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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A França abalada

        
Manifestação na Praça da República, em Paris

      Passadas mais de 24 horas do atentado terrorista na redação do Charlie Hebdo se os franceses continuam em um perfeito estado de união nacional, os partidos políticos, por sua vez, tentam canalizar o sentimento de comoção em ganhos eleitorais. Nada de assustador para um país que está, desde o primeiro semestre de 2014, precipitadamente mergulhado na campanha da eleição presidencial que ocorrerá somente em 2017. Os movimentos dos partidos franceses dizem muito sobre as estratégias que serão mise en place na próxima campanha presidencial: de um lado teremos a Frente Nacional (FN) que poderá encontrar na situação atual da França um contexto perfeito para avançar seu discurso anti-imigrante, islã ou União Europeia, a tríade preferida de Marine Le Pen e se papa Jean-Marie. De outro lado, temos tanto o Partido Socialista (PS) como a União por um Movimento Popular (UMP) que perceberam desde já que caberá a apenas um deles confrontar Le Pen no segundo turno da presidencial de 2017, a exemplo do que ocorreu em 2002 quando Chirac contou com o apoio dos socialistas eliminados no primeiro turno contra a FN, e, portanto, devem dar mostras de suas capacidades de falar em nome da união dos franceses republicanos.
           
            As explicações da precipitação dos franceses em uma campanha eleitoral que deveria começar apenas em dois anos se encontram na própria situação política local. De um lado, François Hollande é abertamente contestado, contudo, de outro lado, a oposição oficial ao poder socialista, representada pela UMP, não inspira nenhuma confiança junto ao eleitorado francês. Acredita-se que apesar da agravação da situação econômica e social sob a presidência de Hollande, Nicolas Sarkozy não faria melhor, tendo sido ele o criador de muitos dos impasses que assolam hoje a França. É preciso dizer igualmente que a UMP está completamente desestabilizada em função de graves problemas financeiros e da disputa interna pelo poder (longe de ter encontrado seu capítulo final na recente eleição de Sarkozy a presidência do partido). Nesse cenário de crise das famílias políticas que representam desde o advento da quinta República – a República Gaullista – em 1958 os polos de poder, percebemos uma reorganização do tabuleiro político com a FN se tornando o “primeiro partido francês”, slogan cunhado por Marine Le Pen após a vitória de seu partido nas eleições europeias de maio de 2014.

Para Marine Le Pen, sua Frente Nacional é o primeiro partido da França.
Os acontecimentos de quarta-feira podem ajudar a extrema-direita francesa?


              A França se já não suficientemente abalada pelas consequências da barbárie do ataque terrorista de quarta-feira vive uma grave crise político-institucional cujo sinal flagrante é a precipitação do debate em torno da sucessão presidencial. Na conjugação destes dois cenários percebemos as condições para que se opere o reordenamento deflagrado pelos sucessivos sucessos da Frente Nacional, de onde se explicaria a excitação dos partidos políticos franceses. Dentre as possibilidades que se oferecem aos franceses, destaca-se, aquela da FN tornar-se, de fato, o maior partido do país, colocando sua candidata no segundo turno da eleição presidencial com chances de vitória; e a instauração de uma frente republicana com a união da direita e da esquerda parlamentar no segundo turno da eleição presidencial de 2017 para conter a escalada da extrema-direita. A escolha dos franceses dirá muito sobre a reflexão em torno do ataque de ontem e da resposta a ser dada ao terrorismo. De um lado há a proposta de combate ao fundamentalismo com mais intolerância e, de outro, uma defesa dos valores fundamentais da França, como a laicidade, alvo dos terroristas.

            Patrick Besson, em sua coluna na revista Le Point de 12 de junho de 2014 afirmou que “certamente Hollande será reeleito daqui três anos”. O jornalista imagina um cenário com Marine Le Pen com 24% dos votos no primeiro turno, Hollande com 22% ou 23% e Nicolas Sarkozy com 14% ou 15%. É evidente que a estratégia traçada por Hollande em 2012 (Reformas – Gestão – Resultados) não tem encontrado sucesso: a amplitude das reformas é criticada à esquerda e à direita; a sua gestão foi abalada pela explosão de escândalos envolvendo, dentre outros, a vida privada de François Hollande; e, finalmente, os resultados dificilmente serão atingidos, o prometido déficit de 3% em 2015, notadamente, não poderá ser alcançado e os franceses deverão esperar mais para o equilíbrio orçamentário. Contudo, Hollande ainda pode esperar ser reeleito. Muito mais que a recente reconciliação com a base socialista, uma resposta adequada aos trágicos acontecimentos que abalam a França poderá lançar o presidente como único capaz de falar em nome de todos os franceses, um papel essencial para vencer sob o nome dos republicanos, a extrema-direita fascista em 2017. Como previu Besson, todos estarão com Hollande para salvar, uma vez mais, a República.

