacionalista - profissional de Relações Internacionais - significa lutar para que a solidariedade, democracia, liberdades e justiça sejam desfrutadas a nível mundial. Hoje, identifico que para alcançarmos isto, somado a igualdade em escala internacional, precisamos de políticos e políticas engajados nestas lutas, por isto do meu carinho e engajamento pela Internacional Socialista, pelo Partido Socialista Francês e sobretudo a François Hollande. Por mais bela que possa parecer esta ideia de igualdade a nível internacional, tenho plena convicção que existem muitos dispositivos com o objetivo de impedi-la e um deles é a mídia e seu poder de manipulação e condução da conscientização que ela exerce.
     Antes que qualquer um possa lembrar que temos liberdade de expressão, que a mídia (felizmente) tem liberdade para falar sobre o que quiser, e que nós, leitores, temos plena liberdade de escolhermos o que queremos ler, e nesse sentido, VEJA dispõe de liberdade para publicar o que bem entender, procuro lembrar que a liberdade para a mídia, não é um fim, apenas um começo. Esta liberdade deve sr sempre seguida de imparcialidade, justiça e verdade, pois estes sim são meios-fim. Assim, lamento o exercício de manipulação que VEJA fez com a reportagem "O dilema de Hollande" ao passar uma imagem falsa e imprecisa da situação que a França vive hoje. Gostaria de ressaltar a gravidade disto, uma vez que a reportagem que trouxe muito mais uma opinião do que uma informação, ocorre exatamente na primeira reportagem da publicação mais importante do Brasil dedicada às eleições francesas, ou seja, bem no momento em que milhões de brasileiros tem o primeiro contato com François Hollande. Tudo isto é lamentável.

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Bônus

     Pelo menos a cada 5 ou 7 anos, VEJA agita seus tambores para passar uma imagem imprecisa do Socialismo Francês, que já foi inclusive objeto de admiração e análise de nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em "América Latina e o Novo Socialismo Francês (1982). Vamos rever abaixo algumas reportagens de VEJA sobre o PS:  

*2011 - Primárias Socialistas: Ao invés de ressaltar o caráter democrático e inovador das primárias do PS, VEJA preferiu continuar acusando DSK de estupro e seguir a linha do jornalismo de revista de fofocas. Na única reportagem dedicada às primárias, VEJA chamou o então candidato François Hollande de chuchu. Para uma revista que defendeu Aécio Neves em sua capa em semana eleitoral, chamar François Hollande de insosso é falta de espelho nos escritórios do editorial.


Como se diz chuchu com sotaque de Minas? Insosso quem? Hollande em quem VEJA bate, ou o sem graça Aécio Neves, menina dos olhos de VEJA.



*2007 - O assunto principal da eleição era a imigração e a estagnação que a França se encontrava com um Presidente de direita desde 1995 no poder, mas VEJA preferiu focar no 'asistencialismo' de Ségolène Royal. VEJA e a maioria dos franceses aceitou a ideia de trabalhar mais para ganhar mais de Sarkozy, hoje com o desemprego nas alturas, trabalhar se tornou uma grande dificuldade.








*1978 - Para o alívio de VEJA, o realismo-socialista triunfante nas letras e nas artes não ocorreu, demoraria mais 3 anos até a vitória de Mitterrand. Com isso graças a sabedoria da direita triunfante, nem Pierre Cardin, nem Yvez Saint-Laurent foram enviados para campos de reeducação. Apenas para lembrar: nada disto ocorreu com a vitória dos socialista em maio de 1981 e mais: foram os socialistas que aboliram a pena de morte na França neste mesmo ano.



Da próxima vez que VEJA se manifestar sobre as eleições franceses fique atento ;)


Brasil, 31/01/2012
Oscar Berg