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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O ex-socialista Jean-Pierre Chevènement anuncia sua candidatura à presidência


Mais uma candidatura da esquerda não assusta os socialistas, mas o risco do Abril de 2002 ainda é latente


Na conturbado semana da reunião do G20 em Cannes, a disputa pela Presidência francesa ganhou mais um concorrente nesta semana: o senador de Belfort, ex-membro do PS e atual presidente de honra do MRC (Mouvement Républicain Citoyen – Movimento Republicano Cidadão) Jean-Pierre Chevènement.
                A candidatura de Chevènement chegou em um momento ruim ao PS, ao mesmo tempo que mais uma candidatura no campo da esquerda é anunciada (somando-se as já declaradas de Jean-Luc Mélenchon, ex-PS representando a Front de Gauche, Éva Joly pelos Verdes e François Hollande pelos socialistas), representando o risco de uma esquerda desunida (como veremos abaixo as conseqüências em 2002), começam a surgir as primeiras turbulências na campanha de Hollande e eventos ruins vindos do exterior podem manchar o projeto socialista para a França, sobretudo em relação ao primeiro-ministro grego Georges Papandréou, Presidente da Internacional Socialista, que na sequência de seu mal recebido plebiscito do pacote de salvamento da União Européia demitiu-se de seu cargo de chefe de governo. Os socialistas franceses se esforçam a passar a idéia de que o melhor seria se Chevenèment não se apresentasse, no entanto sua candidatura não deve atrapalhar os planos do PS para 2012.  
                O PS não lamenta a candidatura do ex-líder do CERES (Centre d’études, de recherches et d’éducation socialiste - moção da ala esquerda do PS no Congresso de sua fundação em Épinay (1971) que teve um papel muito importante quando François Mitterrand foi Primeiro-Secretário do PS e Presidente francês) até mesmo pois a candidatura de Chevènement não é nenhuma surpresa, em 2010 em um congresso do MRC, o partido já havia decidido apresentar um candidato próprio para 2012 (em 2007 o partido apoiou a socialista Ségolène Royal), e também Chevènement dava pistas de que iria se candidatar, dentre outras publicou o segundo livro em nove meses (na França, é tradição que todo candidato publique um livro-projeto quando de sua candidatura. OBS: O que é inimaginável no Brasil onde tantos candidatos que não sabem ler ou escrever se candidatam.... e se elegem) intitulado, Sortir la France de l'impasse (Tirar a França do impasse) (Fayard, 168 p., 12 euros).

Em 2007, o ex-socialista apoiou Ségolène Royal, agora Jean-Pierre Che decidiu-se pela candidatura própria, uma decisão que pode atrapalhar as ambições da esquerda francesa.
21 de Abril de 2002, um risco que não pode ser corrido.

                A transição ao século XXI e “a globalização deixou a esquerda sem alternativas” como disse o Editorial da Folha de São Paulo (3/6/1997). Movimentos socialistas e social-democratas de todo o mundo (à época do editorial da Folha, apenas Alemanha e Espanha não tinham governos de esquerda na Europa) estavam perdidos em suas reformas, muitas inclusive aplicando reformas tachadas de “neoliberais” (Fernando Henrique Cardoso, Tony Blair, Clinton, Lionel Jospin, etc.) , a eleição presidencial francesa de 2002 se anunciava, portanto difícil aos socialistas e a seu candidato, o primeiro-ministro (1997-2002) da coabitação com o gaullista Chirac (RPR), Lionel Jospin.

                Além dos problemas naturais do world time aos socialistas e social-democratas, Jospin enfrentou uma esquerda dividida na eleição de 2002, ao todo se candidataram outros 7 candidatos de esquerda: Arlette Laguiller (Lutte Ouvrière), Jean-Pierre Chevènement (RMC), Noël Mamère (Verdes), Olivier Besancenot (Anticapitalista), Robert Hue (Comunista Francês), Christiane Taubira (PRG - Radicais de Esquerda ) e Daniel Gluckstein (PT). A esquerda dividida permitiu que, pela segunda vez na Vª República, tivéssemos um segundo turno entre dois candidatos de direita (um moderado, por vezes chamado de centrista, e um convicto de direita), em 2002 no entanto, a situação foi ainda pior do que 1969 (Ver nota abaixo), pois na primeira eleição presidencial do séc. XX não tivemos um candidato moderado contra de direita, tivemos um candidato de direita contra um de extrema-direita; ultranacionalista, populista e xenófobo, Jean-Marie Le Pen (pai da atual candidata Marine Le Pen), obrigando os progressistas de esquerda a votarem no gaullista-conservador Jacques Chirac, para ‘evitar o mal maior’.