Oscar Berg,

08/01/2015

terça-feira, 2 de julho de 2013

François Hollande demite a Ministra da Ecologia

Delphine Batho, demitida nesta terça-feira do Ministério da Ecologia, Desenvolvimento Sustentável e Energia

            Após criticar o orçamento de seu ministério, Delphino Batho, então ministra da Ecologia, foi convocada ao Palácio de Matignon para uma reunião a portas fechadas de duas horas com o Primeiro-Ministro, Jean-Marc Ayrault, e viu suas funções serem encerradas pelo Presidente, François Hollande, através do seguinte comunicado do Eliseu:

            “Após proposta do Primeiro-Ministro, o Presidente da República pôs fim às funções de Delphino Batho e nomeou Philippe Martin, ministro da Ecologia, do Desenvolvimento Sustentável e da Energia”.

           Philippe Martin, que comemorará 60 anos em novembro, é deputado na Assembleia Nacional pelo departamento de Gers. Ele é membro do Partido Socialista (PS) e participa da Comissão de Desenvolvimento Sustentável e Ordenamento do Território da Assembleia.

           Delphine Batho foi demitida após criticar publicamente os cortes orçamentários de seu ministério para o ano de 2014 em uma emissão da rádio RTL: “Este é um péssimo orçamento”. Batho foi ainda além ao propor que as seguintes questões deveriam ser feitas: “A Ecologia é mesmo uma prioridade?” e; “Será que temos a capacidade de passar do discurso aos atos?”. Delphine Batho era próxima de Ségolène Royal, ex-candidata a presidência (2007) e Presidente do Conselho Regional de Poitou-Charentes, onde empreende grandes projetos de desenvolvimento sustentável.



           O Ministério da Ecologia é uma das pastas ministeriais que mais sofreu com o corte orçamentário que o governo pretende realizar no próximo ano, com queda de 7% de seus créditos. A ex-ministra lamentou o corte em um momento de “decepção com o governo”. A demissão da ministra foi comemorada em alguns círculos do PS que vêem no ocorrido uma recuperação da autoridade do Presidente François Hollande e do Primeiro Ministro Jean-Marc Ayrault nas decisões do governo. Os demais partidos de esquerda, contudo, lamentaram a decisão do Presidente e saudaram a coragem de Batho. Contudo, os verdes (EELV) decidiram, até este momento, continuar no governo. A direita aproveitou a situação para lembrar que Martin será o terceiro ministro da ecologia em quatorze meses de governo (Nicole Bricq cedeu lugar à Dephine Batho na reforma ministerial após as eleições legislativas de 2012. A Frente Nacional (extrema-direita) lamentou a “total desinteresse do governo nas questões ambientais”.

           A expectativa é de que o novo ministro da Ecologia, Philippe Martin, possa realizar um trabalho mais engajado, pois as questões ambientais interessam cada vez mais os franceses e o Presidente Hollande é acusado de não dar atenção suficiente a essa agenda.

Oscar Berg,

2 de julho de 2013.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A França vira a página Sarkozy


Depois de 17 anos, um socialista volta ao Palácio do Élysée


Da noite de festa do 6 de maio a manhã de 7 de maio, a França amanheceu um novo país, na passagem destes dois dias a França não apenas escolheu um novo presidente, mas um novo destino. O que esteve em jogo na eleição presidencial de 2012 dividida em dois turnos equilibrados e muito disputados foi muito maior que a vaga ao qual destinava-se o pleito. Esteve em jogo, mais do que nunca, o futuro da França, sua escolha entre conformismo ou desafio; divisão ou conciliação e - em momentos de crise da dívida, algo que faz muito sentido - austeridade ou crescimento. No momento em que François Hollande ascende ao topo do Estado Francês, a definição dos desafios acima torna a transição do conservador Sarkozy ao socialista Hollande não apenas uma simples alternância de poder mas uma verdadeira mudança, pois como nos dizia o slogan de François Hollande « A mudança é agora ».