Jean-Marie Le Pen. A desunião da esquerda permitiu a temida ascensão da extrema-direita e a tomada do por sua parte do eleitorado operário/popular, tradicional base social dos socialistas desde a SFIO.
                Em 2002, caso Jean-Pierre Chevènement tivesse aberto mão de sua candidatura e se alinhado ao candidato do partido que acaba de deixar, Jospin teria acedido ao segundo turno e saído na primeira posição no primeiro turno, assim a história francesa poderia ter mudado e hoje não viveríamos sob a ameaça constante da extrema-direita, herdeira da surpreendente noite de 21 abril 2002.


Nota: Em 1969, eleição que decidiria o sucessor do General de Gaulle após sua demissão, os franceses tiveram a sua escolha sete candidatos, sendo cinco de esquerdas. Após a eleição de 1965, na qual a esquerda havia se unido em torno da candidatura de Mitterrand (derrota por De Gaulle no 2° turno), os partidos fortes de esquerda da época não chegaram a uma decisão: o PCF (primeira força da esquerda à época) não se acertou com os socialistas da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária - 1ª Internacional) nem com o PSU (Partido Socialista Unificado) de Michel Rocard. A desunião da esquerda abriu caminho para que Georges Pompidou (candidato direto à sucessão de De Gaulle) e Alain Poher (Presidente do Senado, candidato centrista) disputassem o segundo turno, vencido pelo candidato gaullista, Georges Pompidou.



Oscar Berg,
Brésil, Le 9 Novembre 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Dica de filme – Mort d’un Président (França/2011)

Dica de filme – Mort d’un Président (França/2011) 
 
A imagem acima, real, mostra a visita de Pompidou (à direita) e Nixon à Islândia, o evento é o primeiro a ser retratado no filme de Aknine.

               Bom, como todos estão percebendo muita coisa (ruim) está ocorrendo a Europa e a França tem sido o centro político de todos estes eventos: Cúpula de Bruxelas, G20, etc. As notícias tem sido muitas e impedem que um blog de análise possa, a todo o momento, escrever um artigo analisando todos os acontecimentos. Proponho portanto, um post diferente de todos os demais: uma dica de filme!
                Assunto, claro que não tem faltado então, porque um filme? Primeiro vou apresentar o filme, isso servirá de resposta à pergunta anterior. Mort d’un Président (França/2011 90min) retrata os últimos dias de vida do presidente francês Georges Pompidou, que governou a França entre 1969-1973 e foi um importante presidente para o país do Hexágono, coube a ele a difícil tarefa de ocupar a presidência após a saída do General De Gaulle em 1969. Mais do que apenas retratar aspectos pessoais da vida de Pompidou, o filme do diretor Pierre Aknine retrata um importante momento da vida política francesa: o surgimento da UDF (Union pour la Démocratie Française – União para a Democracia Francesa, antecessora da MoDem de François Bayrou, do qual nós falamos no post anterior) substituindo a gaullista UDR (Union des Démocrates pour La République - União dos Democratas para a República) como primeira força da direita francesa, um fenômeno comparável irá ocorrer apenas nos anos 70 e 80 na transição dos comunistas para os socialistas como primeira força da esquerda.


Chamada na France3 do filme Mort d’un Président (exibido em 12/04/2011, no Brasil o filme está em cartaz no canal pago TV5 Monde).

O poder pelo poder

                Tornando a coisa um pouco mais tropical, poderíamos comparar os últimos dias de Pompidou aos do nosso ex-vice-presidente Zé de Alencar? Não!
                Não, a resposta é simples, ao passo que nosso ex-vice tenha nos seus últimos dias e meses travado uma luta pela vida (o que não torna heróica a sua morte, apenas semelhante a de milhões de outros brasileiros), o ex-presidente francês travou uma luta pelo poder: por diversas vezes Pompidou declara a sua mulher, claramente a favor de sua saída do poder, que não poderia simplesmente deixar a presidência pois os franceses tinham esperanças em torno dele e o amavam, assim “como decepcioná-los?”
                Mais do que retratar o sofrimento pessoal de Pompidou e sua família, o filme tratou de retratar sua luta por indicar seu sucessor, de sua luta para permanecer até o final de suas capacidades frente ao poder e por imacular-se na lembrança nacional. Uma cena ímpar do filme é a negociação de Pompidou e seu escolhido à sucessão, Valéry Giscard d’Estaing (VGE) para que este último levasse adiante seu projeto de construir um centro multicural, o futuro Centre National d’art et de Culture Georges-Pompidou em Beaubourg/Paris. VGE se comprometeu com a idéia do presidente doente, levou a disputa por sucedê-lo e terminou por entregar o centro em 1977.

Jean-François Balmer interpreta o Presidente Pompidou. Na cena, a mídia começa a cobrir sua doença.

Não ao aventureiro Mitterrand: Chirrac, o futuro da República!

                De uma coisa eu fiquei convencido ao assistir Mort d’un Président, Jacques Chirac seria, mais cedo ou mais tarde, presidente da República. Em 1973, quando os problemas de saúde de Georges Pompidou se tornaram um problema de primeira ordem na agenda de seus conselheiros, Marie-France Garaud e Pierre Juillet, estes dois gaullistas de corpo e alma tornaram o então ministro da agricultura Jacques Chirac como sua grande vedete e principal nome a sucessão de Pompidou, o que não se concretizou apenas dado à obsessão de Pompidou em impedir sua nomeação e avançar na idéia de ter Giscard d’Estaing como sucessor. Chirac, conforme mostram as últimas imagens do filme seria nomeado Primeiro-Ministro de Valéry Giscard d’Estaing em 1974 (Chirac, um confesso gaullista seria primeiro-ministro outra vez entre 1986 e 1988 na era Mitterrand, antes de ser eleito presidente pela primeira vez em 1995). Outra cena memorável em relação a Jacques Chirac é o contragosto do então presidente Pompidou ao nomeá-lo Ministro do Interior (um dos ministérios mais importantes da República Francesa) em 1974, em uma aparente vitória de Garaud e Juillet.

Marie-France Garaud e Pierre Juillet, conselheiros de Pompidou tentam emplacar o jovem Chirac (abaixo à direita) como sucessor de Pompidou na presidência.
             Além de Chirac, outro futuro presidente francês que é retratado no filme é François Mitterrand, ainda que o presidente socialista não apareça pessoalmente no filme, seu nome é citado diversas vezes, sobretudo nas reuniões secretas promovidas pelo ministro Michel Debré. Mitterrand é também um personagem importante na “união” em torno do nome de Giscard d’Estaing (VGE), grupos gaullistas resistentes a Pompidou, como o liderado por Debré (inimigo de Pompidou dentro do espectro gaullista) aceitam o apoio a VGE,  ou um silencioso apoio ao ex-primeiro ministro Chaban-Delmas (rival da maioria dos gaullistas - candidato do centro à sucessão de Pompidou) para evitar a vitória do “aventureiro” Mitterrand.
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                Uma coisa que me ficou a mente com todas as intrigas, disputas de poder, confrontos de facções do partido ao olhar aos 90min de Mort d’un Président foi como deve ter se dado a corrida interna ao Partido dos Trabalhadores (Brasil) na sucessão de Luís Inácio da Silva. No final podemos perceber que, não importando ser de direita ou esquerda, o homem é sedento pelo poder, se ele não pode controlá-lo diretamente, logo trata de designar alguém próximo para mantê-lo. Esperemos que no Brasil a decisão de Lula tenha sido mais acertada do que a de Pompidou ao escolher Giscard d’Estaing. Por ora, queria que vocês analisassem o pequeno trecho da obra-prima terminal de George Orwell, 1984, no qual a personagem O’Brien, todo poderoso do partido dominante em Oceania, descreve seus objetivos e os do partido: 

“De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O’Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que 'só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade - só o poder pelo poder, poder puro.' “
                                                                              George Orwell 1984

Para ver « Mort d’un Président »

O cenário merece elogios, muito bem preparado. No detalhe “o” carro presidencial da época, um Citroën DS
                    O filme Mort d’un Président foi feito exclusivamente para a televisão e foi exibido pela primeira vez em 12/04/2011 na rede de canais France3 (que o próprio Pompidou criou quando presidente). No Brasil, o filme foi exibido pela primeira vez em 04/11/2011 no canal pago TV5 Monde. Por enquanto resta ficarmos na torcida que ele seja reexibido, pois pelo momento não é possível encontrá-lo nem para download nem para compra pela internet. Qualquer novidade em relação a isto, FrancePo imediatamente informará, pois Mort d’un Président é sem dúvida um filme que não deve ser desconsiderado em estudos da França da Vª República.




Um trecho do filme, mostrando o relacionamento de Pompidou com seus conselheiros Marie-France Garaud e Pierre Juillet.

Para saber mais indico o blog abaixo (em francês).



Oscar Berg,
Brésil, Le 7 Novembre 2011