Eu recebo os resultados da eleição presidencial francesa de 2012 mais como um grito de esperança que um grito de desconfiança no presidente Sarkozy. François Hollande conseguiu ao longo do período entre sua candidatura às primárias socialistas e ia vitória no último domingo aquilo que nenhum outro socialista francês havia conseguido desde Mitterrand em 1988: Suscitar a esperança. Certamente a crítica ao saldo do governo Sarkozy-Fillon passou pelo discurso de Hollande, mas não foi a desconfiança dos franceses em relação ao agora ex-presidente que fez o socialista vencer, no entanto, foi a capacidade de suscitar em seu eleitorado aquilo que ele mesmo chamou de « Rêve Français », ou seja, o ideal republicano em que é tornado possível a uma geração viver melhor que a sua predecessora.

Eu recebo o resultado da eleição presidencial francesa de 2012 como uma chance para a Europa. A crise européia atual é vista como uma crise da dívida pública, no entanto, antes disso, a crise européia é uma crise social e política ambas resguardando relações de causa consequência entre si. Social, pois a Europa vive a crise do modelo que criou e defendeu, aquele do bem-estar social. Política, pois esta crise é uma consequência do marasmo da social-democracia européia, que há anos não consegue traduzir as transformações do Sistema Internacional em reformas que continuem a deixar competitivo o sistema produtivo europeu e que deem continuidade ao welfare state como organização estatal de excelência de igualdade e justiça. A combinação das duas crises acima é o desemprego em massa das populações europeias e a desindustrialização contínua  do continente, o que por final emerge um novo risco à democracia e integridade do bloco da UE: o crescimento da extrema-direita.

Eleito em 06 de maio de 2012, com 51,7% dos votos, François Hollande, do Partido Socialista terá a sua frente grandes desafios a corresponder e promessas a cumprir. Sabemos de antemão que caso Hollande venha a falhar em algum dos dois pontos acima, a social-democracia européia terá perdido a chance que lhe foi conferida no último domingo de reerguer-se, e o voto contestatório da extrema-direita baterá a porta dos progressistas. O papel de Hollande na história portanto, transcende a eleição do último domingo e as fronteiras do Hexágono francês e apresenta-se – como ele mesmo declarou em seu discurso da vitória em seu reduto eleitoral, a pequena Tulle – como um alívio, uma esperança à Europa, um ponto final a ideia de que a austeridade é uma fatalidade.






segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Um início de campanha complicado à François Hollande

Semana conturbada ao socialista François Hollande premia Sarkozy com uma clivagem nas sondagens.
Nicolas Sarkozy, mesmo desmoralizado, sobe nas pesquisas. É o efeito Zapatero ao contrário
As pesquisas de intenção de voto ainda apontam o candidato socialista François Hollande como vencedor com uma larga vantagem em relação a Nicolas Sarkozy, no entanto o chefe de Estado francês foi premiado com uma elevação das intenções de voto nele, em uma semana conturbada a Hollande e ao Partido Socialista, que acaba de fechar um acordo com a EELV (Europe Écologie Les Verts), o Partido Verde francês.

FH, duramente criticado por sua esquerda
Para Jean-Luc Mélenchon (Front de Gauche) : Hollande, um capitão de pedalinho
A declaração que dominou as principais páginas dos jornais franceses e a à La une de seus sites foi a declaração do candidato esquerdista à presidência Jean Luc Mélenchon (Front de Gauche, da qual faz parte o Partido de Esquerda, criado por Mélenchon, e o Partido Comunista Francês) deu a imprensa: “François Hollande é um capitão de pedalinho em meio a tempestade”
Esta semana, muito importante ao deputado da Corrèze por ele finalmente ter apresentado sua equipe de campanha, reservou ainda mais críticas. Jean Luc Mélenchon, mais uma vez, acusou Hollande de adotar uma linha centrista e manter uma obstinação social-liberal. A equipe de Hollande também foi duramente criticada, muitos franceses enxergam Hollande cada vez mais ligados à uma linha centrista e à direita do PS, ao adotar nomes como Manuel Valls, Pierre Moscovici e Julien Dray. A posição de Hollande em relação ao nuclear também ajudou-o a receber críticas, desta vez pela parte dos verdes (EELV) e do comitê central do PS que continuava a época em negociação com os verdes (os quais cobravam dos socialistas uma posição mais clara sobre a saída do nuclear), o deputado da Corrèze defende claramente (desde as primárias) uma saída do nuclear de 75% para 50% até 2025 (os verdes querem mais, ou seja, total).

Acordo PS-EELV: mais um nicho para críticas ao programa socialista?
As últimas notícias nos dizem que o acordo entre o Partido Socialista (PS) e o partido Verde (EELV) vinha sendo tratado há um bom tempo, especialmente desde que foram montados grupos de trabalho entre representantes do PS e da EELV sobre diversos assuntos. As negociações que se entenderam “oficialmente” por diversas semanas iam bem até o chegar da discussão de um assunto muito importante aos verdes: o nuclear.
Defensores da saída total do nuclear (como a Alemanha de Merkel anunciou que fará até 2022), os verdes encontraram muitos convergentes à política desejada pelos socialistas para o abandono da tecnologia nuclear, pois diferentemente dos verdes, o Projeto Socialista para 2012 (Le Changement, disponível no site do PS) não fixa um porcentagem da dependência nuclear que deverá ser deixada de lado, apenas que novas energias renováveis deverão ser melhor exploradas a fim de realizarmos a transição nuclear, pois ainda conforme o Projeto, abandonar o nuclear, não é apenas deixar de lado a geração deste tipo de energia, mas também toda a sua indústria (Areva, etc.) e todo o savoir-faire (know-how à francesa) adquirido desde os anos 70, quando o nuclear passou a ser o centro da matriz energética francesa, e isto, em última análise, seria aumentar ainda mais a desindustrialização da francesa e milhares de trabalhadores abandonados ao desemprego.

Nos anos 70 a França optou pelo Nuclear, e nele entrou de cabeça, 42% da produção européia é francesa, mesmo com o esforço francês a quantidade não tende a diminuir, já que em todo o continente o setor nuclear é de pouco em pouco abandonado.
Nesta semana, no entanto o PS chegou a um acordo com a EELV, no qual – entre diversas outras ações políticas – decidiu-se por diminuir a dependência francesa em relação ao nuclear de 75% a 50% até 2025 (mesma proposta que François Hollande defende desde sua campanha nas Primaires Citoyennes) e o fechamento de 24 reatores. Todas as propostas deste acordo podem ser encontradas no link fornecido no final desta postagem.

O Nuclear é onipresente na França hoje : 75% da matriz energética e 58 reatores. Segundo o acordo PS-EELV, a dependência irá diminuir para 50% e 24 reatores serão fechados.
 Como se esperava, o acordo PS-EELV abriu espaço para muitas críticas da direita pela política adotada pelo PS. Como já dizia François Mitterrand em sua obra Ici et Maintenant (1980) (No Brasil chamado de “Aqui e Agora” e facilmente encontrável em um sebo ou no Mercado Livre) o PS enfrenta uma dupla concorrência sobre o nuclear: seja o tudo da direita ou o nada dos ecologistas. Incrivelmente, mais de 30 anos depois o debate e as posições restam as mesmas, mas desta vez, parece o PS ter cedido demais aos verdes, tendo alguma parte do eleitorado socialista temer que os verdes possam em um futuro próximo fazer o mesmo que ops próprios socialistas fizeram com os comunistas nos anos 70 e 80 através de diversos acordos, como o Programa Comum, de 1972.

Hollande ainda na frente, mais com uma vantagem menor.
Não suficiente dura, a semana de François Hollande foi “premiada” com uma queda considerável nas pesquisas de intenção de voto. Conforme mostrado aqui em 20/10/2011, o candidato socialista dispunha de 35% das intenções de voto contra atuais 34%, seu provável adversário Nicolas Sarkozy, ficaria com 27% dos votos, 2 suplementares em relação a última pesquisa, conforme uma pesquisa da CSA realizada entre 14-15 Novembro tendo consultado 1001 pessoas. Ainda mais preocupante que a sondagem da CSA, foi a sondagem da LH2 que mostrou, como bem sublinhou a mídia francesa, um Hollande em queda e um Sarkozy subindo nas pesquisas:

“Nicolas Sarkozy continua sua subida e encosta em um Hollande que perde seu fôlego” (TF1.fr)

“Nicolas Sarkozy confirma seu retorno às sondagens face à um François Hollande em evidente queda” (France Soir)

“O Presidente da República estaria nos calcanhares de François Hollande (30%, -9pts.) somando 29% das sondagens” (Le Parisien)

“Hollande e Sarkozy disputam cotovelo a cotovelo o 1° turno” (Libération)

Segundo a LH2, Hollande não teria mais que 30% dos votos, ao passo que o presidente Sarkozy encostaria nele com 29% das intenções, no entanto, no 2° turno os socialistas ainda venceriam, com 58% dos votos contra 42%, mantendo o score que vinha fazendo nas últimas pesquisas. A pesquisa de LH2 foi menor, realizada com cerca de 600 pessoas (environ 600, conforme a ficha técnica da pesquisa). Veja uma tabela resumindo as pesquisas da CSA e da LH2 da última semana:



Candidato
1  Turno
2° Turno
Pesquisa
Intenção (%)
Relação out/2011
Intenção (%)
Relação out/2011
François Hollande (PS)
CSA
34*
(-1)      ↓
59
(-3)  ↓
LH2
30*
(-9)      ↓
58
(-2)  ↓
Nicolas Sarkozy (UMP)
CSA
27*
(+2)     ↑
41
(+3) ↑
LH2
29*
(+5)     ↑
42
(+2) ↑
Marine Le Pen (FN)
CSA
16
(±0)       -

LH2
15
(+1)     ↑

François Bayrou (MoDem)
CSA
7
(-2)      ↓

LH2
7
(-1.5)  ↓

Jean-Luc Mélenchon
(Front de Gauche:PG/PCF)
CSA
5
(±0)      - 

LH2
7
(+0.5) ↑

Eva Joly (EELV – Verts)
CSA
4
(+1)     ↑

LH2
6
(+1)     ↑

Outros
(Jean-Pierre Chevènement, Dominique de Villepin, Nathalie Artahud, Hervé Morin, etc.)
CSA
7
(-1)      ↓

LH2
6
(+3)     ↑





Sondagem CSA (14-15/Novembro 2011)






Sondagem LH2 (20/Novembro 2011)



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Pesquisas de Intenção de Voto CSA Novembro/2011
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Pesquisa de Intenção de Voto LH2 20/11/2011
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Principais pontos do Acordo PS-EELV

Oscar Berg,
Brésil, le 21 Novembre 2011




quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O ex-socialista Jean-Pierre Chevènement anuncia sua candidatura à presidência


Mais uma candidatura da esquerda não assusta os socialistas, mas o risco do Abril de 2002 ainda é latente


Na conturbado semana da reunião do G20 em Cannes, a disputa pela Presidência francesa ganhou mais um concorrente nesta semana: o senador de Belfort, ex-membro do PS e atual presidente de honra do MRC (Mouvement Républicain Citoyen – Movimento Republicano Cidadão) Jean-Pierre Chevènement.
                A candidatura de Chevènement chegou em um momento ruim ao PS, ao mesmo tempo que mais uma candidatura no campo da esquerda é anunciada (somando-se as já declaradas de Jean-Luc Mélenchon, ex-PS representando a Front de Gauche, Éva Joly pelos Verdes e François Hollande pelos socialistas), representando o risco de uma esquerda desunida (como veremos abaixo as conseqüências em 2002), começam a surgir as primeiras turbulências na campanha de Hollande e eventos ruins vindos do exterior podem manchar o projeto socialista para a França, sobretudo em relação ao primeiro-ministro grego Georges Papandréou, Presidente da Internacional Socialista, que na sequência de seu mal recebido plebiscito do pacote de salvamento da União Européia demitiu-se de seu cargo de chefe de governo. Os socialistas franceses se esforçam a passar a idéia de que o melhor seria se Chevenèment não se apresentasse, no entanto sua candidatura não deve atrapalhar os planos do PS para 2012.  
                O PS não lamenta a candidatura do ex-líder do CERES (Centre d’études, de recherches et d’éducation socialiste - moção da ala esquerda do PS no Congresso de sua fundação em Épinay (1971) que teve um papel muito importante quando François Mitterrand foi Primeiro-Secretário do PS e Presidente francês) até mesmo pois a candidatura de Chevènement não é nenhuma surpresa, em 2010 em um congresso do MRC, o partido já havia decidido apresentar um candidato próprio para 2012 (em 2007 o partido apoiou a socialista Ségolène Royal), e também Chevènement dava pistas de que iria se candidatar, dentre outras publicou o segundo livro em nove meses (na França, é tradição que todo candidato publique um livro-projeto quando de sua candidatura. OBS: O que é inimaginável no Brasil onde tantos candidatos que não sabem ler ou escrever se candidatam.... e se elegem) intitulado, Sortir la France de l'impasse (Tirar a França do impasse) (Fayard, 168 p., 12 euros).

Em 2007, o ex-socialista apoiou Ségolène Royal, agora Jean-Pierre Che decidiu-se pela candidatura própria, uma decisão que pode atrapalhar as ambições da esquerda francesa.
21 de Abril de 2002, um risco que não pode ser corrido.

                A transição ao século XXI e “a globalização deixou a esquerda sem alternativas” como disse o Editorial da Folha de São Paulo (3/6/1997). Movimentos socialistas e social-democratas de todo o mundo (à época do editorial da Folha, apenas Alemanha e Espanha não tinham governos de esquerda na Europa) estavam perdidos em suas reformas, muitas inclusive aplicando reformas tachadas de “neoliberais” (Fernando Henrique Cardoso, Tony Blair, Clinton, Lionel Jospin, etc.) , a eleição presidencial francesa de 2002 se anunciava, portanto difícil aos socialistas e a seu candidato, o primeiro-ministro (1997-2002) da coabitação com o gaullista Chirac (RPR), Lionel Jospin.

                Além dos problemas naturais do world time aos socialistas e social-democratas, Jospin enfrentou uma esquerda dividida na eleição de 2002, ao todo se candidataram outros 7 candidatos de esquerda: Arlette Laguiller (Lutte Ouvrière), Jean-Pierre Chevènement (RMC), Noël Mamère (Verdes), Olivier Besancenot (Anticapitalista), Robert Hue (Comunista Francês), Christiane Taubira (PRG - Radicais de Esquerda ) e Daniel Gluckstein (PT). A esquerda dividida permitiu que, pela segunda vez na Vª República, tivéssemos um segundo turno entre dois candidatos de direita (um moderado, por vezes chamado de centrista, e um convicto de direita), em 2002 no entanto, a situação foi ainda pior do que 1969 (Ver nota abaixo), pois na primeira eleição presidencial do séc. XX não tivemos um candidato moderado contra de direita, tivemos um candidato de direita contra um de extrema-direita; ultranacionalista, populista e xenófobo, Jean-Marie Le Pen (pai da atual candidata Marine Le Pen), obrigando os progressistas de esquerda a votarem no gaullista-conservador Jacques Chirac, para ‘evitar o mal maior’.

Jean-Marie Le Pen. A desunião da esquerda permitiu a temida ascensão da extrema-direita e a tomada do por sua parte do eleitorado operário/popular, tradicional base social dos socialistas desde a SFIO.
                Em 2002, caso Jean-Pierre Chevènement tivesse aberto mão de sua candidatura e se alinhado ao candidato do partido que acaba de deixar, Jospin teria acedido ao segundo turno e saído na primeira posição no primeiro turno, assim a história francesa poderia ter mudado e hoje não viveríamos sob a ameaça constante da extrema-direita, herdeira da surpreendente noite de 21 abril 2002.


Nota: Em 1969, eleição que decidiria o sucessor do General de Gaulle após sua demissão, os franceses tiveram a sua escolha sete candidatos, sendo cinco de esquerdas. Após a eleição de 1965, na qual a esquerda havia se unido em torno da candidatura de Mitterrand (derrota por De Gaulle no 2° turno), os partidos fortes de esquerda da época não chegaram a uma decisão: o PCF (primeira força da esquerda à época) não se acertou com os socialistas da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária - 1ª Internacional) nem com o PSU (Partido Socialista Unificado) de Michel Rocard. A desunião da esquerda abriu caminho para que Georges Pompidou (candidato direto à sucessão de De Gaulle) e Alain Poher (Presidente do Senado, candidato centrista) disputassem o segundo turno, vencido pelo candidato gaullista, Georges Pompidou.



Oscar Berg,
Brésil, Le 9 Novembre 2011